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Caipiras em Curitiba















Fernando Mascarello

Não são poucos os méritos do novo longa de Jorge Furtado e da Casa de Cinema de Porto Alegre, em exibição na Capital. Acima de tudo, Saneamento Básico, o Filme é uma inteligente e espirituosa comédia ao longo de seus 112 minutos, que nos faz rir à toa de uma história peculiar: a fim de construir uma fossa, para a qual a prefeitura não tem verbas, uma comunidade do Vale dos Vinhedos decide fazer um vídeo (para o qual Brasília tem verbas) sobre a construção de uma fossa. Ao cativar o público graças a qualidades técnicas e estéticas inegáveis, o filme de Furtado vem reiterar o marcante protagonismo do diretor e roteirista na áspera tarefa de nossa cinematografia pós-Collor, de elevar, junto aos segmentos médios da sociedade (majoritários entre a audiência do circuito exibidor), a desgastada imagem do cinema nacional.

Em meio a essas virtudes, porém, um aspecto questionável desponta: a inverossímil, distorcida geografia cultural do retrato, composto pelo filme, da região gaúcha de colonização italiana - e que é resultado de sua adesão à plataforma do dito "cinema brasileiro feito no Rio Grande do Sul", ou seja, os filmes produzidos no Estado, mas filtrados das marcas locais.

Em primeiro lugar, Saneamento Básico reprisa a fórmula da "geléia geral" brasileira de sotaques que Furtado inaugurou em Meu Tio Matou um Cara (2004), na qual cada ator fala com seu português de origem (carioca, baiano, porto-alegrês etc.), turbinada agora com o canto itálico da Mooca paulistana entoado por Tonico Pereira. (Juro que ouvi um espectador dizer: "Será um palmeirense perdido no mato?")

A sonoridade urbana dessa bricolage, por sua vez, é apenas um elemento, entre outros, da caracterização francamente citadina da maioria dos protagonistas - algo como se os personagens da ficção seriada carioca da Globo desembarcassem nos confins da Serra rio-grandense. A parca tentativa de conferir uma ingenuidade rural às figuras humanas chega a ser verbalizada por Joaquim (Wagner Moura) - mas aqui, nova distorção: em lugar de um "colono" (palavra usual no interior gaúcho), ele se autodescreve como um "caipira" (paulista? mineiro?). Para arrematar, o roteirista Furtado insere o toque de humor: Zico (Lázaro Ramos) seduz a gostosa Silene (Camila Pitanga) com uma cantada de impagável geografia: "Você não tinha que estar aqui nesse fim-de-mundo, você devia estar é em Curitiba...!"

Pois bem: não é difícil perceber que Saneamento Básico, em sua reconstrução deturpada e inverossímil da vida em nossa região colonial italiana, enuncia um discurso sobre as relações entre o regional (gaúcho) e o nacional (brasileiro). Que discurso seria esse? Para começar a entendê-lo, sugiro contextualizá-lo frente a um processo mais amplo, com o qual é aparentado: o acirramento, nos últimos 15 ou 20 anos, do ímpeto transnacionalizante na produção cinematográfica mundial.

Mais especificamente, gostaria de fazer menção a duas vertentes (entre outras) desse cinema transnacional, que passaram a conviver com as cinematografias nacionais, testando suas fronteiras. Por um lado, há um certo "cinema pós-nacional", de que são exemplos obras como a trilogia O Senhor dos Anéis (Peter Jackson, 2001-2003) ou os "franceses" O Quinto Elemento (Luc Besson, 1997) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, 2001). Ele se define pela filtragem, em maior ou menor grau, das particularidades das culturas locais e nacionais nos filmes (tomadas como entraves a seu consumo internacional), em prol de uma temática e um estilo globais. Via de regra, esses filmes exibem uma estética naturalista - o que significa dizer: criam, no terreno da fantasia, uma "aparência de realidade" verossímil para seu mundo ficcional globalizado.

