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O olhar que não quer ver









Marcelo Lyra

(Marcelo Lyra questiona texto de Luis Felipe Pondé que aborda uma suposta superioridade argentina sobre o cinema brasileiro, usando para tal parâmetro comparativo o número de "Oscars" ganho por cada país)


A coluna “O Olhar da Câmera”, da Folha de S. Paulo de alguns dias, assinada pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, usa o Oscar vencido pelo argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan Jose Campanella como ponto de partida para comparar os cinemas brasileiro e argentino, afirmando categoricamente: “O cinema de "los hermanos" é melhor do que o brasileiro”. Jean Claude Bernardet fez afirmação semelhante tempos atrás, de forma mais fundamentada, mas a meu ver não menos equivocada. Mas o texto de Pondé, pela leviandade dos argumentos, e por propagar um equivocado senso comum sobre a qualidade do cinema brasileiro, não deve ficar sem resposta.

O texto já começa escorregando ao considerar o prêmio da Academia de Hollywood um reconhecimento cultural, e não o prêmio de uma indústria que ele é na verdade. A vitória num Oscar não coloca nenhuma cinematografia acima de outra. Nem estou levando em conta que o “justo” (na opinião do filósofo) Oscar para o argentino foi na verdade uma enorme zebra. O filme de Campanella não chega aos pés de seu concorrente “A Fita Branca”, do Haneke, exceto na categoria melodrama. Essa vitória é mais uma sandice do pessoal do Oscar, comparável à vitória de “Rocky, um Lutador” sobre o infinitamente superior “Taxi Driver”. “O Segredo...” é um dramalhão proustiano, lacrimoso, com um roteiro mastigadinho e sem nuances, à maneira clássica de Campanella, diretor de larga carreira em séries de TV nos EUA, como “House” e “Lei e Ordem”. É um filme triste como um tango argentino, a exemplo de seu filme anterior, “O Filho da Noiva”, e esteticamente conservador, na linha do cinema comercial americano, daqueles que se assiste com prazer e pouco depois nem lembramos mais.

O Oscar é uma festa, não se compara a festivais sérios como Cannes ou Berlim, onde se discute cinema, observam-se tendências estéticas etc. A Argentina tem dois Oscar. O Brasil tem uma Palma de Ouro. Vale lembrar que anos atrás “Central do Brasil”, de Walter Salles, foi indicado ao Oscar, mas como não deu zebra, quem levou foi o superior “A Vida É Bela”. Em compensação, o brasileiro ganhou Bafta, Leão de Ouro em Veneza e é um filme bem mais sólido em termos estéticos que o argentino "O Segredo dos Seus Olhos". Detalhe, os argentinos nunca venceram a Palma de Ouro de Cannes, o respeitado prêmio europeu que o belo “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, levou nos anos 60. Isso torna uma cinematografia melhor que a outra?

Mas antes de analisar o texto de Pondé, vamos a uma questão de ordem. A que cinema argentino Pondé se refere? Ao que me consta, a Argentina produz algo em torno de 50 filmes por ano. Só meia dúzia chega mal aos nossos cinemas comerciais, e em pouquíssimas salas. Além deles, mais uns três ou quatro vêm para circuitos alternativos e de festivais como a Mostra Internacional de Cinema ou Mostra do Rio, e eles e mais outra meia dúzia vêm para o Festival Latino do Memorial da América Latina. Ou seja, mesmo o mais dedicado dos cinéfilos não conseguiria assistir nem 30% da produção da Argentina. Como analisar uma cinematografia vendo tão pouco? E não me venham com a afirmação que os melhores filmes circulam internacionalmente, pois muitos filmes bons não saem, isso Brasil e Argentina têm em comum.

Numa análise cuidadosa, “O Segredo...” nem ganharia de “Cidade de Deus”, por exemplo, em quesitos como movimentação de câmera afinada com a dramaturgia, ambientação de um lugar, direção de arte etc. E olhe que nem considero “Cidade de Deus” o melhor filme da dita Retomada do cinema brasileiro, título que na minha opinião vai para “O Invasor”, de Beto Brant.

A frase de Pondé “nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social” é tão vazia quanto sua ambição definidora.

Por partes. Qual cinema tem tradição estética? Só o cinema americano tem pelo menos meia dúzia de correntes. E desde que a Vera Cruz importou o modelo narrativo clássico, nos anos 50, nosso cinema vem contrapondo modelos estéticos. No fundo, o apego à tradição estética é o último refúgio dos reacionários culturais. As grandes cinematografias mundiais são justamente as que volta e meia rompem as tradições estéticas. Há maior ruptura do que, a seu tempo, “Cidadão Kane”, “O Acossado”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” ou “Pulp Fiction”?? O que seria da pintura sem rupturas como o cubismo ou o modernismo?

