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35ª Mostra SP: balanço final "Texto de Érico Fuks (para seu blog, 'Lentilhas Vesgas' - 05/11/2011)"
















35ª Mostra SP: balanço final

Texto de Érico Fuks
(para seu blog, “Lentilhas Vesgas”)


De um modo geral, a avaliação que faço da Mostra deste ano é bem positiva. Claro que teve seus problemas, aos montes, mas é bom ressaltar que é a primeira Mostra-órfã desde a sua criação, e o fato de o Leon falecer às suas vésperas teve uma série de implicações. Como já falei antes, algumas medidas tomadas talvez foram, conscientemente ou não, uma tentativa de resgate dos bons tempos de Mostra, enquanto que algumas intempéries talvez possam servir de lição para as edições futuras.

Por uma questão prática, resolvi listar os pontos fortes, os pontos fracos e as medidas indiferentes do festival. Eles não estão necessariamente apresentados em ordem de importância ou de peso, mas creio serem, no meu julgamento pessoal, os fatores mais relevantes para a sua avaliação.

Pontos fracos da Mostra:

- “Digital”: definitivamente, este foi o problema mais grave da Mostra. Foram esses filmes que geraram o caos total. Ainda não estamos preparados a absorver esta tecnologia. Incompatibilidade de formatos, exibição fora dos padrões de conversão, equipamentos de projeção precários, e por aí vai. Hoje, a divisão não é mais dicotômica película/digital. Existem, para atrapalhar um pouco mais essa lógica, os diversos suportes do digital, que quase nunca se conversam. Nas próximas edições e nas futuras salas de cinema, os organizadores e exibidores vão ter de trocar os ultrapassados projecionistas por hackers. Ausência de áudio, imagem tremida que lembra um DVD pirata, imagem congelada, cores esmaecidas, interrupção abrupta da projeção, foram alguns dos problemas causados pelo famigerado digital.

- “Programação I”: além dois problemas em si, o digital foi também um dos principais responsáveis pela caótica programação. Todo ano, improvisos, retenções na alfândega e quetais fazem com que a programação inicialmente desenhada seja prejudicada. Mas este ano foi campeão. Principalmente na primeira semana, os problemas foram hercúleos. Nem dava tempo para anunciar as trocas de filmes. Em alguns dias, recebi e-mails que eram verdadeiros relatórios, tamanhas as substituições e cancelamentos. Teve casos de filmes que mudaram de sala e isso foi noticiado no horário do começo da sessão. Essas mudanças de última hora também comprometeram a troca de ingressos. Soube de filmes que sofreram alteração umas três vezes numa única sessão. Teve filme que atrasou quase 1 hora e, só após esse vácuo, os espectadores foram avisados do cancelamento da sessão. Testes de áudio e de legenda minutos antes do filme começar eram comuns. O guia de programação oficial da Mostra, aquele retangular, serviu apenas de referência. O Guia da Folha, então, apenas para as sinopses curtas. - “Programação II”: é sabido que alguns filmes, graças ao boca a boca, crescem durante a maratona e caem no gosto do público. E, em muitos casos, não dá para se prever o sucesso ou o fracasso de um filme, principalmente aqueles dirigidos por iniciantes. E, ainda por cima, sabemos como é complexo organizar uma grade de programação, pois tem de se levar em conta o formato/suporte do filme, sua duração, as exigências contratuais, o período de disponibilidade em São Paulo, entre outros fatores. Mas, ainda assim, vale frisar que a Mostra ainda não nos trouxe um modelo ideal de programação. É um desperdício assistir ao insignificante Maria My Love no espaçoso e vazio Cinesesc, que serviu de refugo frustrado para quem não conseguiu ingresso para ver o concorrido Las Acacias. O coreano The Day He Arrives foi programado pra passar no cubículo Cineartinho (Livraria Cultura 2). Na minha modesta opinião, não vejo problemas em passar um mesmo filme outras vezes na mesma sala, em vez de se tentar o rodízio completo. É possível programar melhor os filmes que ganharam festivais no exterior, filmes de diretores consagrados, filmes dos queridinhos da Mostra, filmes que fazem parte do fetiche dos cinéfilos. Parece óbvio, mas vale lembrar que concentração de público é que nem concentração de renda. Colocando na medida do possível os filmes mais concorridos em salas maiores, menos espectadores ficam do lado de fora. Com isso, vendem-se mais ingressos. E, quanto mais ingressos vendidos, mais dinheiro entra pros caixas da Mostra.