Por outro lado, no chamado "cinema diaspórico" de diretores emigrados de primeira ou segunda geração, como o armênio-canadense Atom Egoyan, o turco-alemão Fatih Akin ou a indiana Mira Nair, dá-se o contrário: um estudo minucioso dos desafios impostos a identidades nacionais concretas pela mestiçagem com a cultura (também específica) do lugar de destino. Nesse caso, a intenção é mais realista (ao invés de naturalista): os filmes problematizam, de maneira supostamente mais fiel e objetiva, o universo social e psíquico de seus híbridos e deslocados personagens.

Embora, por certo, as relações do nacional com o transnacional sejam de outra ordem que as do regional com o nacional, guardam semelhanças suficientes para afirmar que Saneamento Básico (assim como Meu Tio Matou um Cara) reproduz, em nível doméstico, as funções e expedientes do "pós-nacional". Nesse sentido, poderíamos pensar que o "cinema brasileiro feito no Rio Grande do Sul" - enquanto desdobramento do cinema gaúcho - é na verdade um "pós-regional". Ele exibe, porém, diferenças importantes para com os filmes pós-nacionais. Se esses, no esforço por livrar-se das marcas do local, costumam adotar uma sólida estética da verossimilhança, Saneamento Básico - e o mesmo provavelmente se poderia dizer de Meu Tio, com seu apagamento dos traços identitários de Porto Alegre - se afasta do verossímil para incidir num "naturalismo preguiçoso", pleno de distorções na sua relação com a realidade.

Ao mesmo tempo, a mistura de sotaques e tipos regionais na Serra Gaúcha pareceria aproximar, "à brasileira", o filme de Furtado da temática de hibridação cultural cara ao cinema diaspórico. Mas o que temos aqui, em lugar disso, é um hibridismo fake, caricatura da mélange real do país (encontrável aos borbotões em nosso Estado, vale recordar) e absolutamente injustificado no plano da narrativa.

Outro elemento comum aos dois filmes pós-regionais de Furtado é o surgimento de ambíguos mecanismos compensatórios do apagamento ou da distorção praticados. Muitos lembrarão que Meu Tio apresentava, em contrapartida à eliminação dos referentes locais de Porto Alegre, um inesperado fascínio dos personagens por seus itinerários urbanos. Já em Saneamento Básico, a tentativa mais óbvia de compensação às inverossimilhanças é o uso "realista" de figurantes selecionados entre os moradores. Isso vem compor, no entanto, apenas um decorativo, paternalista e dissonante pano de fundo para os atores do elenco da Globo - resultando em não mais que um arremedo de realismo. E, surpreendentemente, o próprio filme parece censurar-se por isso, através da criação de uma espécie de sintoma inconsciente. Refiro-me à cena criticando o prefeito (Sérgio Lulkin) por seu uso pragmático da imagem dos nativos, quando convida os "representantes da comunidade e da região" à foto com a placa da obra em andamento para, tão logo essa é batida, dar as costas e partir. Qualquer semelhança é mera coincidência?

O discurso construído pelos filmes do "cinema brasileiro made in RS" sobre as relações entre o local e o nacional se caracteriza, portanto, pela prática de uma série de apagamentos identitários e distorções da geografia cultural, em associação com um naturalismo "preguiçoso" e uma hibridação fake, e tendo como "resíduos" a aparição de alguns sintomas compensatórios. Obviamente, esse discurso dos filmes é sustentado, externamente, por uma retórica autoral da ordem do econômico e do mercadológico - como levantar, no centro do país, financiamento e distribuição para filmes "gaúchos"? Essa retórica, por seu turno, talvez esteja (como sabê-lo?) apenas a dissimular um ideário anti-localista, de silenciamento do regional pelo nacional. Mas essa já é outra discussão.



Fernando Mascarello é coordenador do curso de Especialização em Cinema da Unisinos, organizador do livro "História do Cinema Mundial"