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As construções do narrador e do fascínio em “Tropa de Elite”













Anahí Borges

Impossível assistir ao filme do Padilha alheio às opiniões de artistas, intelectuais, tenentes-coronéis da Polícia Militar, estudantes, enfim, personalidades que se manifestaram sobre ele na mídia nas últimas semanas. Devido à repercussão pública, “Tropa de Elite” está sendo foco de discussão - e bode expiatório – de diversos temas, que abrangem desde o papel do cinema na sociedade até as dificuldades e problemas sociais nacionais contemporâneos. Um debate saudável que está produzindo pensamento em diversos níveis – desde um bate-papo no ponto de ônibus, até ensaios e críticas acadêmicas – e está envolvendo inclusive membros das classes populares, que em sua maioria tiveram acesso ao filme pelo esquema da pirataria, e que raramente são partícipes do cinema nacional, seja porque consideram os filmes desinteressantes, seja porque o ingresso caro da sala de exibição os excluem desse consumo. Um fenômeno como esse, em que a representação da miséria e da violência no cinema brasileiro, a linguagem cinematográfica nacional moderna, o tráfico de drogas, a corrupção e arbitrariedade da polícia militar e demais problemáticas sociais estão pautados como ordem do dia na agenda dos brasileiros a partir do lançamento de um filme nacional é um evento histórico, certamente. A essa altura do campeonato é difícil dizer algo que já não tenha sido falado sobre o filme, mas independentemente disso gostaria de me ater a duas principais questões formais que existem em “Tropa de Elite”, sobre as quais o debate intelectual instalado poderia ter se detido mais ao invés de se concentrar, majoritariamente, em discussões ideológicas.

Há um elemento que não está bem construído na narrativa: a voz off do Capitão Nascimento como narrador onisciente. O aspecto épico na construção do discurso, ou seja, um narrador que conta uma estória de consideráveis dimensões sociais e históricas, situada no tempo passado, e que se mostra onisciente de todos os fatos contados, de suas personagens, o que pensam e sentem, sendo seu porta-voz e assumindo às vezes parte de seus diálogos e pensamentos, mostra-se incoerente em determinados momentos. Se essa voz off tem seu aspecto interessante ao não descrever as imagens ipsis literis se configurando um discurso à parte, ela também revela um problema na construção do espaço-tempo desse narrador na história. Onde o narrador está quando nos conta o filme? Em que tempo ele se encontra? Qual é o tempo que o separa do objeto narrado? Há cenas em que claramente o narrador está olhando a cena de fora: por exemplo, quando Matias chega ao Departamento dos processos e a voz off de Nascimento diz: “estão vendo essa pilha de papel em cima da mesa?” é como se ele estivesse junto ao público acompanhando e descrevendo essas imagens. Há cenas em que Nascimento está presente na ação dramática e a narração se aproxima de um pensamento seu, simultâneo à ação que desempenha na tela: quando sua esposa insiste para que deixe o BOPE e ele se mostra irritado com isso – “os comentários dela são o que mais me irrita”, ele fala. Na seqüência da morte de Neto, a voz off diz: “algum tempo depois Matias me disse que se pudesse escolher não pediria a Neto que levasse os óculos ao menino” (algo semelhante), o que contextualiza o narrador num tempo presente e a ação do filme em um passado mais distante do que o apresentado em diversos outros momentos – como os já citados acima, por exemplo. Além disso, há várias seqüências cuja voz off é onisciente sem, contudo ser cabível que saiba do fato narrado: nas cenas referentes à vida privada de Matias e Neto, antes e mesmo depois de suas trajetórias se cruzarem com a do Capitão.

Em suma, a narração do Capitão Nascimento se mostra inconstante e inverossímil durante o filme, fator que provoca a quebra da credibilidade do narrador diante do espectador. A quebra do pacto narrador-público é um recurso importante em toda a narrativa que se propõe a ser duvidosa, através do uso do ponto de vista exclusivo de uma personagem, levando o espectador a questionar a veracidade do relato e a hesitar diante dos acontecimentos da história de maneira consciente – construção fundamental em filmes de personagens psicopatas, por exemplo. No entanto, em “Tropa de Elite” embora exista a narração exclusiva de uma personagem claramente perturbada, ela é mal aplicada, descontínua e incoerente, revelando que tal artifício não parece ter sido utilizado como proposta de romper a credibilidade do espectador diante do narrador, mas aponta, antes de tudo, para uma incorreção dramática na obra.

