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“Vivo art.mov” oferece discussão sobre um possível cinema em mídias móveis









Fernando Oriente

A terceira edição do “Vivo art.mov” (20 a 25 de novembro de 2008) propõe uma pertinente discussão sobre as possibilidades de o cinema integrar, em sua gramática, algumas das novas tecnologias em mídias móveis. O evento, sediado em Belo Horizonte, conta com sessões de vídeos realizados com e para essas mídias móveis (celulares, palmtops, iphones, câmeras digitais, GPS, entre outras), exposições concebidas nesses mesmos suportes, além de palestras, jogos e workshops.

O aspecto mais importante para nós é representado pelos curtas apresentados nas sessões de vídeo. É fundamental salientar que esses pequenos vídeos (todos com menos de dez minutos de duração e alguns com menos de 60 segundos) são trabalhos híbridos, em que as artes plásticas, o design, a animação e o cinema se fundem possibilitando as mais diversas interpretações.

Sendo o cinema nosso principal enfoque, uma questão deve ser posta logo de início: Podem esses filmes, extremamente próximos do que é possível se chamar experimentalismo, serem considerados cinema? De um ponto de vista histórico, levando em conta o papel muitas vezes precursor e influenciador das vanguardas dos anos 20 e 30 e do underground dos anos 60, a resposta (de forma alguma unânime e definitiva) é sim.

O que mais chama atenção em relação à captação em mídias moveis é a facilidade de se obter registros de imagens. Tudo pode virar imagem; qualquer lugar e qualquer ação a qualquer momento. O tempo e o espaço podem ser captados a qualquer hora, algo inconcebível há alguns anos atrás. O primeiro problema que surge (novamente de um ponto de vista cinematográfico) é como essa relação tempo espaço é trabalhada pelos realizadores e, em segundo lugar, como eles desenvolvem e constroem a mis-en-scene e a dramaturgia dos enquadramentos.

As possibilidades da montagem também estão no centro dessa discussão. As novas tecnologias de tratamento e edição de imagens muitas vezes são o aspecto principal no conceito desses vídeos, criando efeitos e fragmentando tudo o que se vê (e não se vê) no quadro. O ritmo e como ele é tratado, bem como a fruição, muitas vezes garantem o sucesso ou o fracasso desses curtas.

Assistir a todas essas sessões, perceber os conceitos em cada vídeo, dá ao espectador a noção de como as novas tecnologias podem evoluir e desenvolver novas formas de expressão e representação para o audiovisual e, porque não, também para o cinema em um futuro próximo. Para que isso ocorra, os realizadores que operam essas novas tecnologias têm que maturar conceitos e desenvolver propostas que sejam correlacionadas com a sintaxe cinematográfica. Afinal, a profundidade de penetração do cinema abriga, sempre, tendências que venham a somar e aglutinar a complexidade de seu discurso. O que não pode ocorrer é que essas novas convergências visuais se fechem em torno de um movimento vanguardista de apelo unilateral e, com isso, sejam impossibilitadas de evoluir para um diálogo com as artes de um modo mais abrangente, fato que ocorreu com muitas das vanguardas no início do século XX.

O Cinequanon acompanhou três das principais mostras de vídeo do “Vivo art.mov”:

Mostra Competitiva – Foram apresentados trabalhos de realizadores de todo o Brasil. Entre alguns dos destaques estão: “Às Vezes num Dia de Chuva” (de Juliana Lacerda, Carlos Fraiha e Rodrigo Moreira), curta em que planos bem construídos conseguem transmitir sensações de contemplação do homem diante da chuva e captam a beleza lírica, muitas vezes oculta, dos dias chuvosos. Os versos de Fernando Pessoa que aparecem nos quadros ajudam a potencializar a penetração do diálogo estético entre as imagens e o espectador.

“Cânfora” (de Herbert Gondo) é um interessante trabalho de cores e luz em imagens de beleza poética. “Sociodermia 4” (de Ernesto Kohler) distorce as formas e registra sensações de desconforto diante a uma visão subjetiva da cidade grande. “Um Filme de Cão Guimarães” (de Fábio Alencar de Carvalho) faz homenagem ao cineasta e vídeo-artista usando algumas de suas características estéticas. “Sob Controle” (de Silvia Regina Guadagnini) cria efeitos interessantes com um trabalho gráfico sobre imagens de um só plano. E “Frestinha” (de Gustavo Cochlar) faz um uso criativo do antagonismo entre preto e brando e claro-escuro.

Mostra Pocket Films – Nessa seleção de trabalhos apresentados no festival francês (considerada a maios mostra de filmes em novas tecnologias do mundo) chama atenção o fato de que alguns desses curtas (realizados em diversos países) já são concebidos nas estruturas de uma linguagem cinematográfica. O aspecto da portabilidade das câmeras faz com esse olhar dos realizadores penetre locais improváveis, sendo até mesmo “invasor” ao revelar intimidades e registrar sentimentos comuns aos grandes centros urbanos, como a solidão, a transitoriedade e a apatia em meio ao constante movimento.

Mostra Dotmov – Foram mostrados trabalhos que compõe a seleção do festival japonês, realizado por uma revista eletrônica de arte gráfica e design. A relação entre música e imagens em movimento é o centro de muitos dos curtas exibidos. Os efeitos computadorizados dão o tom de vídeos em que o experimentalismo está em primeiro plano. Imagens abstratas e perspectivas tridimensionais da imagem são o forte de animações contaminadas pelo constante movimento e o ritmo frenético dos signos visuais.



Fernando Oriente é editor do Cinequanon e viajou a Belo Horizonte a convite da organização do evento.