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“Klaatu barada nikto”: um filme que suplicava pela paz.





















Gabriel Carneiro

O Dia em que a Terra Parou ("The Day the Earth Stood Still", de Robert Wise - 1951) foi o primeiro filme a ter grande repercussão dentro das ficções científicas que tratariam dos problemas referentes à Guerra Fria. Nele, podemos visualizar os principais temas de tais produções, mas não só isso: o filme tornou-se célebre e aclamado por sua visão, tentando amenizar a situação e buscando uma solução conciliadora, ao alertar o mundo dos perigos do acirramento dos conflitos.

Klaatu, uma espécie de diplomata do conselho espacial, veio à Terra com a missão de transmitir uma mensagem a todos os líderes mundiais. Junto com ele, em sua nave espacial, veio Gort, um robô de imensa capacidade de destruição. A primeira coisa que Klaatu fala, ao sair da nave e se dirigir aos terráqueos, é que ele vem em paz e boa vontade. Trazia uma resolução, ameaçadora sim, mas que iria instaurar a paz no mundo, acabando com o medo e a paranóia. Mas era justamente essa incerteza, tão bem retratada em O Dia em que a Terra Parou, que levou um militar a atirar em Klaatu, no momento em que pegou um objeto desconhecido aos humanos.

Klaatu era um ser estranho, vindo de um lugar ainda mais estranho. Em tempos de medo e paranóia inflados ao máximo pelas políticas governamentais de propagação do caráter maligno e incerto da URSS esquerdista, e pelas armas de destruição em massa, Klaatu representava o desconhecido, do qual se deve duvidar e acusar. Vem ao nosso planeta com uma mensagem de paz, mas é atacado e trancafiado no hospital onde recebe tratamento. Lá, fala ao representante da Casa Branca, que vai visitá-lo, da importância em agregar todos os líderes mundiais sob o mesmo teto para que possa lhes transmitir sua missão. O representante tenta, mas não consegue convencer o presidente dos EUA e nem o da URSS a se reunirem. Diz ainda: “Tenho certeza que você reconhece de nossas transmissões as forças malignas que produziram uma tensão em nosso mundo”. Ou seja, o que o representante quer dizer a Klaatu é que eles são os heróis e os soviéticos são as forças malignas que bagunçaram o planeta, tentando assim fazer com que o visitante extraterreno lhes conte por que veio. Klaatu interrompe-o e replica: “Não me preocupam as políticas internas de seu planeta. Considero isso ser assunto de vocês, não meu.” Para Klaatu, não faz diferença se você está do lado dos EUA ou da URSS: tal rixa é banal.

Se nem os grandes líderes mundiais conseguiam enxergar além de suas próprias querelas mundanas e pequenas diante da imensidão que é a vida e o universo, a Terra era um lugar condenado, certo? É o que pensa Klaatu quando escapa do hospital para fazer uma pesquisa de campo com os civis, assumindo a identidade de um terráqueo. Nessa sua curta jornada é que notamos o tamanho da paranóia da sociedade. Não só escuta na mídia e em comentários da população como ele é perigoso e uma ameaça. Na pensão em que passa residir, ouve de uma mulher: “Se você quer minha opinião, ele [o alienígena] vem daqui da terra mesmo, e você sabe de onde quero dizer”, em alusão à URSS. Um homem retruca: “Eles não viriam em naves espaciais e sim em aviões”, e ela conclui: “Eu não tenho tanta certeza quanto a isso”.

Uma medida que toma para alertar a população é fazer a Terra parar por 30 minutos: nada parece funcionar, de carros a relógios, de elevadores a telefones, com exceção de aviões e hospitais. Porém, isso só assusta mais o governo norte-americano. Mesmo que sua medida não tenha machucado ninguém, passa a ser caçado. Torna-se a ameaça número 1. Se visto, deve ser morto.

Klaatu, felizmente para todos, encontra pessoas que não são tão paranóicas, e decide prosseguir com seu plano de avisar a Terra de um problema maior: se o nosso planeta não mudar a conduta e findar com as rudimentares armas nucleares, como diz, que possuímos e cada vez mais produzimos, haverá uma conseqüência maior. A Terra se destruir não é um problema tão grande quanto tentar expandir espacialmente essa guerra, com outros planetas, ameaçando a paz intergaláctica que reina. Klaatu ainda aponta que a energia nuclear pode ser usada positivamente, como combustível e fornecedora de eletricidade. Se para nós, no século XXI, isso pode parecer besteira, não é à toa que está no filme: no imaginário popular, energia atômica significava destruição em massa.

Como argumento para findar a guerra, O Dia em que a Terra Parou coloca o garoto Billy e Klaatu no cemitério de Arlington, um local reservado apenas para militares mortos em combate e veteranos. Billy havia perdido seu pai na 2ª Guerra Mundial. Klaatu fica surpreso ao ver um cemitério só para mortos na guerra e ressalta: “de onde venho, não há guerras”. A guerra aqui assume outra ótica, a de falência do mundo. A guerra, que já foi muita defendida como forma de manutenção do poder e de defesa da nação, toma outra configuração, a de medida desesperada frente à impossibilidade de sermos racionais e resolvermos os problemas diplomaticamente, ainda mais porque não existem problemas grandes o suficiente que valham colocar em perigo milhões de pessoas pelo mundo.

Talvez por isso Klaatu seja tido como uma alegoria de Cristo. Ele veio dos céus pregando a paz e o fim da guerra – usando inclusive o nome Carpenter (carpinteiro, em inglês) quando infiltrado. Assumir essa visão é ainda mais interessante para a interpretação do filme: nem Cristo seria capaz de fazer os dirigentes da Terra evitarem uma catástrofe mundial.



Gabriel Carneiro é editor da Revista Zingu! e colaborador titular do Cinequanon.