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Festival do Rio X Mostra de São Paulo: uma comparação inevitável.















Cesar Zamberlan

Caros amigos cinéfilos, sou um veterano da Mostra de São Paulo, acho que essa será a 17ª ou a 16ª que cubro, mas nunca tinha ido ao Festival do Rio, apesar dos insistentes convites dos amigos cariocas que todo ano vem a São Paulo.

Nesses anos todos de convívio com os cinéfilos cariocas, sempre perguntei a eles sobre as diferenças entre os dois eventos, como era o público do Festival do Rio, características da programação, como é organizado o evento lá etc

Pois bem, esse ano, tomei coragem, fiz umas dividazinhas e fui ao Rio para ver de perto como é o Festival de lá e, lógico, para ver alguns filmes. Por causa dos compromissos com a Faculdade, sou também professor, só pude ficar quatro dias. Cheguei na sexta e voltei na segunda à noite, mas apesar do pouco tempo, deu para ver 20 filmes e sentir o festival de perto.

Obviamente, as considerações que faço a seguir são muito pessoais e deve ser levado em conta que este é o meu primeiro Festival do Rio e que acompanhei apenas os quatro primeiros dias do festival que vai até o dia 6.

Qual é o melhor?

Feitas as ressalvas, a primeira coisa a ser dita é que os eventos são muito diferentes, têm objetivos muito diferentes e que, por esse motivo, não dá para dizer se um é melhor que o outro. Reconheço que esse juízo de valor é até infantil. Mas, não dá para escapar dessa pergunta, afinal todo cinéfilo a faz e ela reedita a boba, mas existente rixa entre paulistanos e cariocas. Por sorte, no campo da cinefilia, a relação entre paulistas e cariocas é de total congraçamento. Muitos até trocam hospedagem para poder acompanhar os dois eventos e a troca de informações entre os cinéfilos paulistas e cariocas é constante, mesmo fora do período das mostras.

Principais diferenças: programação

São inúmeras, mas a mais visível, até por estar estampada em toda a programação visual do evento, é que o Festival do Rio tem um caráter mais popular que o de São Paulo. Deixa ver se me explico melhor a partir de um detalhe que, na verdade, não é um detalhe: a capa do catálogo e os pôsteres do festival do Rio deste ano foram inspirados em filmes como “Cantando na Chuva”, “Forrest Gump” e “Oito e 1/2”, usando a paisagem carioca como cenário (Veja fotos ao lado); já a Mostra de São Paulo opta por desenhos feitos por cineastas cujo perfil estão diretamente associados ao evento, uma retrospectiva da sua obra, por exemplo, mas que não são, muitas vezes, conhecidos do grande público. A arte da Mostra já foi assinada por cineastas como Abbas Kiarostami, Amos Gitai (foto 4), Emir Kusturica, Atom Egoyan (Foto 2)entre outros. Cito só os casos mais recentes.

O que está estampado na programação visual é um reflexo dos diferenciados objetivos dos eventos. O festival do Rio tem uma preocupação turística enorme - o slogan do Festival é: “O Festival é internacional, a cidade nem se fala” - e procura envolver diversos pontos da cidade no evento, com tendas e debates que envolvem muitas pessoas, sobretudo jovens; por isso, talvez, tenha uma programação mais popular, mais acessível.

O de São Paulo também atrai muita gente a São Paulo, mas o foco da Mostra está mais no amplo e riquíssimo levantamento que a Mostra faz do que se produz de cinema no mundo do que num diálogo com um grande público. A Mostra faz menos concessões e arriscasse muito mais quanto à programação; enquanto a programação do Rio me parece mais contida. Vi alguns filmes da sessão “Expectativa” no Rio, apostas que o Festival faz, muitos nas pequenas salas do Estação Botafogo 2 e 3 e sem legendas e, de certa forma, esses filmes são os que mais se aproximam dos filmes da Mostras, mas ainda assim são filmes com narrativa mais convencional. Comentei isso com alguns amigos e eles discordaram, todo caso fica aqui registrada essa impressão.

A questão da competição

Outra diferença é o enfoque que o evento carioca dá á competição. Esse ano, o Festival do Rio será certamente o principal festival de cinema brasileiro do país. Gramado não conseguiu reunir nem de perto filmes com a qualidade da “Première Brasil” do Festival do Rio e Brasília pode até ter - como se imagina que terá - uma boa seleção, mas estão no Rio, alguns dos mais aguardados filmes brasileiros do ano, caso de “Cidade Baixa” de Sérgio Machado, “Crime Delicado” de Beto Brant, “Cinema, Aspirinas e Urubus” de Marcelo Gomes, “Moacir, Arte Bruta” de Walter Carvalho e “O fim e o princípio” de Eduardo Coutinho só para citar meia dúzia. Fora isso, as sessões destes filmes no Odeon, sejam as noturnas com apresentação do elenco e da equipe ou as matutinas a preços populares (R$ 2,00) e seguidas de debate na tenda em frente ao cinema na Cinelândia são especiais, dão ao cinema brasileiro um brilho, e glamour porquê não, que nenhum outro festival consegue, nem Gramado com seu ar fake. Contribui e muito para isso, o fato do Rio ser a cidade de muitos destes atores, ser a sede da Globo e manter, de certa forma, um clima de corte, apesar da mudança da capital ter ocorrido já há um bom tempo e da República ter sido proclamada em 1889.