- “Monitoria”: antes de entrar no mérito da questão, vale ressaltar que muitos coordenadores dos monitores, em especial o que ficou de plantão no Unibanco Arteplex, soube conduzir com eficiência a sua função, mostrando-se ágil e atento aos inúmeros problemas e procurando trazer soluções imediatas dentro do possível. Mas a grande equipe de subalternos, principalmente os marinheiros de primeira viagem, os mais novinhos e colegiais, pareciam estar lá para fazer figuração. O público espera uma brigada de incêndio treinada e orientada para agir rapidamente em casos de emergência mas, em vez disso, encontra uma meninada desinformada, alheia e indiferente aos obstáculos e sem preparo algum para controlar a fúria dos pagantes ou atuar de maneira exemplar na condução das medidas improvisadas. Alguns até que são simpáticos e esforçadinhos, mas de boas intenções o Inferno tá cheio. Era comum ver os bilheteiros do próprio cinema se desdobrando e driblando a inércia dos novilhos. Já que a Mostra convoca uma farta equipe para fazer número e, com suas camisetas verdes, propagar o evento para as demais áreas e espaços, sugiro que, nas próximas edições, um dos monitores fique dentro da sala o filme inteiro para observar as falhas de projeção e que outro fique com um Nextel na mão para comunicar remotamente os problemas ao projecionista ou a alguém da Central. Fico com a impressão de que a monitoria foi orientada única e exclusivamente para distribuir e recolher as cédulas de votação.

- “Unibanco Arteplex”: sem dúvida alguma, o QG do caos. Shopping center já é uma aberração em si. Junte-se a isso um evento importante em suas dependências. Acrescente a época das compras de fim de ano e você pode ter uma noção aproximada do Apocalipse. Embora as bilheterias tenham sido relativamente rápidas no fluxo de venda de ingressos, foi insuficiente para evitar filas que, em alguns horários de pico, aproximavam-se das Lojas Americanas do andar de baixo. Apenas alguns milímetros separavam as filas que se formavam na entrada das salas. Correria, barulho, fuzuê, muvuca, lotação, tudo isso é pouco para tentar definir o pandemônio em que se transformou o relativamente calmo centro de compras da região da Augusta. Me senti no Armageddon.

- “Shhhhh”: é notório perceber que o público da Mostra tá mudando, tanto pela faixa etária quanto pelos gostos, costumes e comportamentos. Natural. A Mostra, além de exibir filmes, não deixa de ser um recorte social e cultural da cidade. Infelizmente, boa parte dessa nova safra trouxe a cultura Cinemark para dentro das salas do Adhemar de Oliveira. Em outras edições, meus amigos cinéfilos, igualmente rigorosos nas condições de silêncio que se exige ao se assistir a um filme, rogavam a quietude já nos primeiros segundos pós-vinheta. Mas em muitas sessões deste ano eles parecem ter desaparecido, e o comportamento egoísta imperou. Falatórios, cochichos, pipoca, chutes na cadeira da frente, atitudes típicas de blockbuster estavam ali nos ditos “filmes de arte”. Uma pena. Perde o público, perde o festival, perde a cinefilia. Como se não bastasse, a geração Y dos cinemas entende que a conectividade deve existir 24 horas por dia. Um bando de lanterninhas de luxo, vaga-lumes de plantão mandando e-mails e twittando em seus iPhones cada cena do filme.

- “Repescagem”: acredito que a organização da Mostra deve fazer um esforço sobrenatural para segurar os filmes no festival, mas os cinéfilos não podem deixar de lamentar, na semana de reprise, a ausência dos bem avaliados Era Uma Vez na Anatolia, Elena, Um Mundo Misterioso, Las Acacias, O Desaparecimento do Gato, The Day He Arrives, Hanezu, Desapego, O Dedo, Tudo pelo Poder, Forgiveness of Blood, Low Life, O Garoto de Bicicleta, entre outros.

- “Ingresso grátis”: por se tratar de órgãos públicos, o MIS e o Cinusp poderiam continuar oferecendo sessões gratuitas. Ou, pelo menos, cobrar o valor simbólico de R$ 1,00, como fazem o Olido e o Centro Cultural. O Matilha Cultural também deixou de abrigar a Mostra este ano.

Nem cheira nem fede (aspectos indiferentes da Mostra):

- “Belas Artes”: no começo do ano, o fechamento dessas salas causou comoção, indignação e criação de comunidades no Facebook. É triste notar, mas parece que o paulistano vem se acostumando à sensação de abandono do atual abrigo de mendigos. A riviera cinéfila paulistana não fez a mínima falta.

- “Pedala”: o discurso de sustentabilidade encontra-se presente em todas as empresas. O metrô e a Prefeitura criaram medidas, ainda que mínimas e paliativas, em prol dos ciclistas. Mas eu não vi uma viva alma que tenha se utilizado das bicicletarias da Mostra para se locomover entre uma sala e outra.