“Obcecado por temas monótonos” é outra afirmação que só arranca aplausos de alunos ou seus patrões que não conhecem o cinema brasileiro. Ela não se sustenta nem diante da lista anual de produções brasileiras de qualquer ano. A própria definição do que seria monótono é muito subjetiva. Cansei de ouvir, em filas de cinema de shoppings, equivalências como “Cinema iraniano é muito chato!” E já ouvi de alunos da Faap certa vez que “Godard é muito chato”. O horror, o horror.

E o rótulo “amador em termos de conteúdo”? Indica que talvez Pondé tenha parado sua cinefilia na época das chanchadas. Certamente não assistiu “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “O Céu de Suely”, “Cidade Baixa”, “Cão Sem Dono”, “Mutum”, “Jogo de Cena”, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, “Linha de Passe” e “Antônia”, só para citar alguns bons exemplos das safras recentes que me vêm à memória. Qualquer um dessa listinha rápida é superior em termos de estética e conteúdo a “O Segredo dos Seus Olhos”.

Diante dos filmes citados, cabem duas perguntas: qual deles se vê como “instrumento de transformação social”? E, sabendo da baixa penetração junto ao público do nosso cinema, que diretor hoje, em sã consciência, acha que está fazendo um filme para mudar o mundo?

Pondé vai além. Diz que arte não deve ser política. Nem vou citar o quadro Guernica, de Picasso, e muito menos recomendar a leitura do interessante “Cinema Político Italiano”, de Elisa Resegotti e Angela Prudenzi, lançado pela editora Cosac & Naif. Muito menos lembrar que o Neo Realismo foi um cinema político na medida em que trouxe para as telas questões sociais. Vamos ficar apenas no cinema brasileiro que ele tanto detesta, e falar de “Prá Frente Brasil”, um dos mais fortes libelos contra a Ditadura Militar, feito por Roberto Farias, ironicamente com dinheiro da Embrafilme que era sustentada pelo próprio Governo Militar. Ou “Eles Não Usam Black Tie”, de Leon Hirzman. Isso nos anos 80. Na retomada, “Ação Entre Amigos” de Beto Brant é um dos filmes que melhor equacionam o trauma das vítimas da tortura da ditadura, enquanto “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é muito mais bem resolvido em termos de estética e roteiro que o melodrama argentino, queridinho de Pondé. Em resumo, não há restrições para arte, exceto na cabeça de ditadores. Arte pode ser tudo.

Dizer que, “Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.”, beira a sandice. A que filmes ele se refere? Isso é um chutão para frente digno de um beque central do Arapiraca. É muito fácil afirmar assim, sem fundamentar, sem citar filmes que permitam uma avaliação. Nosso filósofo o faz apenas para ganhar aplausos de quem desconhece o cinema brasileiro. Joga para sua torcida e perpetua esse pensamento torto que encontramos com frequência numa classe média alta que adora modelos importados e sequer considera o que existe por aqui.

A parte mais complicada da tal coluna surge quando Pondé se mete a desbancar Glauber Rocha. Entre várias afirmações, destaco essa: “Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma "historinha" que parece ter sido escrita em centros acadêmicos”. Novamente deve arrancar aplauso de alunos que talvez nem tenham assistido um filme de Glauber. Não estou idolatrando Glauber, nem gosto de tudo que o cineasta baiano fez, mas “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é tão importante quanto “O Acossado”, de Godard. Aqueles planos sequência com a montagem fluindo com a mudança do enquadramento de um ou outro personagem me impressionam tanto quanto os jump cuts do Godard. E a cena do vaqueiro reagindo com seu facão aos açoites do coronel, com toda sua simbologia, é comparável aos marinheiros enfrentando os comandantes do Couraçado Potenkim. Mas Eisenstein deve ser outro cineasta político monótono.

É sintomático que nosso filósofo tente desmontar Glauber não citando alguma sequência de seus filmes, mas sim tirando do bolso do colete uma citação do cineasta sobre Machado de Assis. Dizer que Glauber irá para a lata de lixo da história é tão leviano como algum professorzinho francês dizer que Godard irá para a lata do lixo. É mais provável que os textos e ensinamentos do sr Pondé tenham esse destino assim que seus alunos assistam com calma filmes como “Deus e o Diabo...” ou “Terra em Transe”. Repito, nem sou um glauberiano de carteirinha. Não gosto muito de “Dragão da Maldade” e acho que talvez “A Idade da Terra” possa mesmo se enquadrar nos adjetivos que Pondé distribui a esmo.

