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Uma ponte entre dois mundos











Marcelo Lyra

A Ponte do Rio Kwai (1957), do britânico David Lean pode ser visto como uma suntuosa aventura de guerra, com um final com efeitos especiais grandiosos, desses que jamais serão igualados pelo cinema da era dos efeitos digitais. Já agradaria com méritos quem o retirar numa locadora, o qual certamente devolverá assobiando a deliciosa música-tema.

Mas o filme é ainda mais interessante numa segunda camada, a do duelo entre o orgulho e o senso de dever, das motivações ocultas no caráter de cada um, algo que o aproxima dos westerns psicológicos. É a história de um grupo de prisioneiros britânicos, chefiados pelo coronel Nicholson (o britânico Alec Guinness), que é obrigado pelos japoneses a construir a tal ponte sobre o rio Kwai. O problema é que Nicholson não aceita que oficiais trabalhem e, depois de uma longa queda de braço com o comandante japonês, ganha a briga. Assim, aceita construir uma ponte imponente, de modo a humilhar os japoneses com a técnica britânica avançada. Orgulhoso de sua tarefa e seus comandados, esquece que está ajudando o inimigo.

David Lean conhece como ninguém o orgulho britânico e impregna o filme dessas questões de honra. Assim, estabelece um forte diálogo com A Grande Ilusão, do francês Jean Renoir, no qual aristocratas dos dois lados da guerra mantém a honra mesmo quando presos. O coronel Nicholson parece saído do filme de Renoir, com sua firme convicção de exigir o cumprimento da Convenção de Genebra no tratamento dos oficiais presos. Esse espírito aristocrático resiste perfeitamente no conservadorismo inglês.

Quando ele afirma ao comandante japonês que fará o melhor possível na construção da ponte, e ninguém tem dúvidas que irá cumpri-la.

O processo de construção do drama psicológico que conduz o coronel Nicholson a tomar essa atitude é construído de forma asfixiante. Teimoso, ele mostra fibra e torna-se ídolo dos outros prisioneiros ao resistir a espancamentos e à tortura de uma pequena prisão de telhas de zinco, chamada pelos presos de forno. Mas ao final, para cumprir sua palavra, acabará fazendo tudo pelo qual lutou contra, ou seja, mandar oficiais e doentes trabalharem. É igualmente significativo o choro do comandante japonês, depois de ceder às exigências e ficar à beira do harakiri, o suicídio com honra do samurai.

Já o oficial Shears (Willian Holden) representa exatamente o oposto, ou seja, o homem forjado nas delícias do capitalismo consumista, que equilibra o senso de dever com o simples desejo de salvar a própria pele. É o espírito que substitui a aristocracia, espécie de resposta ao filme de Renoir, e não é por acaso que é encarnado por um soldado americano. O choque entre as duas mentalidades é bem resumido na troca de olhares entre os dois, ao final, quando Nicholson, espantado por rever Holden, apenas diz “Você!”, e o americano responde com um “Você!”, mas com um tom de voz que representa todo o desprezo pelo ultrapassado senso aristocrático.

David Lean é diretor de encantadoras adaptações de Charles Dickens, como Grandes Esperanças e Oliver Twist, mas foi nos grandes épicos como A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia e Dr. Jivago, que conquistou merecida fama mundial. Ele tem obsessão por homens devotados a um objetivo. Seu estilo impressiona. Ele incorpora a paisagem como um personagem, seja na aridez da prisão, seja na exuberância da floresta, que valoriza a construção da ponte. Nesse sentido, poucos diretores souberam usar tão bem a fotografia em Cinemascope. A cena final com o trem chegando à ponte dificilmente seria tão impressionante num formato mais estreito. Além disso, Lean tem bom domínio do ritmo e valoriza a dramaticidade por intermédio de planos-seqüência, alguns de composição bastante elaborada, não apenas pelo uso da profundidade de campo, mas também pelos movimentos de câmera em plena selva.

A marcha de Holden e Jack Hawkins de volta à ponte parece ter inspirado Francis Coppola no visual de Apocalipse Now. Há semelhanças no conceito da pequenez do homem diante do gigantismo da selva. Além disso, o ceticismo de Holden na busca pelo coronel que enlouqueceu parece o embrião do personagem de Martin Sheen. Ao final, quando o médico feito por James Donald fala “Loucura”, poderia estar dizendo “O horror, o horror”.

É na seqüência final que Lean demonstra, mais do que nunca, pleno domínio dos elementos que compõem o cinema. Além do bom uso do quadro largo, o uso do som também é digno de nota. O barulho do trem (ora da locomotiva, ora do apito), fica mais forte à cada cena, enquanto os soldados brigam rio abaixo, o que vai gradualmente intensificando, com perfeição, a densidade dramática. E a cena final, com o trem chegando à ponte, fica para sempre na memória do espectador. Hoje seria feita inteiramente com efeitos digitais e é exatamente por tudo ser real que ela impressiona mais. Quem tiver o privilégio de ter um projetor digital, ou ao menos uma grande TV de plasma, poderá senti-la de forma próxima à quem teve o prazer de assistir ao filme no cinema. A esses últimos declaro solenemente minha mais forte inveja.



Marcelo Lyra é jornalista.