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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados - "Berlanga e o cinema espanhol sob o general Franco".
















Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


Berlanga e o cinema espanhol sob o general Franco (Bienvenido, Mr. Marshall)                         (publicado: 09/2012)

Por Humberto Pereira

O “Museu da Imagem e do Som (MIS)”, em parceria com o “Instituto Cervantes”, abriu suas portas recentemente (04 a 09 de setembro de 2012) para alguns dos mais destacados cineastas espanhóis que despontaram nos anos de 1950. A Mostra O Realismo no Cinema Espanhol colocou à disposição do público obras raras, pouco conhecidas e que oferecem um painel significativo do que foi o cinema espanhol nos anos de ditadura do “generalíssimo” Francisco Franco (1939-1975).

Assim, tiveram espaço na tela do “MIS” nomes como Juan Antonio Bardem, Marco Ferreri, Fernando Fernão Gomez, Jose Nives Conde, Carlos Saura, Luis Buñuel e Luis García Berlanga. Destes, este último ganhou destaque com a retrospectiva de parte importante de sua filmografia. Dele, foram exibidos Bienvenido, Mr. Marshall (1953), Plácido (1961), El Verdugo (1963) e Tamaño Natural (1973).

O destaque aqui será para Berlanga, em especial seu primeiro filme importante, Bienvenido, Mr. Marshall. Para tanto, vale realçar que algumas informações são necessárias para que se possa apreender o contexto histórico e social no qual este filme foi concebido. O “Plano Marshall”, oficialmente o Programa de Recuperação Europeia, foi implementado pelo governo americano com o objetivo de reconstruir os países europeus nos anos seguintes à II Grande Guerra. A Espanha, contudo, não estava entre os beneficiados pelo Plano.

Outra informação que não se pode perder de vista: a ditadura franquista teve início com o fim da sangrenta Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e, embora oficialmente neutro na II Guerra, o regime de Franco colaborou com os nazistas, por meio da Divisão Azul de Infantaria, na frente oriental contra a URSS. Berlanga, por sua vez, foi membro da Divisão Azul e combateu nas trincheiras russas. Sem meias palavras: ele esteve umbilicalmente ligado às forças franquistas tão logo a Guerra Civil terminou.

É nesse contexto de ânimos acirrados e tensões ideológicas à flor da pele que Berlanga surge no início dos anos de 1950 como renovador do cinema espanhol realizando uma sátira na qual os americanos contemplariam os espanhóis com o Plano Marshall. Um filme como Bienvenido, Mr. Marshall requer, entretanto, que se leve em conta muitos dados no tabuleiro de xadrez político, a fim de não se tirar conclusão precipitada. Ao adotar um tom satírico – caro aos espanhóis, bastando pensar no poeta Luis de Góngora, no século XVII –, ele teria como alvo imediato os valores tradicionais impostos com o franquismo. Mas o contexto histórico e a própria biografia de Berlanga não autorizam uma interpretação assim, sem que arestas sejam aparadas.

O caldeirão político e social em que a Espanha se viu imersa, com a abdicação do rei Afonso XIII em 1931, é demasiado complexo para um espectador distante. Berlanga está no meio desse caldeirão, do qual fazem parte posições extremas, em que o menor desvio, mesmo com o fim da guerra, significa o risco de fuzilamento (aliados próximos não são poupados e, ironias de um momento de extremos, o radicalismo leva a guinadas de posições inexplicáveis para quem está fora do caldeirão). O cineasta, que renovou o cinema espanhol com uma sátira sobre o poder e os costumes tradicionais, lida, de fato, com questões que mexem fundo na alma de um país que se manteve unido a custos altíssimos.

É nesse ambiente histórico e social tenso que Bienvenido, Mr. Marshall recorta um canto da Espanha, um povoado andaluz fictício chamado Villar del Rio (a verdadeira Villar del Rio não fica na Andaluzia e sim em Castela e Leão). Nele, como se vê nas primeiras imagens com narrativa em off, os habitantes estão imersos numa atmosfera prosaica, e nada acontece fora da rotina diária. Até que, na mesma manhã, a ausência de perturbação é quebrada com a chegada de uma famosa cantora folclórica e de representantes do governo que anunciam a vinda de uma comissão do Plano Marshall.

Espalhada a notícia, o vilarejo se prepara para receber a comissão americana. O que se segue é a maneira picaresca com que Berlanga mostra figuras do poder local, da Igreja, da Escola, de “estamentos oligárquicos”, de comerciantes empobrecidos e do populacho. Todos se excitam com a iminência da chegada dos americanos, e a narrativa flui de modo a contrapor os que são seduzidos pelos proventos esperados e os que resistem à “imiscuição” ianque em suas vidas.

O pano de fundo histórico e essa breve descrição do conteúdo do filme dão margem a questões que se pode suscitar. O que Berlanga quis satirizar com Bienvenido, Mr. Marshall? O que lhe garantiu a realização? Como este filme foi recebido?

