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Viva a Boca do Lixo - Sertão em Festa




















Viva a Boca do Lixo


Sertão em Festa                                                  (publicado: 12/2012)

Por Gabriel Carneiro

A Boca do Lixo sempre teve espaço para os mais diversos gêneros fílmicos, que iam, em geral, muito além da dita pornochanchada, a comédia maliciosa. Terror, faroeste, drama, policial, etc, etc. A Boca do Lixo fez também, com bastante sucesso, o chamado filme rural, sertanejo ou caipira. Trabalhos que se passavam no interior de São Paulo e que traziam personagens que moram no campo, ligados à agropecuária de subsistência. Esses filmes rurais podiam ser comédias, dramas ou musicais – ou tudo junto -: o que os ligava é a prevalência do campo sobre a urbe. Inspirados no sucesso, entre outros e especialmente, do produtor, ator e diretor Amacio Mazzaropi, que ficou rico com as aventuras do Jeca, vários produtores e diretores se arriscaram na seara, via Boca do Lixo.

O diretor e fotógrafo Osvaldo de Oliveira já havia feito dois faroestes de cangaço O Cangaceiro Sem Deus e O Cangaceiro Sanguinário, ambos de 1969. O terceiro projeto para a Servicine, produtora de Alfredo Palácios e A. P. Galante, foi uma variação do universo do western: o filme rural, Sertão em Festa, que traz a dupla sertaneja de enorme prestígio à época, Tião Carreiro e Pardinho. O sucesso foi tão grande que Oliveira logo emendou Luar do Sertão e No Rancho Fundo, ambos de 1971, e o faroeste Rogo a Deus e Mando Bala (1972). Pau pra toda obra do Galante, Oliveira não voltaria mais ao universo caipira e desenvolveria longa carreira em outros gêneros, como a pornochanchada, e o WIP.

Sertão em Festa narra a história de um caipira, Nhô Simplício, dono de um pedaço de terra onde descobrem petróleo. Aconselhado pelo filho, que estudou na cidade grande, no caso, São Paulo, vende a terra e se muda para lá. Traz com ele a filha, prometida a um camponês. Como de praxe no gênero, o campo triunfa sobre a cidade, vista como um antro de pessoas desonestas e enganadoras. O campo é puro no filme. Nele, evidencia-se que a simplicidade faz da pessoa um ser melhor. Nem todos os filmes do gênero trazem essa conotação, mas a integridade sempre pertence ao homem do campo que é fiel às raízes.

Parte da graça do filme – e provavelmente o que faz dele algo delicioso de assistir – é o tom ingênuo com que é levado. Tudo nele é muito claro, inclusive a malícia. Oliveira sabe que a trama é um tanto óbvia e o que vai acontecer efetivamente importa menos. A graça está na celebração anárquica, que alterna números musicais da dupla sertaneja, escrachos do comediante Saracura, e o jogo de sedução entre Nhá Barbina e o mordomo, interpretado pelo cineasta Carlos Reichenbach. É nítido o prazer com que o diretor retrata esse mundo: sua admiração é enorme. Não há falsa e barata sociologia ou antropologia do meio. Oliveira é o meio, é aquele universo. Por conta disso, o carinho com que retrata seus personagens e com que insere a música de Tião Carreiro e Pardinho, grandes músicos, menosprezados pela intelectualidade, é gigantesco.

Há também uma sutil crítica, muito baseada em estereótipos do matuto, mas que se casa com o ideal de vida bastante em voga na época, contra o capitalismo. O sábio é o velho caipira que, após vender a terra, sente um enorme vazio, porque perdeu seu canto: que era sua vida. Pra ele, a fortuna alcançada e o casarão comprado na cidade grande de nada valem, pois são apenas bens materiais. É o discurso da simplicidade sempre triunfante sobre a modernidade complexa e interminável. Não à toa, o filme se encerra com a melancólica “Tristeza do Jeca” – que acabou servindo de base para o filme homônimo do Mazzaropi, talvez o melhor do Jeca.

O filme rural da Boca encontraria também um forte expoente com Jeremias Moreira Filho e seus dramas musicais com Sérgio Reis, mais triste e mais saudosistas, de um tempo que parece não mais existir, Ozualdo Candeias e seus filmes bastante críticos e algumas aventuras de Ary Fernandes, Rodrigo Montana, entre outros. Recentemente, Jeremias Moreira voltou ao gênero com a refilmagem de O Menino da Porteira (2009); e outro egresso da Boca, Fauzi Mansur, se arriscou na seara, com Casamento Brasileiro (2011), mas ninguém mais parece se ligar nesses filmes – ou não tem mais como arcar o abusivo preço do ingresso.


VER O FILME NA ÍNTEGRA AQUI

FICHA TÉCNICA:

Direção e roteiro: Osvaldo de Oliveira
Produtores: Alfredo Palácios, Antônio Polo Gallante
Diretor de Fotografia: Osvaldo de Oliveira
Montador: Sylvio Renoldi
Roteiro: Enzo Barone, Osvaldo de Oliveira (Baseada na novela “Sacrificados”, do livro “Meu Samburá”, de Cornélio Pires
Técnico de Som: Vitale Raul Música: Angelina de Oliveira, Tião Carreiro e Lourival dos Santos, Teddy Oliveira, Carreiro, Serrinha, Raul Torres, Ariovaldo Pires, Arlindo Pinto, Amarildo e Braz Vacarin, Capitão Furtado, Carreiro, Tião e Carreirinho, Manuel Marques, Martines, Márcio B. e Wilson Arrighi, Cornélio Pires.
Cenografia e Figurinos: Maria Ignes Silva
Elenco: Tião Carreiro e Pardinho, Simplício, Clenira Michel, Francisco de Franco, Marlene Costa, Egydio Éccio, Cecília Rosa Thumin, Nhô Juca, Darcy Silva, Carlos Reichenbach, Cavagnoli Neto, Canoinho, Manuel Marques, Paulo Cezar, Saracura e Nhá Barbina.

Ano: 1970

Companhia Cinematográfica Serrador // Servicine - Serviços Gerais de Cinema Ltda.





Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.