- “Coletiva”: a Renata de Almeida avisou que, a partir do ano que vem, pretende rever como e em que momento será realizada a coletiva de imprensa que apresenta o júri. O café da manhã, vale dizer, estava ótimo. Mas os jornalistas não tinham o que perguntar e os convidados não sabiam o que dizer. Situação constrangedora. Talvez seja o caso de organizar um evento menor ou posterior às escolhas dos filmes, para se criar, pelo menos, a curiosidade de esclarecimento dos critérios de seleção dos filmes mais votados pelo público.

Pontos fortes da Mostra:

- “Calor humano”: nem o invernico e as baixas temperaturas fora de época, nem o gelo do ar-condicionado das salas, foram capazes de esfriar o encontro caloroso dos amigos cinéfilos. Pra mim, a Mostra é algo que vai além dos filmes. É um prazer reencontrar as pessoas que você só vê uma vez por ano ou acabou de encontrar na semana passada. A Mostra proporciona a troca de ideias, o convívio, o debate, o crescimento pessoal em torno de um assunto que se desdobra em vários. A Mostra é o encontro, seja por meio das afinidades e interesses, seja por meio do saudável conflito de opiniões.

- “Retrospectiva”: mais uma vez, a Mostra surpreendeu. Talvez seja o ponto forte do festival. A escolha dos homenageados prova que a organização é desprovida de preconceitos e estereótipos. Do radical ao clássico, é possível apreciar cinema na sua forma mais pura e mais ampla. As retrospectivas trazem um grande material para o entendimento da Sétima Arte no seu aspecto mais vivo, tanto no tempo como no espaço. Cinema de pesquisa, cinema de acervo, cinema de contemplação. É o cinema em perspectiva, longe das amarras e dos rótulos.

- “Herzog”: não assisti ao outro documentário trazido pela Mostra, mas a exibição em 3D da Caverna dos Sonhos Esquecidos reergue a discussão em torno dos formatos e do que de fato é cinema comercial. A tecnologia em terceira dimensão utilizada neste impressionante documentário prova que o recurso não precisa ser necessariamente aplicado como truque de bilheteria e não se restringe aos gêneros mais acessíveis (terror, aventura, animação, filme-catástrofe, etc.). Aqui, o 3D tem uma função verdadeira: trazer aos nossos olhos a textura, as ranhuras, as estalactites de um mundo que o diretor ressuscita. A Caverna é um respiro, uma jornada pela descoberta. Dizer que se trata de uma obra-prima é pouco.

- Cinema russo: Fausto, Elena, Sábado Inocente, Movimento Reverso. Fazia tempo que os cinéfilos não viam cinema de qualidade de um determinado país em peso num mesmo festival. Com a abertura de mercado, tende-se a acreditar que a arte dê aquela relaxada e que os realizadores deixem de produzir trabalhos que fazem jus à fama do passado. Não é o caso da atual Rússia escolhida pela Mostra.

- “Thiago Stivaletti”: esse rapaz não só cresceu na Mostra, mas também cresceu junto com ela. De assessor de imprensa que cobria cabines, passou a exercer um papel fundamental no bom andamento do festival. A forma clara, sucinta e organizada de apresentar as informações mais relevantes ou cobrir eventuais lapsos de memória durante a coletiva de imprensa, a mediação nos debates do ciclo “Filmes da Minha Vida”, esses e outros eventos fazem do Thiago não apenas um assessor, mas quase um cônsul. Se continuar com essa mesma competência, aliada à sua simpatia e seu cavalheirismo de lorde inglês, esse moço vai longe...

- “MIS”: ir no contrafluxo da muvuca costuma render boas experiências. Foi o caso da sessão de Sábado Inocente. Sala vazia, dominada somente por cinéfilos e críticos. Durante o filme, silêncio sepulcral.

- “Remaster”: ouvi dizer que a primeira sessão de Taxi Driver foi bem complicada, e que o vermelho do filme estava tão apagado quanto o de balinha de padoca. Soube depois que foi um erro do projecionista, que trocou os padrões de conversão. Nas sessões seguintes, parece que a apreciação deste clássico foi de 100%, bem como de Laranja Mecânica na telona, sem as bolinhas tapa-sexo dos tempos da censura. Amarcord, 1900, O Leopardo, todos esses trabalhos ganharam nova roupagem e, ao que me consta, dignos de edição de colecionador, deixando ainda mais nítidas as marcas do cinema perfeccionista.



Érico Fuks é crítico de cinema, foi um dos criadores do Cinequanon, mantém seu blog “Lentilhas Vesgas”, e hoje é colaborador esporádico do site.