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Notas sobre “Onde os fracos não têm vez”: existira lugar para a velha representação do herói?















Cesar Zamberlan



I -

Em “Onde os fracos não têm vez” ou “No Country for Old Men”, os irmãos Coen em dois momentos contrapõem de maneira bastante evidente a figura do xerife Ed Tom com a do matador Anton Chigurgh. No primeiro momento, os personagens, em seqüências diferentes, são enquadrados num plano idêntico. A cena se dá na casa de Llewelyn Moss, Antom chega à casa do caçador, não o encontra, abre uma garrafa de leite, senta no sofá e depois vê o seu reflexo enquadrado pela tela da TV. Seqüências depois, o mesmo plano terá como protagonista o xerife. Este, porém, sabe que o lugar que ele ocupa agora foi ocupado momentos antes pelo serial killer e se coloca li como que para querer entender o outro. Ao se ver enquadrado pela TV, diz que o matador viu a mesma coisa que ele e é certo que ficou impressionado.

O segundo momento ocorre após a morte de Llewelyn, o xerife volta ao quarto do hotel onde ocorreu o crime e hesita ao abrir a porta, pois intui que Anton ainda esteja lá. De fato, ele está, porém os dois não se encontram, e a porta que os separa é tão significativa como a posição que ocupam quando enquadrados pela mesma TV na casa de Llewelyn.

Com essas duas cenas, os Coen parecem querer deixar claro que há um paralelo entre os dois personagens que não deve ser descartado como elemento de entendimento ou reflexão do filme. Não à toa, são os dois únicos personagens que acabam vivos - pelo menos cientificamente, visto que o xerife, tanto no encontro com o amigo Ellis quanto no diálogo final com a esposa, aborda a questão do que é estar vivo num mundo que já não é mais o seu, insinuando que está tecnicamente morto.

O paralelo parece ainda mais claro se pensarmos que existe entre o xerife e Anton um contraste que vai além da oposição entre o bem e o mal, e que simboliza a própria questão da representação que o cinema e a TV fazem do herói no mundo moderno, relação expressa pela metáfora de estarem enquadrados no mesmo plano pela TV e separados por uma porta, cada um de um lado da cena do crime. Fora isso, a relação com a representação ficcional se dá também no fato de ambos habitarem o mesmo espaço, mas numa condição limítrofe, o sucesso de um é a morte de outro. E aqui, o termo sucesso também precisa ser relativizado e visto numa dupla acepção: sucesso no filme, sair vivo e com o dinheiro, e sucesso diante do público como representação que provoca o riso ou uma constrangida empatia, mas a maior lembrança nos espectadores depois de terminada a sessão.

Pode parecer absurdo trabalhar a narrativa do filme e a reação do espectador diante do mesmo, confundindo o personagem dentro do filme com aquilo que ele pode representar fora do filme, mas o próprio filme, de maneira sutil, embaralha estas questões, algo que fica claro numa outra fala do próprio xerife com o seu auxiliar. Na fala a qual me refiro, o xerife num paralelo óbvio aos crimes de Anton, lê o jornal e comenta que um casal de jovens estava matando e torturando idosos para depois sacar a aposentadoria dos mesmos. O xerife continua a leitura e dá detalhes bizarros do crime, o seu auxiliar ri, segurando imediatamente o riso, constrangido e ciente do absurdo da situação. Porém, longe de reprimir o auxiliar, o xerife o entende e diz que também já se pegou rindo dessas situações. O diálogo cabe também e muito bem, ao público que como o auxiliar, porém sem parecer constrangido, ri alto e se diverte com as sandices de Anton, mesmo quando esse executa seus personagens sem nenhuma hesitação.


II -

É importante ressaltar a importância das falas do xerife, pois o foco narrativo parte dele, como fica marcado no início do filme com a narração em off que depois desaparece. Nesta narração, ele diz que sempre gostou de ouvir as histórias dos antigos; lembra dos xerifes de uma era romântica do velho oeste - xerifes, que como ele, nunca usavam a arma; diz que hoje os crimes são difíceis de compreender, e depois desse preâmbulo, ele se insere na narrativa dizendo que ele vai participar desse mundo. O narrador vira, portanto, personagem e é a câmera que passara a narrar a história. No plano imagético, todas as falas anteriores são ilustradas por planos fixos e abertos da paisagem do deserto com seu horizonte infinito, já a última fala, quando o xerife se insere na história, é ilustrada pela primeira aparição de Anton. Aqui também é marcado o limite entre a narração em primeira pessoa e a narração em terceira, na qual o dispositivo substitui o narrador.

Outro ponto curioso é que a história toda não deixa de ser um episódio rememorado pelo xerife. E mais interessante que isso é que a história que ele conta, e que de certa forma mostra a inversão do papel do herói num outro mundo, sob uma outra ética, não deixa de ser a nostálgica lembrança de uma era que está terminando, contada por um antigo narrador que na verdade está falando sobre a sua própria morte: a morte como personagem, como narrador e como um certo tipo de herói de um cinema que antes valorizava o épico e personagens cuja principal característica era a bravura e o questionamento ético dessa postura.

Esses desdobramentos embriagam cada fotograma e diálogo do filme de um pesar doloroso e como contraponto, como substituto, temos a ação violenta, irracional, sistemática e espetacular de Anton, personagem que divide a cena e prova com seu sucesso, com sua eficiência, com sua imortalidade que esse tempo narrado pelo xerife tem seus dias contados. E entre um mundo e outro, entre uma representação e outra, entre a vida e a morte, na interseção desses dois mundos, os Coen conseguem a proeza de adequar seu projeto estético servindo tanto a um lado quanto a outro desse jogo de duplos.

Sendo mais claro, a partir do momento que o xerife lê a notícia do jornal e seu auxiliar se pega rindo da violência, o filme também “parece se constranger” e a partir dali não teremos mais a violência espirrando como sangue na tela. Até mesmo Anton, será mostrado por um outro aspecto, não mais tão espetacular, e até humano por mais desumano que seja. Tal constatação fica mais evidente, pois o tão esperado encontro entre Anton e Llewelyn que não é mostrado, frustrando a expectativa daqueles que aguardavam o grande e espetacular confronto. Com isso, os Coen parecem querer dizer que não é isso que os interessa no filme, mas, sim, o eclipse de um outro personagem e tudo o que ele representa. Também não interessa um encontro de Anton e o xerife, pois eles ou aquilo que eles representam estão em choque o filme inteiro.



Cesar Zamberlan é editor do cinequanon.art.br