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Sobre cinemas de rua



















Cid Nader

Parece até coisa pra lá de envelhecida e ultrapassada conclamar atenção aos cinemas de rua numa cidade como São Paulo. Hiper importante perceber que a realidade é outra e que o mundo atual tende a caminhar (pobremente) nos shoppings – se divertir, apreciar, respirar os ares condicionados, se proteger da violência exterior, obturar o olhar, comer em praças de alimentação... Como se percebe, o cinema fora das ruas e enclausurado dentro desses estabelecimentos (ou similares) seria apenas das coisas a serem reclamadas quanto à fuga das ruas e das diversões nas portas que dão “de cara” para elas. Até coisa de poucos anos – diria que bem pertinho do final dos anos 90, se bem que do milênio passado – um movimento reclamatório insistia em andar na contramão do óbvio que acenava com a extinção desse modelo de salas de exibição, fazendo crer aos mais puros e crentes que algum tipo de bloqueio ao processo, ou virada no que já estava muito estabelecido, poderia ocorrer: fazendo-nos crer nas coisas de tempos mais lúdicos ressurgindo de dentro de um mundo bastante hostil e agressivo financeiramente.

Situando-me na cidade São Paulo, e tentado perceber como tal fenômeno poderia ser processado hoje, já entrando na segunda década do terceiro milênio, penso nas salas que ainda desafiam a lógica das lógicas e “insistem” em lutar contra tudo e todas as obviedades reinantes: sem fazer pesquisas em bairros mais afastados e relegando a uma outra categoria de arte os “cinemas pornôs”, que existem em razoável quantidade no nosso centro antigo, lembro-me do Cinesesc na Rua Augusta e do (agora) Cine Sabesp, na Fradique Coutinho, no bairro de Pinheiros. Sendo um pouco menos rigoroso, lembraria também dos complexos de salas que não pertencem a estabelecimentos que privilegiam outros comércios como mola motora, e poderia citar o Belas Artes, na rua da Consolação (lutando contra um fim possível caso algum investidor forte não se apiede de sua situação), o Reserva Cultural, na Paulista, ou o mais bem sucedido pela manutenção de afluência versus anos de vida, o Espaço Unibanco, voltando à rua Augusta. Sim, ia me esquecendo do Lumière (agora sob as custódias da UOL), duas salas que insistem em permanecer vivas no na Joaquim Floriano, e também do mais antigo de todos, o Marabá, na Avenida Ipiranga, que sobreviveu graças a uma mudança significativa em sua gênese, fatiado em transformado em um multiplex.

Fica nítida uma coincidência: são salas que sobrevivem, cada uma com seus percalços, num circuito frequentado por cinéfilos que fazem do cinema sua maior opção intelectual, seu rumo certo em busca de lazer, e que quase sempre dão preferência a filmes que não sejam originários de grandes estúdios, ou de frutos lançamentos em mais ampla escala.

Penso nos que “atuam” mais dentro do padrão antigo "cinema de rua", que seriam as salas únicas do Cinesesc e do Cine Sabesp (vá lá, as duas Lumière, também). O Cinesesc consegue sobreviver com um padrão elevado de conservação graças evidentemente ao fato de ser mais uma unidade do “Serviço Social do Comércio”, fato que a desobriga da renda das bilheterias. As duas do Lumière vão se levando aos trancos e barrancos – reformadas e bem conservadas, sim -, mas sempre ressurgindo das cinzas que ameaçam quando um novo patrocinador entra em cena para ajudá-las, livrando-as da penúria que é tentar sobreviver da venda de ingressos. Mas, talvez, o caso mais inusitado na contra-mão da lógica insista em direcionar nossas atenções à sala da Fradique Coutinho, que nasceu “Fiammeta” no final dos 50, está localizada num bairro, passou uma boa quantidade de seu tempo como a sala oficial de exibição da “Cinemateca Brasileira”, voltando a arriscar o pescoço sob o cineclubismo (quando voltou a ser renomeada como na origem), até ser “adquirida” como um investimento afetivo do “Circuito Cinearte”, tocado por Adhemar Oliveira e Leon Cackoff.

Insistindo na luta contra a lógica mercantilista, percebe-se que eles (Adhemar e Leon – este último, mentor da Mostra Internacional de São Paulo) arriscam muito de suas possibilidades ao defender um local que, infelizmente, não se sustentaria por suas próprias pernas, nem se lotasse em todas sessões. Existe um fenômeno estranho atualmente que contribui fortemente – além das “facilidades” citadas acima que fazem dos shoppings paraísos recorríveis – para a inviabilidade desse modelo de salas persistir: o do custo para a manutenção sempre acima do possível arrecadado no picado do dia-a-dia. “Aluguéis e impostos altos, despesas outras (eletricidade, seguros, gastos com os filmes e manutenção dos equipamentos...)”, lamentam-se os donos desses exíguos locais. Cackoff disse na coletiva de re-inauguração da ex- UOL, ex-IG e mais recentemente, ex-Cinema da Vila (nome lindo), agora sob a proteção da empresa de águas da cidade, a Sabesp, que sem o investimento de entidades patrocinadoras não há como tocar adiante a manutenção de uma sala dessas.

