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Cinema, Um Ato Político: “Pink Floyd – The Wall”
























Cinema, Um Ato Político


" Pink Floyd – The Wall"                                    (publicado: 11/2016)


Por Humberto Pereira da Silva

Pink Floyd - The Wall é de 1982, dirigido por Alan Parker e baseado no álbum The Wall, da banda de rock Pink Floyd. O roteiro do filme foi escrito por Roger Waters, vocalista e baixista da banda. Trata-se de um filme que mistura vídeo clipe, ficção e animação: de modo que, num primeiro momento, não é filme de fácil classificação. Waters teve a ideia a partir do incidente com um espectador da banda num show no Canadá. Ele se indispôs com um rapaz na plateia e o esmurrou. A experiência, segundo relato que dá nos extras do filme, o levou a questionar sobre a barreira entre músicos e público. Essa ideia inicial foi ampliada com foco em episódios de sua vida pessoal: a morte do pai na II Guerra Mundial, a educação tradicional que teve, e a forte proteção da mãe. Esses ingredientes são condensados de modo a se ter no filme uma metáfora da sociedade moderna e industrializada, a partir da experiência pessoal que é dada por Roger Waters.

Por se tratar de metáfora, admite-se, portanto, que Pink Floyd – The Wall é sujeito a muitas interpretações. O que perpassa a todo instante é a tensão entre a necessidade de existência de “parede” que separe as pessoas e na mesma medida os efeitos negativos dessa “parede” para que as pessoas tenham uma vida autêntica. A parede, ou o muro, fecha as pessoas num mundo próprio, sem comunicação: mas, sem ela reinaria a anarquia, com todos expostos a toda sorte de imprevistos. Diante dessa tensão, o filme se apresenta como um libelo à liberdade: na cena final o muro é destruído por uma explosão. Sua mensagem incita, então, à derrubada de muros que prendem as pessoas em suas experiências pessoais. O filme se abre aos riscos de novas experiências e instiga as pessoas a se desamarrarem do falso sentimento de proteção que a sociedade oferece.

Como foi destacado, The Wall é um filme de 1982, sete anos, portanto, antes da queda do muro de Berlim e do fim do comunismo soviético. Como metáfora pode bem ser pensado antecipatório daqueles episódios. Quase que de modo cabalístico, em 1982 haviam se passado quatorze anos na “Primavera de Praga” e das rebeliões estudantis pelo mundo, no que ficou conhecido como Movimento da Juventude de Maio de 68. Tendo em vista essas datas, The Wall se equilibra entre momentos históricos distintos, com mensagem que se encaixa perfeitamente no espírito de rebeldia juvenil dos anos de 1960.

Baseado na experiência pessoal de Roger Waters, o filme pode ser pensado também como livre adaptação de livros como “Eros e Civilização” e “Ideologia da Sociedade Industrial”, do filósofo frankfurtiano Herbert Marcuse. Para Marcuse, o problema da sociedade moderna reside na invasão de produtos de consumo e na quantificação da performance em todos os domínios do pensamento. Essa mentalidade representa de modo intimo os processos de alienação a que todos são submetidos num mundo orientado pela forma mercadoria. Com isso, Marcuse apresenta uma crítica ao racionalismo da sociedade moderna, e ao mesmo tempo o caminho para sua superação: a contestação pelos marginais que foram segregados pela lógica do consumo.

Essas ideias básicas de Marcuse, que serviram de cimento para a contestação juvenil dos anos de 1960, estão plasmadas em The Wall. Filme que, de fato, carrega forte apelo para a subversão da ordem, com a derrubada de muros que demarcam fronteiras entre os que integram a sociedade e quem é excluído. Nesse sentido, embora não seja seu foco principal, a se levar em conta as motivações explicitas de Roger Waters, a instituição escolar é apresentada como o espaço privilegiado na orientação de processos de alienação a que a juventude é submetida. The Wall carrega, então, o pressuposto de uma sociedade sem escolas, como defendido pelo educador anarquista austríaco Ivan Illich, no livro “Sociedade Sem Escolas”. Daí, a interpretação que se pode fazer da sequência em que jovens enfileirados marcham mascarados em direção a um fosso e são triturados por uma máquina que os devolve como massa informe, absolutamente indiferenciada, como se linha de produção de carne moída.

O filme se apresenta, portanto, trabalho cujas imagens espelham como poucos o espírito de época. Ideias que podem ser encontradas por aqui em letras de música como “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso, apresentada no Festival Internacional da Canção em 1968: “derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças, livros, sim...”. O que se tem em The Wall, como na letra de Caetano, é o sentimento de que as instituições que legitimam o saber e a ordem na sociedade industrial são no fundo fontes de alienação. Assim, na medida em que espelha o espírito de época, o filme de Alan Parker deixa nas entrelinhas uma questão que se coloca quando se pensa nos fins da educação numa sociedade que se move pelo imperativo da forma mercadoria e na quantificação da performance.

Mas, como foi destacado acima, The Wall percorre 2/3 do caminho que separa a rebelião estudantil e a efetiva quebra do muro de Berlim em 1989. A quebra do muro que separava comunistas e capitalistas em 1989 simboliza a vitória do capitalismo, e com ela uma geração que não só se afasta progressivamente da política como arrefece o ímpeto rebelde e se conforma aos imperativos do consumo e do individualismo burguês. Quer dizer, após a quebra do muro o que despontou foi uma geração perfeitamente afinada à lógica, que tem a instituição escolar como linha de produção de carne moída.

Visto hoje, um filme como esse permite que se reflita como o espírito de rebeldia e o estímulo à transformação da sociedade de duas ou três gerações atrás podem ser apreendidos pelos jovens dos dias de hoje. A esse respeito, vê-lo ou revê-lo instiga as mais diversas questões, quanto o contrapomos ao tempo no qual vivemos. Suas imagens propiciam uma experiência nostálgica, e com isso o filme tão somente mostra que as motivações da geração dos 1960 não cabem mais nos dia atuais? Ou, pelo contrário, vê-lo instigaria a geração atual a se rebelar frente ao conformismo de um sistema social e de ensino que prega o tempo todo o melhor desempenho e, subliminarmente, a falsa felicidade consumista?




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural. Também autor de: "Ir ao Cinema: Um Olhar sobre Filmes" (Musa Editora); “Glauber Rocha: Cinema, Estética e Revolução” (Paco Editoral).