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Aroma de cinema













Alfredo Luiz Suppia

Pelo que tenho conversado com as pessoas, O Cheiro do Ralo tem dividido a opinião do público. Não há meio-termo: ou se ama ou se odeia o segundo longa-metragem de Heitor Dhalia. Confesso que simpatizei com O Cheiro e fico do lado dos que o amam. Não por ser uma obra-prima, muito pelo contrário. O filme está longe de ser um primor - mas quem disse que alguém se importa com isso? O Cheiro demonstra consciência de sua pequenez, e nisso talvez resida a sua virtude, sua vocação para filme cult.

Em O Cheiro, Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma espécie de loja de penhores. Ele compra objetos usados dos mais variados tipos, tamanhos e funções, vendidos por outra grande variedade de pessoas, das mais esquisitas até algumas atraentes, porém todas com um ponto em comum: necessidade de dinheiro rápido. Embora O Cheiro faça rir em diversos momentos, o filme é muito triste em sua essência, o retrato de um homem amargo, frustrado, solitário, dividido e complexado. Ao tratar de maneira vulgar temas como o fetichismo da mercadoria, as relações de poder, o sexo e o vazio das sociedades de consumo, O Cheiro explora um caminho irônico que, para o espectador mais desatento, toca o diapasão da comédia. Mas o filme não se esgota nisso.

A vida mecânica e mesquinha de Lourenço ganha novo sentido depois que ele encontra um bumbum. Mas não um bumbum qualquer. Trata-se do mais belo e perfeito de todos, “a” bunda. Sim, um par de nádegas pertencente a uma garçonete (Paula Braun) é o que detona e propele a ação do filme, em paralelo ao mau cheiro do ralo do banheiro do escritório de Lourenço. O protagonista é egoísta e mesquinho, e apenas uma coisa o incomoda: que seus clientes pensem que o mau cheiro vem dele, e não do ralo. Quando um cliente mais arredio insiste que é de Lourenço que vem o fedor, explode a paranóia. Sexualmente frustrado, Lourenço só sente verdadeiro prazer ao humilhar as pessoas. Ele entra em êxtase submetendo a violências verbais, morais e até físicas os pobre-coitados que vão à sua loja. Lourenço gosta de “estar sempre por cima”. Só lhe interessa “a” bunda se ela for comprada, não dada. Sua filosofia de vida, algo maquiavélica, lhe traz lucro financeiro, mas também gera grande prejuízo afetivo. E ele sabe disso. Trata-se de um personagem consciente de sua dualidade, que assume a adoção de uma conduta maquiavélica (no mau sentido) para “subir” na vida. Nessa autoconsciência, Lourenço difere de Salesiano de Carvalho, o neonazista interpretado por Selton Mello em Garotas do ABC (dir.: Carlos Riechenbach, 2003). A maneira com que Selton faz Lourenço lembra sua performance como Salesiano, ainda que num “tom” mais baixo.

Extremamente infeliz, Lourenço é uma espécie de Dorian Gray da Mooca (bairro onde parece que o filme foi rodado). Poderoso e sedutor, quanto mais ele se amesquinha, mais o ralo fede e transborda. Outro “personagem” evocado pelo pragmatismo, maquiavelismo e sotaque caipira de Lourenço é José Dirceu, príncipe do governo Lula. O Cheiro do Ralo sugere leituras psicanalíticas evidentes. Ralo, esgoto transbordando, olho de vidro, bunda, fetiche. Tudo que há de mais estranho e bizarro no filme vem do universo do escritor, desenhista e dramaturgo Lourenço Mutarelli, que foi analisado por muito tempo e conhece bem a obra de Freud. Em O Cheiro, Mutarelli interpreta o segurança da loja de Lourenço, figurinha truculenta e cheia de manhas. As rápidas aparições de Mário Schoemberger, Wolney de Assis, Flávio Bauraqui, Milhem Cortaz, André Frateschi, Lorena Lobato, Zé Pineiro, Xico Sá, Tobias Vai Vai e Alice Braga, entre outros, dão colorido especial ao filme, seja pela excentricidade, seja pela competência da atuação. Martha Meola atua como os bons juízes de futebol - não aparece no jogo, mas é importante -, Fabiana Guglielmetti está ótima como a noiva neurótica e Sílvia Lourenço encarna muito bem um estrupício, cujo papel é decisivo na instauração do inferno de Lourenço. Ela faz uma viciada raquítica que emagrece a cada aparição.

