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Os autores, a fossa e o monstro em “Conceição” e “Saneamento Básico”.













Cesar Zamberlan

A estréia em semanas seguidas de “Conceição, autor bom é autor morto” e “Saneamento Básico” não é a única coisa que aproxima os dois filmes, ainda que busquem resultados totalmente diferentes, eles têm muitos traços em comum. A tentativa desse texto é buscar alguns desses traços, ver como eles servem aos filmes e como se relacionam ao momento atual do cinema brasileiro.

O primeiro traço que vejo e o mais óbvio é o uso da metalinguagem nas duas narrativas. Em Conceição, temos a busca pirandeliana de diretores por uma boa história. A ação se dá na mesa do bar e entre uma cerveja e outra, entre a imaginação e a verdade, o filme acontece. Já Saneamento, usa um ponto de partida mais irônico: um grupo de moradores reivindica uma verba para uma fossa e a única verba que o pequeno município possui é para um vídeo, surge então a idéia de fazê-lo para tentar, por meio dele, realizar a fossa.

Nos dois casos, o fazer um filme está em jogo, mas os realizadores é que diferem. Em Conceição, esses possíveis realizadores, personagens do filme, são como muitos aspirantes a diretores no Brasil, cineastas sem câmera, verba ou possibilidade de fazer um filme que em uma mesa de bar, esperando uma idéia, um argumento brilhante que possa dar um filme, “realizam” da forma como lhes é possível parte desse desejo ou dessa necessidade.

Já em Saneamento, os personagens realizadores não desejam isso, realizar um filme é um estar momentâneo e não um desejo maior; eles brincam de fazer cinema e vão, na prática, descobrindo os dilemas básicos de construção de um roteiro, da filmagem, montagem e construção do filme.

Em ambos os casos, a metalinguagem brinca com uma certa impossibilidade de se fazer cinema no Brasil. Em Saneamento, isso se dá às avessas e de forma bem irônica: “dinheiro para fossa não tem, mas para fazer um filme tem”, diz o personagem de Paulo José. Uma situação absurda no filme que na vida real se desdobra no seu contrário e na pergunta tão comumente repetida: como investir em cultura num país que não tem saneamento básico?

Em ambos o caso, não há o tom lamentoso e choroso que sempre marcou e marca o discurso de muitos que, por razões diversas, se vêm impedidos de filmar, mas esse objeto complicado e complexo, o fazer um filme, está lá, como tema.

Em “Conceição”, ele se constrói e se desconstrói no devaneio dos personagens realizadores que imaginam seus filmes e seus personagens até perder a autonomia sobre a própria criação e, num dos muitos achados do filme, na inserção de pequenos quadros com relatos supostamente documentais com pessoas comuns dizendo como seria o seu filme. Esses quadros que acabam por completar o tempo do filme se ajustam perfeitamente à idéia de um filme coletivo e rende não só por embaralhar ficção e realidade, mas também por mostrar que todo mundo tem seu filme, ao menos, na cabeça. Existe uma necessidade de ficção e poesia em todos: cineastas em potencial, barbeiro ou tatuador.

Em “Saneamento” esse fazer um filme vira um objeto ainda mais concreto, ganha forma e nome, “O monstro do fosso”, e responde àquilo que os personagens realizadores imaginam necessário para atender à exigência do edital da prefeitura. É a interpretação equivocada deste edital - os desdobramentos da palavra “ficção” que acaba por ser compreendida como ficção cientifica e da palavra “quimera” que mal empregada é entendida ao pé da letra como relativa a monstro - e não saber fazer um filme que acabam tornando esse filme dentro do filme, por mais tosco que ele seja, num sucesso.

Sucesso farsesco e extremamente caricatural, se pensarmos nas reações dos espectadores ao filme dentro do filme; mas que acaba ajudando a compreender o sucesso, pelo menos nessa primeira semana, do próprio “Saneamento Básico”.

De certa forma, “Saneamento Básico” e “O monstro do fosso”, se servem de “equívocos” para atender a certas exigências. Que exigências seriam essas? No primeiro caso, um edital público; no segundo, o público em si.

Furtado fez seu pior e muito provavelmente seu mais bem sucedido filme junto ao público – pelo menos é o que imagino que vá acontecer – a partir dessa idéia absurda e brilhante: transformou o “equívoco” e o "e o cinema mal feito" em matéria. O cineasta, que sabe como poucos narrar no cinema, vide a fluência narrativa de seus curtas e longas anteriores, usou e abusou aqui de facilidades narrativas, sucumbiu a qualquer impulso mais autoral, deixou de lado qualquer plano mais elaborado ou ousadia no roteiro, visando unicamente satisfazer a um auditório não muito diferente daquele que vê “O monstro da fossa”. “Saneamento Básico” é “O monstro da fossa”. Muitas pessoas dizem que a melhor parte do filme é justamente o filme dentro do filme e elas têm toda razão.

Já em “Conceição” a metalinguagem e o fazer cinema nascem da mais pura “irresponsabilidade” se pensarmos nas tais exigências - estas, sim, o verdadeiro monstro da fossa.

Gerado por outros mecanismos - se é que assim podemos chamá-los -, “Conceição” na sua liberdade criativa parece concebido sem se prender uma exigência, seja ela qual for, que não a própria satisfação de seus realizadores. Eles ousaram fazer aquilo que queriam, não quiseram contentar o público, mas um público que aceite e entenda essa “irresponsabilidade”.

Nesse sentido, os diretores de “Conceição” são, de fato, autores fadados à morte e sabem que tal liberdade talvez nunca mais seja possível. Afinal, autor bom é autor morto tal qual Jorge Furtado no seu consciente equívoco.

Nisso, e também às avessas, os filmes convergem e é essa a fossa e o fosso do cinema hoje. De uma forma ou de outra, estamos todos nessa, na fossa e no fosso.



Cesar Zamberlan é editor do cinequanon.art.br.