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Pintô Sujêra e seu "Sistema de Animação"















Cid Nader

"Sistema de Animação", é o mais recente e aguardado (ao menos por eles, que passaram tempos e tempos comentando do filme, do trabalho que estava dando fazê-lo, de sua tentativa de conclusão, da pesquisa, da excelência de Toucinho Batera como músico - o documentado principal - e da admiração que nutriam por ele...) filme saído das mentes e das mãos das duas principais figuras do "Pintô Sujêra". Essa "trupe" é de Florianópolis e responsável por um dos mais saudáveis e inventivos movimentos artísticos da região. Seus dois principais representantes (Guilherme Ledoux e Alan Langdon) assinam a direção desse documentário e o que fica nítido durante o transcurso da película é a segmentação do trabalho de cada um nela. Fica evidente que quem capitaneia a câmera por quase todo o tempo e se faz responsável pela montagem é o Alan, e que quem sugeriu a pauta e por tal razão mergulha mais ostensivamente nela - colocando a cara, tocando percussão, interferindo com sua presença em quase todos os frames - foi Ledoux.

Toucinho Batera é uma daquelas figuras que transitam num mundo não muito comum aos pobres mortais, mas que está repleto de gente que não nutre prazer pela normalidade, pelo cotidiano contido, que tem dons acima dos normais, e que, de preferência, joga a fama, quando alcançada, e o dinheiro, quando conseguido mas raramente juntado, pela janela, em busca de algo que somente seres excepcionais e "à parte" sabem o que é. Tocou com gente famosa e veio a São Paulo - há algumas dezenas de anos, já - por conta de sua qualidade como baterista muito acima da média e com técnicas pouco comuns. Viveu aqui como os artistas que o cinema retrata - aqueles, tão excêntricos quanto inocentes, com alma conturbada pelo seu dom dominador, e a inocência dos que não se adaptam ao dia-a-dia (algo que normalmente nos parece impensável, fruto de ficção, de difícil aceitação) -, e voltou para Florianópolis quase incógnito, quase esquecido, quase desconhecido. Foi encontrado pelo seu fã de carteirinha, Guilherme Ledoux (que também é músico), e tornou-se obsessão a ser retratada, revelada, redescoberta.

O que nos mostra o cotidiano do artista nesses cinco anos de filmagens é que sua "anormalidade" junto ao mundo dos comuns se estendeu e ultrapassou seus dotes de músico, para fazer-se companheira do dia-a-dia. O documentário revela uma pessoa que resolveu (ou não teve opção?) morar quase no meio do mato, e que da falta de condições para viver esse cotidiano mais comum (e aí o documentário é bastante feliz porque não interfere e não direciona jamais nossos olhares ou possíveis conclusões) nos faz perceber o quão genial e "maluco" é diante das necessidades. Aos poucos o filme revela seu lado de professor pardal e pessoa comum (coisas que quase sempre, por mais incrível que possa parecer, caminham juntas), que tem que inventar coisas para sobreviver, tem que saber mexer na mecânica de um carro velho para continuar a utilizá-lo, tem que saber como arranjar eletricidade para, ver televisão, ou para tocar um teclado eletrônico. O trabalho de Ledoux e Langdon é bastante generoso nesses quesitos que têm a ver com informações necessárias para que se saiba de quem se trata o ser retratado e de como é nos tempos recentes.

Mas as virtudes do documentário sobressaem e fazem com que ele seja mais merecedor de admiração, justamente pelos atos não comuns ao gênero. É virtude o modo de construção que jamais privilegia as informações de modo didático ou linear (fartas sim, mas que fazem com que nos mexamos na cadeira para ajuntá-las ou para saber das razões da ordem escolhida) - a edição não permite que vejamos as coisas em ordem, é calculada e encadeada com esperteza e imaginação, mas não trava o andamento, nem tenta se "privilegiar" de sobressaltos ou "solavancos estéticos" -, e se torna mais excêntrico nesse vai-e-vem quando constatamos nos momentos recentes (recente digo dos cinco anos de trabalho, com as imagens captadas por eles, afastando as de arquivo, mais antigas), hora Alan, Guilherme ou Lourival (Lourival José Galliani, o próprio Toucinho) de cabelos curtos, hora de cabelos compridos, com caras de mais moleques num instante e algumas rugas novas em outros. Virtude também pela sinceridade que a precariedade de alguns momentos evidencia, com coisas comuns que acontecem em trabalhos de tão longo prazo, que não são camufladas aqui, como evidente modo de interação mais sincera com o espectador (basta lembrar um longo trecho obtido com falta de luz - quase falta de imagens, portanto -, de onde brota depoimentos tão sinceros quanto etílicos, tão importantes quanto reveladores, e onde percebe-se claramente o bom senso e a capacidade de percepção deles, os realizadores).

Dos depoimentos, há uma "ajambração" interessante realizada na mesa de edição num momento em que dois desses depoimentos se alternam na tela, rápida e continuamente, de importância vital para simbolizar o modo de pensar um artista que é "artista" e pouco razoável no momento de ser uma pessoa "realizada" (o Toucinho falando dos seus ideais e suas intenções quanto à música e sua execução como modo de sustento), e de outro lado, com pragmatismo, "cotidianismo", nas opiniões emitidas sobre os mesmos assuntos por Nenê Batera.

Existe uma coisa que até um certo momento incomoda, ao percorrer o trabalho por todo o tempo: a constante presença da imagem de Guilherme Ledoux nas imagens editadas. Fica-se pensando na razão para tal - é fã, idealizador da idéia ... -, até que, num determinado instante, esquece-se do que poderia estar incomodando e mergulha-se na sinceridade de tal constância: se Guilherme toca percussão num momento, se fica ao lado do entrevistado, se torna-se quase sombra dele, é porque ele tem a necessidade de estar junto de quem ama e idolatra, e se isso até pode ser um traço de característica de artistas que são, acima de tudo (ele e Alan são artistas e performáticos até certo ponto, com certeza - se não me engano vi o próprio em um ou dois instantes do filme - e dentro da proposta deles é evidente que são parte determinante, fisicamente, em seus trabalhos), e irreverentes, tudo sucumbe ante a sua reação (ou não reação) quando ocorre uma explosão de sinceridade de um Toucinho embebedado e sincero, com um jorro de verdades e coisas que só podem ser ditas uma única vez, mas que calam e fazem perceber mais verdades do que anos de procura, e justificam a presença do fã junto, perto.

Acaba por ser bonita essa presença constante dele após se perceber que é, porque tinha que ser. Como é evidentemente bem filmado o trabalho por Langdon: porque tinha mesmo que ser. E o que resta é um trabalho a ser visto, à parte do que se faz de mais comum e que não se envergonha de se mostrar fã, de um ser que deveria ser retratado mesmo. Pra terminar, as intromissões gráficas do início são de extremo bom gosto: coisa de artistas, afinal.



Cid Nader é editor do site.