A Mostra de São Paulo também é competitiva, mas é um outro tipo de competição. Fora isso, os filmes nacionais não são exibidos em cerimônias tão pomposas como o Rio. Nesse ponto, os dois eventos são bem diferentes e não é por causa disso que um é melhor ou pior que o outro. Repito: são diferentes.

Compra de ingressos

No Festival do Rio não existe a permanente integral que é o sonho de todo cinéfilo que participa da Mostra de São Paulo. No Rio, os pacotes maiores dão direito a 50 e 20 filmes. (Fiquei sabendo que se a sala não estiver lotada e você mostrar a permanente de 50, os monitores te deixam entrar). Quanto aos valores, acho que não seja o caso de traçar paralelos, mas no Rio a de 20 filmes custava R$ 120,00 e a de 50 custava R$ 240,00. E os preços dos ingressos variam de R$ 2,00 a R$ 13,00

No Rio, diferente de São Paulo, você pode trocar ingressos até para o último dia do Festival, ou seja, você tem que se programar com bastante critério porque pode correr o risco de perder algum filme mais concorrido, pois nos primeiros dias de Festival a sessão daquele filme pode estar esgotada, restando como única opção, comprar o ingresso no dia da exibição e no cinema que o exibirá, visto que 20% dos ingressos são guardados para a venda no dia. Em São Paulo, você pode trocar só pros três dias seguintes. Sinceramente, não consegui chegar a uma conclusão do que é melhor, mas vários cinéfilos do Rio me disseram preferir o esquema da Mostra de São Paulo.

Ainda em relação à venda antecipada de ingressos: no Rio, ela funcionou este ano no Espaço Unibanco, em Botafogo, e eu pelo menos não tive problema algum com fila, pelo contrário, sempre fui atendido rapidamente. No Rio, só são liberados para venda, ingressos de filmes que já estão liberados pela alfândega. No mais, as coisas funcionam tão bem como em São Paulo.

As sessões

Uma coisa curiosa que vi no Rio é que, ao contrário de São Paulo, você tem um espaço maior entre um filme e outro e é comum que a sala já esteja bem cheia mesmo 20 minutos antes da sessão começar, isso evita as filas que são a marca registrada da Mostra de São Paulo.

Esse intervalo maior é legal também porque você pode se alimentar e comentar os filmes. Outra coisa: não raro, as sessões começam uns 5 minutinhos antes do horário. Ah! No Espaço Unibanco de lá não passam os infernais comerciais da rede bancária, só os da Petrobrás, patrocinadora do evento, que passa em todos cinemas.

Com relação ao público, no Rio a presença do público jovem é bem acentuada nas sessões, sobretudo nas sessões da meia-noite, nas “Midnight Movies”. Em São Paulo, o público é bem mais mesclado. Por falar em sessões pela madrugada, uma vantagem do Rio, e aqui falo da cidade mesmo, é que na capital carioca você tem uma oferta muito maior de táxis e com preços bem mais baratos que São Paulo. Fora isso, os ônibus por lá circulam praticamente a noite toda. Em São Paulo, depois da meia noite, você vira abóbora.

Projeção

Não sou especialista no assunto, muito pelo contrário, mas gostei da qualidade da projeção e do som, sobretudo, no Espaço Unibanco 1 e 2. A sala 2 desde já minha preferida, junto é lógico com o Odeon. Freqüentei bastante a sala 2 do Botafogo, minúscula, tipo a sala 5 do espaço Unibanco de São Paulo, ou seja, sofrível. Não me arrisquei a ver as outras salas que compunham o Festival para não perder muitos filmes, fica para uma próxima.

Erros na projeção são comuns e explicáveis em eventos desse tipo. Já vi muitas coisas engraçadas como sessões cujos filmes foram exibidos com todos os rolos todos invertidos e coisas do tipo. No Rio, esse ano, aconteceu mais uma. Na sexta ou sétima troca de rolo no Estação Botafogo 2, o projecionista inverteu os filmes e colocou um rolo do filme anterior. Eu estava na sessão anterior e logo percebi o erro, o projecionista também e interrompeu a sessão. Só que ao invés de trocar o rolo, ele arrumou a janela e voltou a projetar o filme errado. Poucos segundos depois, ele se deu conta do erro e parou a projeção de novo: trocou o filme, colocou o filme certo, só que não voltou para a janela anterior, mantendo a janela errada na projeção até o final. Ninguém reclamou porque o filme estava no fim e porque o filme não era lá aquelas coisas, a imagem, lógico, ficou distorcida, mais alargada, mas, normal, isso acontece.

Bem, tenho muitas outras coisas a dizer, mas vou deixar para depois. Talvez escreva até uma parte 2 e deixo desde já aberto espaço para aqueles que queiram também colocar suas opiniões a respeito do assunto, afinal a o Festival do Rio vai até o dia 6 e a Mostra começa dia 22 e tem muita gente que acompanha os dois festivais há muito mais tempo que eu, podendo trazer informações até mais abalizadas e confiáveis que as minhas. Não esgoto o assunto e deixo aberto o espaço para quem quiser continuar com as comparações. Colocarei na coluna festivais, críticas dos filmes que vi no Rio.

Finalizando fica a sugestão: se puder acompanhe os dois festivais, porque de certa forma, eles se complementam.


Cesar Zamberlan é jornalista, professor da Fizo (Faculdade Integração Zona Oeste) e um dos editores do cinequanon.art.br