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Planeta Terror – Quanto mais se desce, mais se é puxado













Liciane Mamede

Mesmo carregando o titulo de grindhouse movie, Planeta Terror, assim como Death Proof, não pode ser tão facilmente definido por um termo ou conceito que seja. Tanto Tarantino quanto Rodriguez parecem saber disso e a própria apropriação da expressão sugere mais uma vontade de reivindicar determinada ascendência “genética” para suas obras e reverenciar suas fontes de inspiração do que propriamente uma crença por parte deles de que estariam mesmo realizando um grindhouse movie (a própria natureza das duas obras já seria um empecilho para isso). Porem, isso não significa dizer que ambos os filmes não tenham ido longe na apropriação de marcas de estilos de determinados gêneros e não tenham realmente realizado filmes que podem facilmente ser identificados como exploitation movies .

Ao mesmo tempo em que se pertence a um gênero, invariavelmente, a ele também se referencia. Assim, um filme de gênero tem pelo menos um traço essencial: a apropriação de um discurso, de uma estética, de uma linguagem, de maneiras muito especificas. Planeta Terror tem clara derivação de alguns subgêneros do horror: filmes de zumbis (a la George Romero), ficção cientifica (John Carpenter), horror b-movies (William Castle, Roger Corman) principalmente. É claro que os gêneros estão constantemente sendo reinventados pelos diversos autores que surgem a cada geração. Mas nem por isso, podemos deixar de dizer que existe dentro desses territórios uma espécie de “linguagem de domínio publico” a qual, qualquer um que queira se arriscar por esses universos estaria, em tese, apto a explorar, seja lá quais forem suas intenções. Talvez, o mais adequado fosse falar de um grande arquivo a ser atualizado por diferentes tipos de percepção e intuição. Dessa forma, a diferença entre os “meros” filmes de gênero e os filmes de gênero que amamos estaria na forma com que estes rearranjam os elementos dispersos desse arquivo, mais do que isso, na forma como os percebem e fazem deles peças de um jogo quase passional (muitas vezes ingenuamente, mas não esse não é o caso do filme de Rodriguez).

Planeta Terror é um filme que se apropria dos maneirismos do gênero ao qual referencia, mas que, alem disso, reafirma em cada plano seu amor pelos filmes de gênero. Sua principal característica é exatamente deixar claro na tela que o que se opera ali é uma questão de paixão. O senso de humor canastrão que permite que a mocinha do filme tenha uma metralhadora no lugar da perna amputada, que suas cenas de amor com o mocinho e bad boy El Wray sejam embaladas pela mais vagabunda das musicas ou ainda a sugestão de que haveria um rolo perdido justamente quando estamos prestes a assistir a cena mais picante do filme, quando ambos finalmente se entregam ao amor, não são nada ingênuos nesse propósito. Planeta Terror se apropria de um senso de humor tosco muito proprio de alguns subgêneros do terror e o leva até um ponto em que o filme parece tornar-se uma brincadeira maneirista motivada pelo quanto mais tosco melhor. E, ai está a questao, quanto mais extrapola qualquer limite do bom senso, mais o filme fica bom – em que outro território certas liberdades seriam possiveis? Quando Dakota, a médica-anestesista, abre a torneira de sua casa e, imediatamente, a cena é cortada para a água caindo sobre os pés de Cherry Darling temos o que podemos chamar de um corte muito perspicaz, mas nem por isso menos inserido num universo trasheira. Por que apurar tanto num corte que liga uma torneira sendo aberta a um pé sendo molhado? Isso, em tese não tem nenhuma importância no filme. Pois a questao é exatamente essa: Planeta terror é puro exercício de estilo. Esse corte só pode ser considerado genial quando não se perde de vista um jogo estilístico cujo principal desafio é se colocar até o pescoço no universo da tosqueira. No fim, a impressão que fica é que essa seqüência existe para justificar uma coincidência feliz da montagem – o que não deixa de ser uma motivação muito tosca para se manter uma seqüência de imagens num filme. Mas, se há algo que não podemos fazer é acusar Planeta Terror de não ser cuidadoso e fiel ao universo que referencia. Quando Dakota dá a xícara vazia para seu marido e este, num “erro” grosseiro de continuidade, finge que esta tomando alguma coisa nela, o primeiro pensamento que vem é que o filme está “cercado” em todos as suas microscópicas partes. Detalhes “bobos” como esse, que podem facilmente escapar de nossa percepção (compreensivelmente, mais atenta ao que de “importante” impera nas cenas) conferem a Planeta Terror um caráter inesgotável; quanto mais vamos descendo, mais somos puxados.

Ainda em Dakota, uma cena em especial merece ser comentada: a cena em que seu filho morre vítima de um “suicídio acidental”. Minutos antes do fatídico acontecimento, a médica entrega o revólver ao filho para que ele possa se proteger de possiveis zumbis. As ordens expressas foram: ao menor sinal de aproximação dos endiabrados seres, atire. Mas, ressalta ela, enfática, “não aponte o revólver para si mesmo”. Foi sua única recomendação. Uma vez tendo sido tão cuidadosa no aviso, ela deixa o carro, o menino, o revólver, a brecha para o acaso, e vai em busca de ajuda. Mal se afasta, alguns segundos depois, ouvimos um tiro. Ela volta correndo para o carro, as mãos ainda debilitadas por anestésicos, e o que vê? A primeira coisa que o menino fez, tão logo se viu livre da mãe, foi exatamente apontar o revolver para si; erro fatal. Pode parecer sádico dizer que essa é uma das cenas mais engraçadas do filme. Talvez, Planeta Terror seja um filme sádico e ardiloso por um lado, porque busca extrair diversão das mazelas, mas talvez essa não seja uma boa forma de encará-lo. Esse humor negro, um tanto cafajeste, pode ser apenas parte de uma condição. Até que ponto toleramos blasfêmias se isso nos proporciona diversão? E difícil responder a uma pergunta como essa. Mas não é difícil constatar que, quando se trata de determinados gêneros cinematográficos, a diversão é a máxima. Pois é exatamente a esses gêneros que Planeta Terror quer reverenciar e ser parte – o que deixa de fazer com certa desenvoltura e sofisticação.


Liciane Mamede é editora do Cinequanon.art.br