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Cinema, Um Ato Político: “A Classe Operária vai ao Paraíso”






















Cinema, Um Ato Político


" A Classe Operária vai ao Paraíso "      (publicado: 09/2016)


Por Humberto Pereira da Silva

Entre as cinematografias do pós-guerra, a italiana, com o neorrealismo, é a que mais se esmerou no propósito de tomar a arte cinematográfica como matriz de ideias políticas e sociais. No rescaldo da guerra, protagonizam aquele momento nomes que exercerão enorme influência em todo o mundo, como Roberto Rossellini, Vitorio de Sica, Luchino Visconti, entre outros. Com efeito, o cinema italiano do final dos anos de 1940 e primeira metade dos de 1950, com acento em questões políticas e sociais, é um dos marcos da história do cinema.

O neorrealismo italiano não só se constituiu no movimento impulsionador de diversos cinemas nacionais pelo mundo como instigou debates estéticos e formais ao romper determinados procedimentos de linguagem estabelecidos até então. De modo que, mesmo hoje, malgrado os italianos há muito terem perdido a proeminência que tiveram, seu cinema projeta películas de teor político e social que atiçam debates, principalmente no âmbito dos grandes festivais.

Houve um momento, de qualquer forma, que o chamado cinema italiano de cunho político ganhou conformação notadamente de viés incisivo, portanto com tratamento cru e direto de sua mensagem. Isso ocorreu na década de 1970. Sintomaticamente, na sequência das manifestações de maio de 68, quando a Itália passava por grande turbulência política, com ações violentas entre segmentos extremos da sociedade. O cume dos acontecimentos, tensões e agitações foi o assassinato do líder da Democracia Cristã, Aldo Moro, em 1978, pelo grupo de esquerda Brigadas Vermelhas (o caso inspirou Marco Bellocchio a realizar, em 2003, Bom Dia, Noite). Naqueles anos, afinado com o que se passava, o cinema trouxe à tona os conflitos e embates políticos, e entre os filmes mais marcantes da época encontra-se A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971), de Elio Petri.

Membro do Partido Comunista Italiano, Petri, com engajamento explícito, foi um dos cineastas de maior evidência no período em destaque. Além de A Classe Operária..., sua filmografia será lembrada por obras como Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970), A Propriedade Não É Um Roubo (1973) e Todo Modo (1976), que, antes do desfecho trágico de Aldo Moro, tem em vista interrogar sobre o futuro do país frente à crise política e ao papel da Democracia Cristã.

O engajamento político explícito de Petri faz de seu cinema alvo de infindáveis polêmicas. De um lado, a defesa de que, concebidos como crônicas do tempo, seus filmes sejam vistos como instrumentos e estímulos para a intervenção: o cinema seria um dos meios para despertar a consciência para as relações de poder no capitalismo; ou seja, um dos meios para a ação num mundo de classes sociais opostas, ou relações de poder polarizadas. De outro lado, a acusação de que Petri acaba sendo supervalorizado, de que seus filmes exibem caricaturas – são tão esquemáticos quanto presunçosos na descrição de um quadro político complexo: com o passar dos anos, acabaram datados quando confrontados com uma realidade diversa. Essas diferentes maneiras de se entender Elio Petri estão presentes em A Classe Operária Vai ao Paraíso, seu filme mais cultuado e de fortuna crítica no Brasil.

É todo estruturado em quatro blocos contínuos, pontuados pela música de impacto sensorial de Ennio Morricone, e pela presença do operário Lulu. No primeiro bloco, Lulu é um operário padrão que produz em ritmo frenético, alienado em relação ao que se passa à sua volta, até que num acidente de trabalho perde um dedo. O segundo bloco, mostra os conflitos profissionais e pessoais de Lulu frente à sua nova condição: com isso, seu assentimento à participação nos movimentos sindicais e de estudantes, que se lançam cada um à sua maneira contra as forças patronais. Na sequência, no terceiro bloco, como resultado de seu envolvimento com a política trabalhista, Lulu é demitido: esse bloco exibe, ainda, as divergências entre ele, os sindicalistas e os estudantes na condução do enfretamento das forças patronais. Por fim, no quarto bloco, o choque entre manifestantes e a repressão policial, e então a readmissão de Lulu: na volta ao trabalho, ele sonha romper o muro que separa as classes a ascender ao paraíso.

