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Por fora, bela viola... Na rota dos festivais e mostras







Annete Fuks

Minha aparência exterior – aliás, a única coisa que a mídia destaca nas entrevistas que concordo em dar – é de uma cinéfila fanática, que não faz outra coisa na vida a não ser consumir entretenimento (cinema, teatro, concertos, ópera). À primeira vista, até para os outros cinéfilos que encontro por aí, essa é a única coisa que importa: o quê e quantos filmes eu consegui ver. Como se eu fosse a “maratonista” dos festivais.

Nos últimos dois meses, estive em Gramado (agosto) e no Rio (setembro). E já estou me preparando para a Mostra de São Paulo. Resultado: em Gramado, assisti a tudo o que tinha lá (seis longas brasileiros e cinco longas latinos em competição), alguns fora da competição e alguns curtas (gente, o dia só tem 16 horas úteis!). No Rio, fiquei sete dias. O máximo que dá para ver é seis ou sete por dia, dependendo da duração de cada filme. Portanto, multiplicando-se por sete, vi 44 filmes (oito ou dez ótimos, oito ou dez péssimos e o resto medianos ou bons). Em São Paulo, pretendo ver o máximo possível dos bons e o mínimo possível de ruins.

Essa é a minha resposta quantitativa. Agora quero falar do que realmente me interessa nos festivais: a qualidade dos filmes que estão sendo feitos hoje, neste ano, no ano passado. Não apenas um julgamento bom X ruim, comercial X de arte, mas como os filmes entram pelos meus olhos e ouvidos e chegam ao meu interior. A minha “maratona” pelos filmes é o meu caminho de Parsifal, a busca pelo autoconhecimento, que não acaba nunca porque é a rota do devir permanente (“este rio que passa não é mais o mesmo / eu não sou a mesma nos dias que passam”).

Como eu estou em constante transformação, cada filme novo que vou ver quero que me surpreenda, que me abra os olhos, a cabeça e o coração. O efeito que o filme provoca em mim não se encerra ao fim da sessão (gostei ou não gostei), mas continua por tempo indeterminado enquanto vou digerindo, meditando, refletindo, me transformando num ser humano melhor.

Agora chegou a hora do “balanço final” e vou satisfazer sua curiosidade. Meu resultado de Gramado é: melhor filme brasileiro em competição: Menina Morta (do Matheus Nachtergaele); melhor filme latino em competição: Mindelo (de Alexis Tsafas, de Cabo Verde); melhor curta: O Presidente dos Estados Unidos (de Camilo Cavalcante – PE); homenagem: Passagem em Ferrara (não o filme sozinho, mas acompanhado da “aula” do mestre Júlio Bressanne); especial: O Grão (Petrus Cariry – PE) e Crítico (Kléber Mendonça Filho – PE). Puxa, que banho dos pernambucanos, hein?

Do Rio, o que eu trouxe de melhor: um documentário norte-americano de Anita O’Day; um documentário britânico de Gilbert George; latinos: A Raiva; Mulher sem Cabeça (Argentina); Céu, Terra e Chuva (Chile); ficção internacional: Cavalo de Duas Pernas (Irã); Sobre o Tempo e a Cidade, de Terence Davies (Inglaterra); Downloading Nancy (Estados Unidos), muitíssimo forte, uma aula para psicoafins; e,the last but not the least, a novidade vem da França, dirigida por Aurélia Georges, uma surpresa imperdível para se meditar no Século XXI: O Homem que Anda (não confundir com o uísque Johnny Walker, Keep Walking). A propósito, recomendo este filme para todos os meus colegas do curso Mutações (de Adauto Novaes), que está acontecendo no SESC Paulista, Rio e Belo Horizonte, em particular aos ótimos professores Franklin Leopoldo e Silva, Francisco de Oliveira, Luís Alberto Oliveira e Laymert Garcia dos Santos.

Para a Mostra de São Paulo pretendo ver, se der, uns 100 a 110 filmes, com destaque para o documentário Caminho para Meca, sobre a vida de Muhammad Asad (ou Leopold Weiss), para discussões nas comunidades islâmica, judaica, cristã e a todos aqueles que, como eu, na busca pelo verdadeiro interior, têm que se libertar em todos os minutos da vida de todos os preconceitos religiosos, éticos, sexuais, tendo em vista que fomos, desde o nosso nascimento, brainwashed pela cultura radicalista e parcial dos guetos intelectuais. E vamos ao deserto!



Annete Fuks é cinéfila de carteirinha e mãe do Érico Fuks.