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“Place de Victoires”, de Nabuhiro Suwa, um dos curtas de “Paris, te amo”.









Fernando Watanabe

Bem, já faz um tempo que “Paris, te amo” está em cartaz em São Paulo e, apesar de ter estreado um pouco depois em algumas outras cidades brasileiras, escrever uma crítica completa sobre aquele conjunto de curtas, equivocadamente chamado de “filme”, parece não ter tanto propósito. Vários textos já parecem ter abordado vários pontos relevantes sobre o projeto. Que o “filme” é desigual, ok, sabemos e não precisamos ler nada pra chegar a esta conclusão; que os curtinhas preferidos de cada um variam enormemente de acordo com a subjetividade de cada um também vira uma brincadeira gostosa para se reconhecer diferenças entre amigos e suas respectivas visões de cinema. O que resta, então, é se deter nas partes, tentar ir um pouco mais a fundo nos filmes de verdade perdidos em meio ao emaranhado de filmes. Destacá-los do contexto total frágil (o filme “Paris, te amo”) não é difícil.

O escolhido aqui é o filme número 8, “Place de Victoires”, do japonês Nabuhiro Suwa. Quanto ao aparato, ele dispõe de tudo que todos os outros curtas também apresentam, um mínimo de “qualidade”: bons atores (aqui há a mais que excelente Juliette Binoche), um roteiro adequado ao formato, iluminação e montagem “profissionais”. Tudo isso garante que o curta não pareça em nada com algum trabalho humilde de iniciante ou estudante de cinema.

Mas Nabuhiro, a partir desse mínimo, tenta ir além – o consegue dependendo da recepção por parte de cada espectador, mas ele fornece o caminho. Após mostrar uma estátua de cavaleiro no exterior noturno de uma praça, ele corta e vai com a câmera para a mãe que lamenta a perda do filho pequeno, dentro de um quarto (agora ex-quarto) deste. Um plano mostra mãe e filho juntos em um retrato, e os próximos dois planos do filme (4º e 5º) se encarregam de introduzir respectivamente a outra filha pequena e o pai. Economia impressionante. O assunto, os personagens e o clima estão estabelecidos em apenas 5 planos. A dor da perda, o fantasma de quem foi, o afeto e carência mútua entre os que ficaram. Parcela importante da vida em apenas, repito, 5 planos. Tamanha condensação não causa a aparência de excessos, ao contrário, não só estamos informados do assunto como, mais importante, já estamos imersos no clima do filme: um pesar solene.

Juliette ouve um chamado do fantasma do filho, corre para a praça onde um personagem bizarro se infiltra na trama, causando um choque muito brusco, uma vez que o clima inicial até pressupunha a interferência do sobrenatural (o 1º plano da estátua de cavaleiro), mas não dessa forma um tanto bizarra: é Willian Dafoe em um cavalo! Aqui, o bizarro é estranhamente bom. Ele guia a mãe para um reencontro com o filho, e esse reencontro se dá no mesmo local porém à luz do dia e com várias crianças em volta. Abruptamente voltamos para a noite, e o cowboy leva o filho embora de novo. Pessoalmente, essa seqüência me deu vontade de rir em alguns momentos e eu pensei que a narrativa, a partir do surgimento bizarro do cowboy, não se levaria mais à sério, que o cineasta iria tirar a credibilidade de sua ficção construída até então para ao final entrar em alguma piadinha (algo mais do que esperado em um curta). Mas aí o marido de Juliette vem resgatá-la, eles se agarram, ele pergunta: “onde é que você achou tamanha força?”. Ela responde sorrindo: “de Deus”. Fim. O espanto é inevitável, não só por esse final inesperado, mas principalmente pela anterior convivência perigosa entre fantasia ligeiramente bizarra (aos nossos olhos conformados, claro) com um clima solene de pesar existencial.

A frase final “de Deus” é tudo, é a vida. Não acredito em Deus, nem acho que o filme tenha o objetivo final de enaltecer o divino (fato comprovado quando a narrativa coloca o cowboy como uma fantasia subjetiva da personagem, um possível “delírio” de Juliette). Mas, talvez uma parte das pessoas que já foi mãe ou que veio ao mundo de uma, com certeza, pode se ver refletidas nesta pequena obra prima.



Fernando Watanabe é editor do cinequanon e estuda cinema na USP.