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2 Filhos de Francisco: Zezé di Camargo, Luciano e mais ninguém. Breno Silveira opta por exclusão do contexto como trajetória de narrativa.











Érico Fuks

A contradição já começa no título. A família em questão, na verdade, é composta por mais de meia dúzia de pimpolhos. Há até uma cena, colocada e editada de modo pra fazer rir, em que um filho nasce logo atrás do outro. Esse registro não é tratado como um problema, sequer como sintoma social. Seu jeito farsesco de exibir a reprodução em série faz com que se imagine que famílias pobres e pouco esclarecidas têm muitos filhos como condição incontestável. É o recurso da câmera se aproveitando da ingenuidade encenada e colocando o inchaço de sua prole miserável no mesmo patamar dos animais. Se não é um filme sociológico, tampouco biológico, resta concluir que 2 Filhos de Francisco , nome mais apropriado – e mais incoerente – que “Quase Uma Dezena de Rebentos”, é um filme assassino. A eutanásia que se faz com os “outros” centroestinos que não foram bem sucedidos na vida é ululante. Eles aparecem raríssimas vezes, em situações estáticas e fotográficas. Servem apenas para posar para quadros de parede de casebre. Estão nos recenseamentos demográficos, mas não na tela. Se as personalidades, individualidades e conflitos de cada um deles não interessam ao bom andamento da história, então está clara a intenção do diretor em mostrar um Brasil que dá certo, na música ou no futebol. Os demais pés-de-chinelo, os socialmente excluídos por sua desafinação vocal, aqueles que atrapalham a visualização de um retrato brasileiro que passou nos vestibulares da vida, são jogados na berlinda. Afinal, a quais “dois” filhos o diretor se refere? Aos que vendem milhares de discos, ou aos protagonistas que ocupam mais da metade da fita? Aos adultos que lotam estádios, ou aos moleques que imprimem um tom mais dramático à película, resgatando um pouco do neo-realismo italiano em solos áridos? Quer dizer então que o irmão imediatamente mais novo de Mirosmar (sim, esse é o nome que consta no RG de Zezé di Camargo) não faz parte dessa seletiva estatística porque morreu num acidente de automóvel?

Se a premissa algébrica do título é no mínimo questionável, os termos complementares também não ajudam muito. Até se dá pra enxergar nuances de um relacionamento rigoroso e metódico, regido por regras tacanhas e obtusas. Mas há muito pouco de pai e filho nesse caso. Apesar de ter seu nome estampado, o pai da “dupla” sertaneja é mero coadjuvante. Colocar nele as cenas mais risíveis, como fazer seus descendentes engolirem ovo cru ou convencer os peões de obra a ligar pra emissora de rádio, não o torna o centro do espetáculo. A construção da narrativa é, em última instância, calcada em Francisco Camargo. Prova disso é que em determinado momento o filme simplesmente abandona essa figura paterna para resgatá-la só no final. Esse sim é o seqüestro pelo qual a família passa aqui.

Outro ponto que não pode deixar de ser mencionado é a presença da instituição bancária patrocinadora e a maneira como esse merchandising é retratado. O Bradesco não serve apenas de pano-de-fundo ilustrativo, é de fato um personagem. Em suas duas breves porém marcantes aparições, contribui para a construção de um modelo de representação que enaltece o vencedor. Se em determinados filmes norte-americanos o estudo de visibilidade de marca chega a ser irônico por sua iconoclastia, como carros com suas logomarcas sendo amassados ou destruídos, aqui ocorre o contrário. A ostentação imagética do totem é imaculada. O banco citado é sólido, inquebrantável, monopoliza as paisagens e ofusca tudo aquilo que está ao seu redor. Na primeira cena, a instituição “interpreta” o papel de um segundo lar, uma extensão da casa da família, colaborando com a repercussão de que este patrimônio “está em tudo quanto é lugar”, até mesmo nos cafundós do interior de Goiás. Existe aqui a preocupação em manter o cenário brejeiro de um raciocínio metonímico: junto com a Igreja e uma famosa loja de roupas (ambos sugeridos porém não apresentados), esse trio representa o centro de todos os municípios pequenos do país. Pode até haver escassez de material e serviços de infra-estrutura básica, mas o Bradesco é um bem que não pode faltar em moquifo algum desse Brasil apocalíptico. Se essa “participação” no filme é indispensável, mais indispensável ainda é o vínculo que se cria entre imagem e roteiro. O banco aparece num momento em que há um convívio pacífico entre os habitantes da região, em que a dupla começa a fazer sucesso e, portanto, precisa de um cofre pra guardar suas parcas riquezas acumuladas. Ou seja, se 2 Filhos de Francisco é uma fábrica de sonhos levemente baseada em acontecimentos reais, o Bradesco é seu grande investidor.

Já na outra cena estamos em São Paulo, tempos atuais, metrópole, céu cinzento, mercado competitivo, lugar pra se ganhar dinheiro. O Empire State Building tupiniquim surge impávido, colossal, no meio de uma cidade paradoxalmente vazia. Um empreendimento moderno, com logotipo estilizado, que em nada lembra aquela cadernetinha de poupança branquinha e asseada dos sertões. À frente deste exterminador do futuro, somente a presença de Zezé di Camargo solo tentando a vida na terra da garoa. Embora o registro cromático seja outro, a proposta é exatamente a mesma: o Bradesco é o mecenas da música sertaneja. Em primeiro plano está o sonho, atrás dele sua concretização. Ou seja, o tal banco não é onipresente coisa nenhuma. No filme, figura apenas nos pedaços de Brasil que podem vigorar.

Até agora, aniquilou-se a nação paralítica do intróito, com sua linguagem adocicada feita pra agradar, colorida demais pra ser Vidas Secas e elaborada demais pra ser Guimarães Rosa. Já na parte megalopólica o filme não desfruta de tanto talento, embora continue firme em sua proposta excludente. Visto que a única coisa que sobrou foi um pedaço de família caracterizado como dupla sertaneja, resta entender o que é então este trabalho bígamo que rendeu tantos trocados ao par. O filme esboça uns acordes musicais lá no início, no som de um rádio velho, mas em nenhum momento trabalha o repertório atual dos compositores. Todo o pensar musical é limado. 2 Filhos de Francisco gira em torno de uma música só: É o Amor, o maior hit do duo, mais conhecida como a música de comercial de tempero pra legumes. Essa percepção minimalista deixa lacunas. Haveria mais verdade se esse estrondoso sucesso fosse analisado dentro de um contexto maior, na sua relativização de conteúdo. Ela emplacou nas paradas em detrimento de quais outras da carreira dos cantores? É este tema o que melhor traduz a maneira de ambos comporem suas letras? Por causa dessa seletividade autoral o que o filme menos mostra é música. Foi jabá à moda antiga e precária que rendeu a fama e a grana aos dois.

Excluir os excluídos não só é um objetivo pertinente, como também essa intenção deve ser respeitada. Muito embora ela não me agrade nem um pouco. O filme usa e abusa da tesoura ao ocultar um país que não interessa a ninguém. Há um certo engodo em querer mostrar uma realidade, mesmo que colorida, mas o que o filme mais tem em mente é fugir dela. Apóia-se o tempo todo em ganhadores de loteria.



Érico Fuks é editor do cinequanon.art.br e colaborador do site www.omelete.com.br .