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“2 Filhos de Francisco”: um diálogo oportuno, honesto e de qualidade entre o bom cinema e o grande público











Cesar Zamberlan

Escrevo esse texto para reparar uma injustiça do site em relação a um filme e para encaminhar uma discussão iniciada nessa coluna em relação a “2 Filhos de Francisco”. Injustiça porque até o momento o único texto sobre o filme, o texto de Érico Fuks, traz à discussão aspectos sobre a opção do diretor Breno Silveira em relação ao foco narrativo do filme, ao meu ver plenamente justificado, e não ressalta as qualidades de "2 Filhos de Francisco" que são muito, mas muito maiores, que seus defeitos.

Poderia repetir aqui as palavras do internauta que rebateu de imediato as posições defendidas pelo Érico, e começar meu texto dizendo que também discordo veementemente, mas não vou trilhar esse caminho porque acho que nem é essa a discussão. Acho, e não poderia me calar nesse sentido, que a abordagem do texto do meu colega e editor do site é equivocada desde o seu princípio. Acho que ela parte de uma premissa falsa, questiona algo que está fora de questão, o velho e popular: “achar pelo em ovo” e acho - e isso ao meu ver é mais importante - que ao fazê-lo, desvia o foco do filme e da discussão mais importante: a da possibilidade de se fazer um filme comercial e popular, mas com enorme qualidade e sem ser extremamente apelativo. Desqualificar “2 Filhos de Francisco” por um aspecto ou outro - Érico cita também a questão do merchandising - e não reconhecer os méritos do filme é, concordo com o internauta, injusto e questionável.

Mas, antes de entrar na questão que proponho, queria explicar porque coloquei no texto tantas expressões como “acho”, “ao meu ver” etc.

Esse site nasceu desse tipo de discussão. Nasceu em filas de cinema e em bares, padarias e reuniões, nas quais o assunto cinema sempre prevalecia. A forte amizade entre seus editores e colaboradores nunca foi abalada por esse tipo de discordância cinefílica, pelo contrário, ela, aliás, fortaleceu o grupo, a amizade e fez nascer o próprio site. Site que defende a visão de cinema do cinéfilo, seja ele um crítico ou não. Dito isso, repito o que já escrevi nos meus parâmetros que estão na coluna "Quem somos": não me considero um crítico de cinema, não me considero embasado o suficiente para tal função. Cinema para mim é uma paixão e não uma profissão. Meu campo de estudo acadêmico, aliás, é outro: a literatura, mesmo que por ora tangenciando o cinema, caso das adaptações para o cinema de obras literárias. E dentro dessa proposta, jamais iríamos, site, ou iria, eu, um dos editores, censurar ou editar qualquer texto, como foi aventado pelo internauta e em nossa comunidade do orkut, mesmo se discordasse, eu ou os demais editores, de um ponto de vista. Isso seria assassinar o site no seu nascedouro. Dito isso, voltemos ao filme e a minha opinião.

Fui ver “2 Filhos de Francisco” com preconceito sim. Arrastado pela discussão gerada na coluna “Mil Toques” em função do texto do Érico. Quem me conhece sabe da minha ojeriza pela música sertaneja praticada por duplas como a do filme. Um filme sobre esse tipo de música me provocava, sim, calafrios. Mas, como o cinema é maior que isso, lá fui eu, sexta à noite para o Arteplex, numa sessão tomada por fãs de tal música que antes do filme quase entoaram os hits da dupla, isso sem falar nas pipocas que pululavam como na animação com as normas de segurança que precede a projeção.

Bem, digo isso para mostrar o tamanho da minha desconfiança em relação ao filme e a adversidade da situação. Mais um parênteses, não consigo excluir do julgamento do filme as condições nas quais ele foi recebido, a questão da expectativa em relação a ele etc.

Iniciada a projeção, o público logo silenciou e foi tomado, ou melhor, domado pelo filme. Eu, confesso, que como queria não gostar, demorei mais; mas, num determinado momento me rendi e vi que havia algo ali muito interessante: um diálogo oportuno, sincero e de qualidade entre o bom cinema e o grande público, peça vital para uma indústria chamada cinema e para a realização de filmes que eu gosto mais, que ousam mais, como “Harmada” do Capovilla, por exemplo. Pela lógica do sistema, um filme depende do outro. E se ambos cumprirem bem seus papeis, outros filmes brasileiros virão a ocupar seu espaço, as telas. A questão da distribuição é e todo mundo sabe um dos grande problemas do cinema brasileiro hoje e sempre. Não é à toa que torcemos tanto para que um filme brasileiro faça sucesso e como é bom quando isso ocorre com um filme com a qualidade de “2 Filhos de Francisco”.

Sai do cinema realizado, encantado com o filme, com seu roteiro, com sua montagem, música, com o elenco, com as figurações sempre tão complicadas no cinema brasileiro, com Ângelo Antônio e com José Dumont que, mais uma vez, rouba a cena. Nesse ponto, concordo com Fábio Yamaji, também editor deste site, que José Dumont é o melhor ator brasileiro de cinema hoje.

Não diria que “2 Filhos de Francisco” é o melhor filme brasileiro do ano, já confessei minha paixão por “Harmada” e gosto também de “Casa de Areia”, não vi “Bendito Fruto” e “Diabo a quatro”, preciso vê-los; mas é inegável que se trata de um grande filme, muito coerente com sua proposta, tocante sim e o que para mim é o mais importante: honesto com o espectador e com o cinema. “2 Filhos de Francisco” indica um belo caminho para o cinema brasileiro, mostrando que é possível fazer sucesso, dialogar com o grande público, mantendo a qualidade, não necessariamente o padrão globo de qualidade da TV, mas um padrão de qualidade do cinema, seja ele produzido pela Globo, pela Conspiração, por quem quer que seja.



Cesar Zamberlan é jornalista, professor da Fizo (Faculdade Integração Zona Oeste) e um dos editores do cinequanon.art.br