Com relação ao uso da violência em “Tropa de Elite”, Padilha inovou, e por isso se arriscou, ao contar uma história sobre a perspectiva do policial, e não do marginal oprimido como é de praxe no nosso cinema de engajamento social. O filme apresenta a corrupção e arbitrariedades na Instituição da Polícia Militar, o uso da violência por parte dela, mas também a utilizada pelos traficantes: tanto ao primeiro quanto ao segundo a vida do outro não tem valor e problemas de desordem nos respectivos Sistemas são resolvidos na base da força e do arbítrio. Não há maniqueísmo, nem respostas, só existem problemas distribuídos para todos como fatias de um bolo: para o policial corrupto e para o traficante feroz, para o policial do BOPE sanguinário e para a classe média consumidora de drogas, para a pseudo consciência de classe que atua nas ONG’s assistencialistas postulando a consciência social dos excluídos e para o público, alvo da última cena. Entretanto, a representação da violência é algo cinematográfico – fruto do nosso imaginário colonizado anos e anos pelo cinema americano. Ou seja, nos filmes de cawbóis, de gângsters, de policiais etc. a violência é cinematográfica é sedutora: a cor do sangue, o som do tiro, o movimento dos carros, a corrida dos cavalos, a tensão que se cria numa perseguição. Enfim, uma gama de recursos dramáticos e visuais fazem dos gêneros de ação um prato cheio para o deleite de espectadores no mundo inteiro. No caso de “Tropa de Elite” essa violência existe com a beleza e o fascínio típico do gênero ao qual pertence - ação. E é justamente pelo fascínio que desperta no público que faz com que muitas pessoas acusem Padilha de fazer apologia à violência. É possível que as reações do público diante de uma obra diga mais sobre o próprio público do que sobre o artista que a realizou? Como dizer que algumas cenas tão cruéis suscitem risos em determinados espectadores, enquanto em outros gerem terror?

Na sessão em que assisti ao “Tropa de Elite” presenciei pessoas rindo em diversas cenas que para mim causaram pavor, como por exemplo na cena em que no treinamento do BOPE os aspirantes comiam a comida despejada no chão (alguns espectadores riram inclusive em cenas de tortura com o saco). Assim como Padilha oferece ao público cenas de corrupção da polícia, oferece outras de violência. Por que nas de corrupção algumas pessoas tiveram a sensação de que há uma visão crítica do realizador diante delas e nas de violência de que há apologia? Uma das razões está na própria construção do discurso de Padilha: porque as personagens que praticam a corrupção são pouco simpáticas ao público, são caracterizadas como incompetentes e fisicamente são grotescas, abobalhadas até, ao contrário das do BOPE que praticam a violência, simbolizadas e sintetizadas na figura do Capitão Nascimento – são bonitas, viris, competentes, com óculos escuros, boina, roupa preta e metralhadora apontada, o que dinamiza o imaginário e possibilita um fascínio (e não necessariamente identificação) do público por elas. Esse fascínio que o público tem pelo BOPE no filme, e o não fascínio pela corrupção policial, também encontra respaldo na beleza plástica e dramática da violência no cinema, como já foi dito acima, ao contrário da construção dramática da corrupção que, na obra, apela para o bom-humor simplesmente, beirando às vezes o pastelão. A opção por representar o BOPE de modo a causar fascínio cinematográfico encontra respaldo formal também nos jogos de vídeo-game: as cenas do BOPE subindo o morro, com a câmera mostrando os policiais de ângulos laterais, frontais, “pela nuca”, ou sob o seu próprio ponto de vista, em ações progressivas e velozes de avanço contra o inimigo, remetem ao jogo “counter-strike”, incrementando a plasticidade do gênero de ação em que o filme se enquadra.

Sem qualquer juízo ideológico, por que não assumir que Padilha quis gerar fascínio no espectador, legitimamente, aliás, em se tratando de filme de gênero? A escolha de Wagner Moura para o papel de Capitão Nascimento e o visual sedutor que o ator traz à sua personagem não pode ter sido gratuita, principalmente quando se fala no investimento de milhões de reais que o filme teve.


Anahí Borges é estudante de cinema na Eca-USP e editora do cinequanon.art.br