Nina (2004), o primeiro longa de Dhalia, parecia não saber muito aonde queria chegar. Livre-adaptação de Dostoievski, o filme trouxe para a tela grande um universo taciturno, de inspiração expressionista, enriquecido pelo traço de Lourenço Mutarelli. Mas o próprio Dhalia reconhece que, em Nina, “pesou a mão”. Já O Cheiro do Ralo parece um trabalho mais afinado, harmonioso, em que os realizadores sabiam exatamente aonde queriam chegar, produto de uma parceria mais azeitada do trio MAD (Mutarelli, Aquino e Dhalia). Diferente de Nina, O Cheiro do Ralo tem roteiro melhor costurado, uma narrativa menos hesitante e que progride com menos “trancos”. Menos orçamento + menos pretensão = mais acertos. O Cheiro foi feito com orçamento abaixo da linha de um B.O. (filme de Baixo Orçamento, na casa de R$ 1 mi), a maior parte das cenas rodadas num velho galpão em São Paulo. As limitações da produção podem ter ajudado na objetividade, fazendo com que O Cheiro se concentrasse no que realmente importava: as obsessões e conflitos internos de uma espécie de Paulo Honório (do livro São Bernardo, de Graciliano Ramos) estilizado, da geração Shopping Center & Internet. Nesse sentido, O Cheiro do Ralo não deixa de ser um manifesto um tanto quanto “conformado”, uma rebeldia assistida, muito diferente do que já se produziu no Cinema Marginal, por exemplo. Mas afinal, será que ainda vale a pena viver de saudade?

A despeito de algumas repetições e um certo “estetismo” publicitário, evocativo dos recém-lançados Almanaques dos anos 70 ou 80 - aspectos que não são necessariamente negativos -, O Cheiro do Ralo me parece bem-sucedido por ser um filme que “comunica” - ou que até “significa”, algo raro no cinema contemporâneo. Tive a curiosa experiência de assisti-lo duas vezes em locais razoavelmente distintos. Pela primeira vez, no cine Jaraguá, em Campinas, famoso por sua programação alternativa, com filmes de arte, europeus e asiáticos. A platéia (que no Jaraguá costuma ser mais intelectualizada) assistiu ao filme em silêncio. Vez ou outra se ouvia uma risadinha “amarela”. Creio que, neste cenário, o filme “significou” alguma coisa, a julgar pelos comentários após a sessão. A impressão que tive é que o humor de O Cheiro foi intencionalmente projetado para provocar esse tipo de reação específica: a risadinha “amarela”, desconfortável e fugidia. A segunda vez em que assisti ao filme foi numa sala Cinemark do Shopping Villa-Lobos, em São Paulo. Aqui a platéia ria à vontade, em diversos momentos. Nesse contexto, o filme ao menos “comunicava”.

Ainda assim, há quem critique o tom over do figurino e da cenografia, as situações repetitivas, a superficialidade da ironia, o suposto besteirol e outros aspectos do filme de Dhalia. Confesso que nada disso me incomodou muito. Tendo assistido poucos dias antes a outro filme que também gostei bastante - Os 12 Trabalhos, de Ricardo Elias -, não senti necessidade de que O Cheiro do Ralo retratasse personagens e o cenário paulistano com o mesmo viés documentário e vocação humanista. Embora me pareça uma produção que logra seu objetivo, é óbvio que O Cheiro do Ralo está longe de agradar a todos. Como diz o personagem Lourenço, “a vida é dura.”