Com essa estrutura narrativa se tem um filme de tese. Um operário alienado tem a consciência de que é explorado a partir de um acidente de trabalho. Despertada sua consciência, ele se entrega à luta e na luta ele consegue reaver o trabalho que havia perdido após o acidente. O filme se fecha com a mensagem de que, mesmo sendo uma conquista pontual, é preciso permanecer em estado de luta, a fim de que a exploração capitalista seja derrubada e a classe operária ascenda ao paraíso.

Apesar desse fechamento rígido e esquemático, Petri traz à tona questões paralelas. O movimento sindical revela disposição oportunista, pelega, para negociação com os patrões. Em diversos momentos do filme Petri faz ver que os operários são manipulados e conduzidos conforme interesses nebulosos dos lideres sindicais. O papel dos estudantes, por sua vez, traz o outro lado da moeda nas relações trabalhistas. Sem ter o que perder, os estudantes inflamam as massas com slogans e palavras de ordem que apontam para saída radical, numa ruptura sem diálogo com as forças de dominação. No meio dessas duas frentes, o operário Lulu. Com ele, o foco no drama pessoal e doméstico, no dilema entre impulso individual e ação coletiva, no voluntarismo ingênuo diante das engrenagens do poder.

A se levar em conta questões como estas, A Classe Operária..., não se pode negar, cumpre bem a função que lhe cabe enquanto filme de teor político: exibe sim situação de tese, mas não descura de suas nuances. Ora, a política, quando vista sob a ótica das esferas de poder, enseja uma zona de indefinição, de visualização imprecisa e tênue: sindicalistas e estudantes podem ter um fim comum em suas ações - todavia, para alcançá-lo, ambos seguem caminhos opostos.

Na escolha do melhor caminho, as divergências e o enfraquecimento de suas respectivas posições frente às forças de dominação. Por essa ótica, conquanto em forma subliminar, o quanto o capitalismo se beneficia das dissenções do ideário da classe trabalhadora. A readmissão de Lulu, uma concessão que traduz vitória trabalhista, deixa igualmente no ar a ideia de cooptação. Assim equacionada, essa nuance faz com que o filme não seja mero panfleto impulsionando uma artificial tomada de consciência da classe operária: há sempre mais coisas em jogo, quando se trata das esferas de poder.

Mas o cinema político de Petri, com seu A Classe Operária... aqui em destaque, há de conviver com o estigma da chamada “obra datada”, o que poria em xeque hoje as questões que levanta. Trata-se, sim, de trabalho que reflete o clima e as tensões de uma época: final dos anos de 1960. E naqueles anos estava fortemente presente o debate sobre marxismo, revolução, luta de classes, posicionamentos ideológicos e condições reais de trabalho da classe operária nas engrenagens da indústria. Hoje, grande parte do trabalho feito manualmente por operários foi substituído por máquinas com tecnologia de ponta. Além disso, os anos de 1990 assistiram à derrocada dos regimes socialistas do leste europeu e à reorganização do capitalismo sob a égide do neoliberalismo.

Nos dias de hoje é inegável indagar se um filme como A Classe Operária Vai ao Paraíso teria tão somente importância arqueológica. Em certo sentido sim, pois.é um filme datado, fortemente impregnado pelas marcas do tempo em que foi concebido. Mas não creio ser, hoje, essa a única maneira de vê-lo. Se for verdade que a passagem do tempo é cruel com filmes como ele, também é verdade que num filme assim, guardadas as varáveis e contexto específico que dataram, há sinais de fundo que se repetem caprichosamente. Se as condições de trabalho numa linha de montagem hoje não têm o sentido que tinham, não é falso que o capitalismo continua gerando tensões que opõem opressores e oprimidos na nova ordem global sob a égide do neoliberalismo. Assim, rever hoje A Classe Operária..., para além de experiência que nos traga o retrato de uma época, propicia pensar sobre embates políticos em qualquer momento histórico.




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural. Também autor de: "Ir ao Cinema: Um Olhar sobre Filmes" (Musa Editora); “Glauber Rocha: Cinema, Estética e Revolução” (Paco Editoral).