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Críticos sem dono















Érico Fuks

Se depender da receptividade de um público mais do que caloroso, aliada ao suor e ao profissionalismo dos organizadores e divulgadores, o Prêmio Jairo Ferreira foi o primeiro de uma série de vários. Quando me refiro a “público”, não estou falando de uma massa amorfa composta por uma fila impessoal de algarismos cabisbaixos que passam lentamente a catraca como se estivessem indo a um abatedouro. Também pouco se me dá a quantidade de senhas que foram distribuídas, a quantidade de poltronas que foram ocupadas, a de cervejas e refrigerantes que foram consumidos ou qualquer outro índice estatístico de sucesso. Estou me referindo às pessoas, físicas, que enfrentaram esse trânsito maluco e esse fluxo e refluxo meteorológico instável só para nos prestigiar. Organismos vivos dos mais diferentes universos estavam lá, no saguão do Cinesesc, à nossa espera, ao mesmo tempo prontos para nos abraçar e curiosos para saber antes de todo mundo algo que nem eu mesmo sabia: os premiados da noite. Compôs essa horda amiga e heterogênea desde os colegas que acessam religiosamente nosso site, até pequenas e efêmeras celebridades distantes. O cinema mais charmoso da cidade dividiu seu espaço por diretores, realizadores, idealizadores, amigos cinéfilos e não-cinéfilos, confrades, marinheiros de primeira viagem, figuras arroz-de-festa, cariocas, personagens do Orkut, críticos independentes e, faz-se aqui um destaque relevante, críticos e profissionais diretamente envolvidos com a grande mídia de massa. Importante eu digo não pelo bochicho e pelos holofotes, mas por entender que um acontecimento como este, além de representar – pretensão da minha parte – uma pedrinha no sapato das grandes corporações de raciocínio sedimentado, pode significar o começo de uma mudança no modo de se enxergar a formação do olhar critico atual a ser considerada por esses meios.

Confesso não conhecer nem minimamente o trabalho do Jairo Ferreira. Mas só a sonoridade, a carga mítica e semântica de seu nome, já me contextualiza suficientemente para perceber quão outsider era esse compatriota. Chovendo um pouco no molhado, a sua inquietude, a sua rebeldia e irreverência, o seu eterno “estado critico” de ver as coisas, já nos coloca – o corpo critico independente, como um todo – em nível de igualdade e de identificação, pelo menos nas intenções e nas propostas. A escolha do nome para o primeiro prêmio que contempla e reconhece trabalhos praticamente invisíveis aos conglomerados de consumo (vide lista de indicados, em todas as categorias) teve uma aceitação quase que unânime por parte dos eleitores que, segundo Eduardo Valente, em sua maioria são assíduos freqüentadores de botecos e adoram aprimorar as inacabadas decisões e idéias iniciais de rascunho. Além do quê, como todos sabemos, a substância etílica engarrafada é um ótimo combustível para a confraternização.

E por falar em Valente (refiro-me ainda ao editor da revista Cinética, e não ao adjetivo mais apropriado à premiação. Se bem que organizar uma espécie de anti-Oscar, sem recurso financeiro algum, contando com a camaradagem e a benfeitoria dos visionários para contemplar em plena segunda-feira obras lançadas por puro idealismo, não deixa de ser um ato heróico de bravura e de coragem), esqueçam tapetes vermelhos e frases decoradas. O improviso falou mais alto. O papel segurado na mão serviu para a oratória discursiva do anfitrião tanto quanto um roteiro escrito traduz o resultado final de uma obra do Sganzerla. Sua cara de auto-realização e suas entrelinhas de missão cumprida eram mais do que nítidas. O entusiasmo valente e aparente parecia ser a demonstração de gratidão por um esforço que teve a sua compensação. A recompensa, para o público presente, foi a exibição em primeira mão do mais novo filme de Beto Brant, “Cão sem Dono”, junto com um curta do Jairo, “O Guru e os Guris”. Este, por sua vez, foi considerado pelos organizadores o único possível de ser exibido decentemente, visto que o conjunto da obra do crítico está em projeto de restauro sob a tutela de Paulo Sacramento (desta vez, prefiro não fazer qualquer associação metafórica entre o trabalho de restauro no Brasil e o sobrenome prisioneiro da grade de ferro). Com seu habitual jeito bem à vontade de apresentar o projeto, Duda Valente fez um paralelo entre o nome do curta redivivo (escolha bastante acertada para o evento) e o que o Jairo significa para essa nova safra de escritores de cinema de sites e revistas de pequena circulação. Para este restrito conjunto, o pensamento investigativo não é mais utópico e as rodas de discussão não mais se restringem a mesas de petiscos e listas virtuais. De fato, o inconformismo sábio do homenageado nos diz muito. Estamos no caminho de entender melhor de que forma o legado do mestre dialoga com nossas idéias e discussões a respeito da Sétima Arte inserida num contexto digital. Se Jairo Ferreira é para os chamados “alternativos” mais do que uma referência ou um estilo de vida, onde está então a semente plantada por ele, cultivada por uma cepa tão díspar quanto os principais redatores dos cinco veículos que participaram da votação? Como podemos deixar o testamento de Jairo algo ainda vivo e em ebulição?

Ainda que Duda tenha conquistado a simpatia da platéia com sua rapidez de raciocínio associativo, peço permissão ao cinético para ir além dessa similaridade mais imediata. A meu ver, a estigmatizada “crítica independente” está muito mais para “Cão sem Dono” do que para os guris do guru. Do ponto de vista estrutural, somos muito mais o recorte de mundo brantiano. Não temos nome, não temos pedigree, não temos proprietários nem tutores, mal e mal conseguimos obter alguma carteirinha de vacinação que nos permite se credenciar a algum festival, e qualquer denominação dada à espécie passa por um entendimento que, se não chega a ser pejorativo, é no mínimo incompleto e equivocado. Perante os remunerados do fazer-crítica (bem diferente de produzir um trabalho crítico), somos todos vira-latas. Invadimos espaços, sem ao menos saber se a área em questão é inóspita ou não. Na maioria das vezes, é. Nem sempre afagam nossas cabeças e se contentam em passar a mão no nosso couro revestido de pêlos e, quando o fazem, é porque certamente há segundas intenções em jogo. São nossos olhos perdidos e atônitos que procuram dar respostas tortas a uma sociedade teoricamente organizada, apaixonada e feliz. Somos invasores da nossa própria categoria. Vira e mexe somos metalingüisticamente questionados sobre o que estamos fazendo numa redondeza que não faz parte do nosso minifúndio. Se o universo leitor fosse representado metonimicamente por um casal, teríamos caído nas graças de um e alimentado o mais profundo desprezo de outro. É sempre nessa proporção; jamais conseguiremos agradar a gregos e troianos. Ainda bem.

Se pulguentos nos consideramos e como pulguentos somos vistos pelo mainstream editorial, espalhemos então nossas crias sifonápteras atrás das cavernas auriculares de quem opta pelo comodismo autômato das fichas técnicas. A partir de hoje, a assombração de Jairo transformou nosso abrigo de carrapatos em algo mais contundente e significativo do que carpete cenográfico. Que nossos textos ululantes e nossa daltônica e incomodada visão de mundo tragam mais damas e vagabundos ébrios ao nosso canil. E que toda essa cantoria desafinada de vítimas da carrocinha termine suas madrugadas de cio numa esbórnia carnívora do Sujinho, para nós hoje e sempre a taverna das meretrizes.



Érico Fuks é editor do cinequanon.art.br e colaborador do omelete.com.br