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Almodóvar faz melodrama noir e auto-referência em “Los Abrazos Rotos”







Texto e foto de Arnaldo Comin (Especial para o Cinequanon, direto de Madri)

Estação de metrô de superfície Ciudad del Cine, em Pozuelo, um calmo e elegante subúrbio nos arredores de Madri, onde se concentram enormes complexos de salas de exibição ao estilo norte-americano, produtoras e fornecedores da indústria do cinema. Um batalhão de jornalistas de todo o mundo fuma pacientemente seus cigarros à espera do início da sessão de pré-estréia de “Los Abrazos Rotos”, novo filme de Pedro Almodóvar e a grande promessa de bilheteria Made in Spain do ano, ainda sem data para entrar no circuito brasileiro.

Difícil classificar “Los abrazos”, trata-se da película mais cara já feita pelo diretor natural de Castilla-La Mancha, 12 milhões de euros (uns R$ 35 milhões), mais uma vez estrelada pela musa Penélope Cruz e várias rostos conhecidos do cinema e da TV espanhola. A trama é um jogo de sobreposição de um filme dentro de outro filme - talvez um filme mais? – e se desenrola em dois planos temporais distintos que vão quase freneticamente se intercalando. Um pouco de thriller noir, um pouco de melodrama e de comédia também. Tipos profundos, misteriosos e genuinamente espanhóis, bem ao estilo Almodóvar.

Na primeira cena somos apresentados ao personagem principal, Mateo, interpretado por Lluis homar, ator de teatro e galã cinqüentão de minisséries, que já havia trabalhado com o diretor em “Má Educação” (2004), no papel do ex-padre Manoel Berenguer. Mateo foi um diretor de cinema de sucesso que se converteu no roteirista Harry Cane (um trocadilho com Hurrycane que fica mais divertido pelo forte acento hispânico) depois de ficar cego, em circunstâncias que o roteiro, claro, tratará de explicar no momento adequado. Harry é um tipo jovial e aparentemente bem resolvido em sua nova condição, como se a visão fosse a menor de suas perdas.

A trama principal se passa alguns anos antes, quando o empresário sem escrúpulos Ernesto Martel, na pele do diretor de teatro José Luiz Gomez, desenvolve uma paixão obsessiva pela ex-secretária Lena (Penélope Cruz), uma mulher que oscila entra a prostituição e o sonho de, uma vez mais, tentar a vida a como atriz. O conflito explode quando Mateo descobre Lena e inicia a rodagem de uma comédia, “Chicas y Maletas”. Apavorado pela possibilidade de perder a amante, Ernesto decide bancar o filme. A ponte entre passado e presente se dá pela perturbada figura do filho do empresário, um jovem homossexual desprezado pelo pai, que também troca o “Júnior” pelo pseudônimo Ray-X.

Em pouco mais de duas horas – o filme é mais longo que a média das produções do autor – o espectador é envolvido num jogo de ciúmes e traição ambientado em sets de filmagem, mansões de luxo e a paisagem vulcânica da Ilha de Lanzarote. Tudo sob o olhar atento de um elemento obscuro, mas crucial: Judit, a produtora e amiga de todas as horas de Mateo, brilhantemente interpretada por Blanca Portillo, que havia feito o papel de Justina na obra anterior de Almodóvar, “Volver” (2006).

São muitos personagens, cenários e tramas paralelas que, obviamente, se resolvem em um grand finale que é puro melodrama. A platéia especializada deixa a sala de projeção mais contente do que desconfiada, como se estivesse diante de um novo blockbuster almodovariano, um sujeito que na Espanha faz as vezes de Caetano Veloso: malhado pela crítica local e reverenciado no exterior. Com a diferença que Almodóvar vende muito mais.

Depois da exibição, a esperada sessão de fotos. A massa de fotógrafos se digladia por um sorriso de Penélope Cruz, um misto de timidez e incômodo que destoa de seu vestido vermelho vivo e a beleza ofuscante. Almodóvar, de jaqueta camuflada, como se tivesse saído para fazer compras no bairro, era pura simpatia e espontaneidade. O melhor ator do elenco. Na coletiva de imprensa, um roteiro minuciosamente preparado. “O filme é uma história romântica em que se entrelaçam várias paixões, tendo como trama subjacente uma declaração de amor minha pelo cinema”, repete Almodóvar. É a manchete garantida para os jornais do dia seguinte.

A grande figura do cinema espanhol sabe jogar com as câmaras e as perguntas cretinas do pessoal da “prensa del corazón”. Esculacha com elegância e bom-humor os jornalistas de celebridades e demonstra interesse verdadeiro pelos temas mais densos. Penélope Cruz, talvez mais treinada pela indústria de Hollywood, dá respostas protocolares, mas parece não ter perdido de todo a sinceridade espanhola. “Foi um personagem duro, porque não se parece em nada comigo como mulher ou com qualquer papel que tenha feito. Por isso é instigante trabalhar com o Pedro, ele sempre me oferece novos desafios como atriz”, diz a musa, em seu quarto trabalho com o diretor, depois de “Carne Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) e Volver.

Mais do que metalingüístico, “Los Abrazos” é um mar de auto-referências. Como “Má Educação”, a história tem um personagem que volta do passado para fazer a ponte entre duas épocas e um diretor de cinema como protagonista. Para criar a ambientação da comédia fictícia “Malas e Maletas”, faz um remake explícito de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. Questionado por um jornalista de inconfundível sotaque inglês se necessitava sempre voltar ao passado para seguir adiante com sua obra, o diretor evita as cascas de banana. “Não se trata de uma auto-homenagem, acabo fazendo essas referências por um sentido prático. Para recriar uma comédia, posso manipular um patrimônio que já possuo sem pedir direitos a ninguém”.

Fascinado pelo mundo que orbita o set de filmagem, o diretor procura dividir com o espectador os personagens que constroem o dia a dia do cinema. Leva para a tela grande imagens espontâneas dos atores de preparando para uma tomada, maquiadores e ajudantes de cena. Como thriller noir, falta um pouco de tensão na história, embora Almodóvar saiba recriar elementos típicos do gênero, como cenas de escadaria, olhares entrecortados, sombras e atmosfera sufocante, tirando o máximo de uma Penélope Cruz fazendo o dúbio papel de frágil Audrey Hepburn e mulher de origem sofrida. Vendido como uma complexa e arriscada, “Los Abrazos” não parece à altura de algumas obras mais recentes do diretor, como “A Má Educação”, “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale com Ela” (2002).

Mas sem dúvida os fãs de Almodóvar vão encontrar aqueles elementos marcantes que tornam sua filmografia tão popular: paixões às raias da loucura, personagens fortes e tragédias incontornáveis. “Estou me especializando em um gênero cada vez mais em desuso, o melodrama, atualmente muito distorcido pela televisão e que não vem sendo tratado de uma maneira contemporânea no cinema”, diz o autor.

Além da auto-referência, o diretor também celebra seus grandes mestres. O título do filme faz uma alusão direta a “Viagem à Itália” (1954), de Roberto Rossellini, reproduzindo a cena em que Ingrid Bergman e George Sanders, em crise no matrimônio, deparam-se com os corpos abraçados de um casal que morre calcinado pela lava vulcânica, em Pompéia. Ingrid não suporta aquela visão e sai correndo em lágrimas, como se não pudesse encarar o fim de sua própria existência ao lado do marido.

Afinal, é sobre esse último carinho, o último beijo, que trata “Los Abrazos Rotos”.



Arnaldo Comin é jornalista e atualmente faz pós-graduação em Madri (Especial para o Cinequanon)