Depois ele faz considerações sobre como deve ser o cinema como se fosse o detentor do gosto comum que caberiam bem na boca de um secretário de cultura do governo de Stalin, e escorrega de vez na constatação brilhante de que, “muitos dos futuros cineastas vêm da elite”. Ok, cinema é uma arte cara e para poucos. Mas desde quando na Argentina é diferente? Ou nos EUA e na Europa? Isso de dizer que os jovens são torturados pela culpa de pertencer à elite é outro chutão no nosso zagueiro filósofo. Isso só existe na cabeça de Pondé. Há tempos frequento, como ouvinte, aulas de cinema na ECA, preparando meu projeto de mestrado, e conheci vários alunos de classe média baixa. E muitos da elite também, todos muito satisfeitos com seus carros importados e casas na praia. A maioria dos alunos ama cinema. Claro, muitos acham que vão ficar mais ricos com seu trabalho. Outros não precisam do dinheiro, querem apenas o status e o charme do cargo de diretor de cinema. Simples assim. Se há alguma alma torturada querendo dar voz aos pobres e miseráveis, ela se escondeu de mim até agora. Mas Pondé dá aulas na Faap, onde segundo consta, a mensalidade está em torno de R$ 2.500,00, o que só permite mesmo alunos da elite.

Ainda assim, o que vejo no mercado é que essa tal elitização do cinema já mudou bastante. Os editais públicos para filmes de baixo orçamento e as escolas públicas de cinema têm permitido a jovens de classe média baixa e até mesmo da classe baixa fazer cinema. O paulista Ricardo Elias (“De Passagem”) e o pernambucano Cláudio Assis (“Amarelo Manga”) são exemplos de bons diretores oriundos de classe média baixa. Mas talvez o cinema deles seja um tanto sujo para elitistas, não caem bem para acompanhar um saco de pipocas no shopping.

Por último, para não dizerem que discordo totalmente do filósofo Pondé, acredito que há dois momentos onde o cinema argentino ganha dos brasileiros. Não temos hoje uma cineasta do porte estético de Lucrecia Martel (“O Pântano”). Ela me parece um degrauzinho acima no cinema brasileiro atual. E o modelo de produção via editais oferecidos pelo Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (o INCAA Argentino), que capta recursos cobrando 10% do faturamento de ingressos e mercado de vídeo, é muito mais inteligente que o sistema de Leis de Incentivo que temos aqui. Nosso sistema obriga diretores a visitar empresas atrás de recursos e favorece quem tem amigos, bons contatos ou é famoso. Assim, é mais fácil uma comediazinha com atores globais como “A Mulher Invisível” captar recursos do que um cineasta talentoso como Beto Brant ou Cláudio Assis, que só conseguem produzir porque existem editais para filmes de baixo orçamento no Ministério da Cultura.

De resto, pelo que chega no Brasil, ao contrário do que afirma nosso filósofo, os argentinos também são obcecados pela ditadura militar (desde o primeiro Oscar, “A História Oficial”, de 1985) e principalmente com a crise econômica, embora lá como cá, o leque de temas e estilos seja bem mais amplo do que querem fazer crer rótulos simplistas. Fome, miséria e bandido estão em todas as filmografias, inclusive na Argentina, basta lembrar filmes como “O Cachorro”, “Cabecita Rubia”, “El Bonaerense” e um grande etc. O problema raramente é o tema, mas a maneira de contar.

O que Pondé não quer ver é que, principalmente na "Retomada", o que vemos são cineastas nordestinos filmando sua terra por todos os ângulos. Feliz de uma cinematografia que pode conhecer um pouco da cultura nordestina em filmes como “Céu de Suely”, “Cinema Aspirina e Urubus”, “Amarelo Manga”, “Cidade Baixa” e tantos outros. O bom dessa história toda é que há mais mistérios entre os cinemas argentino e brasileiro do que pode imaginar vossa vã filosofia e espero sinceramente que os alunos da FAAP não se limitem a apenas ao ponto de vista dele. No mais, gosto que haja uma coluna na Folha com esse tipo de pensamento, afinal jornal que se preza tem que ser plural e abranger opiniões divergentes. A Folha tem também o Inácio Araújo (que merecia uma coluna semanal também, acorda editoria!) e o José Geraldo Couto, dois críticos com uma visão mais fundamentada em relação ao cinema brasileiro. Já a Fundação Armando Álvares Penteado eu não sei.



Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema. Além de outras atividades e veículos para os quais escreve é, também, colaborador do Cinequanon.