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“Brown Bunny”: a incomunicabilidade e a desolação.













Elie Politi

O filme “Brown Bunny”, escrito, dirigido e interpretado por Vincent Gallo, passou em poucos cinemas e em poucas semanas, mas causou a mesma polêmica; o que reflete o que ocorreu após sua projeção no Festival de Cannes.

Trata-se de uma obra prima mal compreendida, um diamante bruto recoberto pela rocha terrosa (brown) na qual as pedras preciosas se incrustam e é um filme que não se deixa decifrar facilmente.

À primeira vista o filme parece uma ego-trip mal feita e mal costurada. Mas a análise de alguns detalhes mostra que é possível haver maior carga simbólica do que parece numa primeira visão.

Também nos parece que todos estes elementos foram muito bem pensados e colocados como enigmas ao longo do filme.

O personagem (de nome Clay, que significa argila) vive uma dor permanente cuja razão perceberemos ao final e foge de todos os acontecimentos dolorosos, mas ao mesmo tempo tenta reencontrar seus momentos felizes perdidos.

A memória e a sua persistência é uma das chaves do filme.

O pungente retrato da velha família da esposa que não se lembra de nada é o símbolo da destruição da memória, do esquecimento contra o qual o personagem luta, justamente para não esquecer sua esposa.

Todas as mulheres com as quais Clay se encontra fortuitamente têm nome de flor (Daisy, Violet, Rose, Lilly) e simbolicamente compõem um jardim impossível de ser recuperado.

Clay está sempre vestido de marrom, simbolicamente representando a terra fértil na qual as flores poderiam crescer, assim como “antes” seu filho estava crescendo ainda em forma de feto.

No tempo presente, sua vida está vazia de sentido, e Clay está incomunicável como um personagem de Antonioni, sendo que esta imagem é representada pelo grande deserto pelo qual ele vaga a maior parte do filme.

Em viagem, a visão do Clay motorizado é turvada pelos pedaços de terra que sujam permanentemente os vidros do carro (vidro/visão/olhos).

Seu carro com grades metálicas parece uma jaula assim como aparecem enjaulados todos os animais que surgem no filme.

O coelho de chocolate (o tal de brown bunny) com o qual o casal se deliciava e com o qual Clay lembra que a esposa "quase engasgou" representa o fruto proibido do jardim do Eden no qual eles viviam com toda alegria e pureza.

Na dolorida memória de Clay, este estado edênico se passava antes dela ter "conhecido" outros homens, e isto simboliza a Árvore do Conhecimento.

A própria cena de sexo explícito, tão comentada, não existe na realidade, é símbolo de uma fertilidade perdida e de (IM)potência.

Assim, simbolicamente o filme remete ao Ser Humano buscando voltar ao Paraíso Perdido, após a perda da sua inocência e sua conseqüente expulsão do mesmo.

Do ponto de vista fílmico, parece discípulo de Kiarostami, de “O Vento nos Levará” e “Gosto de Cereja” e se iguala a estes filmes na sua busca desoladora no meio do deserto, onde não há nenhuma esperança, tudo isto refletido e realizado de modo absolutamente preciso.



Elie Politi
é formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP na década de 70, tendo realizado os curtas metragens " Menotti", " O Fim " e " Visão Paulista", além de muitos super-8. Tambem é engenheiro e professor universitário, hoje é cinéfilo e crítico amador. É um dos fundadores da Confraria Lumiere e frequentador assíduo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.