Mesmo sendo favorável ludicamente à existência de alguns desses espaços ainda – uma luta contra o poder e o aburguesamento, afinal de contas -, não costumo acreditar, principalmente pelo pregresso, na vida longa deles após um novo ressurgimento. Patrocinadores têm entrado, e saído, tempos depois, por diversas vezes dessas empreitadas, o que causa uma estranha sensação de angústia quando percebemos que aquilo pelo que vibramos por persistir e resistir está prestes a ser vencido. Talvez o modelo seduza a eles: numa primeira olhada, quem investe grana para ver seu nome alcunhando às fachadas de espaços tão simbólicos imagina que tal modo de marca ultrapassará as obviedades da publicidade comum com cara de propaganda, enfim. Mas a realidade os faz fugir aos primeiros “fracassos” (como se o investimento – normalmente pequeno ante o montante de suas atividades, ante seus tamanhos - “perdido” fosse fazer tais empresas sucumbirem e falirem). Há uma má interpretação dos investidores na origem da coisa, que dispara o alarme financeiro aos primeiros sinais inevitáveis de retorno pífio via bilheteria.

Por conta disso e da insistência na manutenção da sala de Pinheiros, a ideia de vê-la transformada no último ano “simplesmente” sob o nome de Cinema da Vila, esquentava a paixão pelo bairro e pela sala, enquanto deixava os mais atentos sempre prevenidos para o que possivelmente viria á frente. Por conta da reabertura com o nome e parceria da "Sabesp", nada de mais estupendo despertaria, a princípio, certezas diferentes, esperanças em novos rumos. Porém – sendo muito cedo para qualquer análise com alguma carga de certeza – o fato de a empresa ter entrado na “jogada” com alguns diferenciais, quanto ao que costumeiramente ocorre, me fez pensar que, “talvez dessa vez vá”.

Os representantes da empresa na ocasião da reabertura e numa breve coletiva mostravam-se entusiasmados – fato comum -, tanto quanto Leon Cackoff (o representante da dupla de “donos” presente na ocasião). O que pode causar um diferencial dessa vez está na gestão artística do local. A "Sabesp" se mostrou entusiasmada em fazer do local algo mais do que um cinema do circuito – circuito diferenciado, mas circuito -, imaginando estratégias de compartilhamento dos tempos da sala. Já citaram festivais com condução própria, alguns só na intenção e outros já definidos, como um para crianças, que até fugiria do aspecto “cinema somente”, por focar suas atenções nos videogames; um outro evento em setembro ligado a cinema e ecologia; mais um ainda em dezembro de cinema infantil. Além da possibilidade da atuação junto ao Cinusp para que as mostras de lá ganhem um espaço paralelo mais próximo das “pessoas comuns” (falaram, também, em sessões quinzenais e gratuitas para crianças trazidas para a sala).

Na realidade, o que faz pressupor sucesso maior na parceria reside no fato de boa parte da programação poder ser desvinculada dos donos do pedaço (inclusive, cá para mim, tirando um certo peso dos ombros de quem de direito, quanto à obrigação que eles mesmoms se impõem em acertar sempre nas escolhas: no que refere a filmes que trariam público em quantidade razoável), integrando de forma bem mais orgânica esses patrocinadores ao espaço no qual estão investindo, o que fará com que atitudes mais amplas de dinamicidade sejam executadas, antes de se pensar em cair novamente fora da empreitada. É uma impressão de parceria de verdade (em vários aspectos), e não somente de solução imediata e que resolve os problemas por um ou dois anos. Não creio no resgate de outras salas de cinema de rua em caso de acerto na proposta, mas, se correto o modelo imaginado, a salvação de alguns dos locais citados e em complicada situação atualmente possa gerar mais certezas, do que imaginação ou truquinhos maquiadores (deixando toda estrutura técnica, velha e defasada) que alguns donos engendram na tentativa de mostrar razões para gastos de novos investidores (outro fator que, com certeza, tem assustado quem apostou recentemente em alguns locais). Ao menos por um tempo – quem sabe por muito -, o especial bairro de Pinheiros continuará contando com uma de suas maiores pérolas.


FOTO 1: Interior do Cine Fiammeta.
FOTO 2: Cine Lumière.
FOTO 3: Nos tempos da Cinemateca.
FOTO 4: Cinesesc.
FOTO 5: Cine Belas Artes.
FOTO 6: Cine Marabá.




Cid Nader é editor e crítico do site.