Para esboçar respostas, levemos em conta em primeiro lugar que Berlanga é fruto de enormes contradições ideológicas que afetaram artistas e intelectuais espanhóis nas décadas de 1930 e 1940. Pablo Picasso, assumidamente simpático à causa comunista, apesar de sua célebre “Guernica”, se ausentou da Espanha durante a Guerra Civil, enquanto escritores como George Orwell se alistaram nas Brigadas Internacionais para lutar ao lado dos republicanos. Picasso decidiu ficar em Paris e, durante a ocupação nazista na II Guerra, não foi importunado, pois optou por silêncio obsequioso.

Assim, tanto quanto com respeito a Picasso, coerência seria a última coisa a se exigir de Berlanga. Bienvenido, Mr. Marshall, nesse sentido, bem pode carregar mensagens contraditórias. De um lado, serve-se como libelo antifranquista, na medida em que exibe com crueza a pobreza e o atraso de uma região da Espanha. Mais ainda, por que o regime franquista colaborou com o nazismo, os espanhóis não se beneficiaram com o Plano Marshall e, em consequência, ficaram isolados do “mundo civilizado”.

Mas é igualmente certo que o filme pode carregar mensagem anticapitalista, melhor, antiliberal, de acordo, pois, com a o espírito do ideário franquista. O Villar del Rio é tranquilo, autônomo, autossustentável, mantém tradições imemoriais e viu esse cotidiano perturbado com a iminência dos fetiches propiciados pelo capital. Nesse sentido, o foco da sátira seria a modernidade trazida pelos americanos. A modernidade seria a causa da corrupção dos costumes e das tradições.

Não há solução possível para esse dilema e, por conseguinte, uma resposta para a finalidade do filme. Mas são contradições em sua mensagem, justamente, que lhe dão grandeza como obra de arte. Numa situação tão indigesta como a que viveu, Berlanga plasmou nesse filme, por meio da sátira, aquilo que bem pode ser entendido como “espírito de época”. Ou seja, suas próprias contradições, as de artistas e intelectuais de sua época, estão capturadas de modo picaresco no microuniverso de Villar del Rio.

Ao se expressar de modo ambíguo, contudo, num espaço tão pouco tolerante com a suspeita de divergências, Berlanga não teve facilidade para realizá-lo, correndo o risco de vê-lo censurado e ser acusado de traidor. Bienvenido, Mr. Marshall foi possível porque corre num fio tênue. Berlanga, para todos os efeitos, não era simpatizante do comunismo, e seu filme tem força patriótica inconteste. A pobreza, o atraso e o isolamento do Villar del Rio são exibidos num tom bucólico, evocativo e carregado de bons sentimentos.

Contribuiu para que as autoridades franquistas o aceitassem o fato de que justamente em 1953 foram assinados acordos econômicos e militares com os Estados Unidos. Num momento em que o espectro do comunismo incita a paranoia americana, o regime do general Franco é cativado como aliado na Europa. Acrescenta-se que Bienvenido, Mr. Marshall foi premiado no Festival de Cannes de 1953 como a melhor comédia. Não era o caso, portanto, de censurar o filme e causar repercussão negativa em âmbito internacional. Tanto mais quanto ele não é explicitamente ofensivo à doutrina imposta.

Foi o trabalho que projetou Luis García Berlanga como o primeiro representante de porte do cinema espanhol no período franquista (lembremos que Luis Buñuel exilou-se no México, adotou cidadania mexicana e voltou à Espanha em 1960, não sem protestos dos republicanos, para filmar Viridiana). Em sua obra posterior, Berlanga mantém o tom irônico e satírico com que trata a sociedade espanhola. Nos anos seguintes, contudo, o regime se arrefece aos poucos, o que, justamente, torna possível a volta de Buñuel com seu herético e provocativo Viridiana (1961).

Nos anos mais duros do franquismo, Bienvenido, Mr. Marshall se sobressai, de fato, como um marco no qual se vê, em igual medida, os riscos de se fazer uma obra de arte em situação limite e como o valor de certas obras está entrelaçado – tanto no nível estético quanto político – ao momento histórico e social na qual foram concebidas. No Brasil, um bom exemplo é O Desafio (1965), de Paulo Cesar Saraceni. Nisso, nada de condicionante datado, mas pura e simplesmente que uma grande obra ensina a não se procurar o cinema como mero entretenimento.

Quem acompanhou a Mostra no MIS teve não só o privilégio de ver parcela significativa de uma cinematografia pouco acessível, como a ocasião para pensar nos estreitos limites entre arte e política. A filmografia de Berlanga dá ideia do quanto um filme pode ser político sem que tenha conteúdo marcadamente político. Bienvenido, Mr. Marshall, para espectadores hoje distantes, pode bem se resumir a uma comédia de costumes (e assim foi visto pelos espanhóis à época de seu lançamento). Resumi-lo assim, no entanto, é engano: muitos filmes, na aparência ingênuos, são mais provocativos e profundos que tantos outros calculadamente profundos.

Assim é o cinema, uma forma de expressão artística caprichosa, para a qual um olhar desatento pode trair expectativas, eventuais sentimentos de gosto e a percepção de mensagens políticas. Pena que Bienvenido;;; – tanto quanto a obra de Berlanga – não desperte atenção de distribuidores e não esteja disponível em DVD. Para além da efeméride da Mostra, só assim para poder revê-lo, absorvê-lo, apreciá-lo e aguçar o olhar para um dos filmes mais importantes dos anos de 1950.




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).