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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados – “Obscuridades, incertezas e ambiguidades em “Nunca fomos tão felizes”


















Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


“Obscuridades, incertezas e ambiguidades em “Nunca fomos tão felizes”                                         (publicado: 07/2014)

Por Humberto Pereira da Silva

À medida que os anos passam, o período de ditadura militar no Brasil (1964-1985) reverbera em nossa memória como o espaço de tempo mais conturbado e sombrio de nossa história recente. Em consequência, revela-se como momento de discussões, reavaliações e distorções de episódios controversos (não à toa, há quem sustente que, como exceção da vigência do AI-5, nossa ditadura foi uma “ditabranda”). De fato, meio século após o golpe que levou os militares ao poder, as feridas deixadas pelos anos de autoritarismo não foram fechadas, como se pode ver este ano em manifestações pedindo a volta dos militares.

Arte do tempo por excelência, o cinema se oferece como meio privilegiado para condensar um instante histórico, e assim legar aos pósteros o sentido de gestos, de trejeitos de uma época que na maioria das vezes são subliminares. Essa percepção – sabem os estudiosos – foi captada por Joseph Stalin: daí a importância que deu à produção cinematográfica, em razão da facilidade com que as imagens permitem aproximação entre a ideologia do regime e a massa. Mas, em sentido inverso, justamente por isso, o filósofo Theodor Adorno reservara à sétima arte crítica similar à que endereçou ao Jazz: fenômeno de massa, a exaustão da exibição carrega o sentido de “regressão”.

Polêmica sobre o estatuto de arte à parte, mantenhamos que o cinema é um dos principais meios de expressão a nos permitir a experiência de presentificação do passado. Nos anos recentes, com focos variados e pretensões distintas, tanto o documentário quanto a ficção se voltaram preferencialmente para acontecimentos do tempo da ditadura. Não é o caso de exibir uma lista que esgote os títulos a que a ditadura deu ensejo nas realizações cinematográficas: seria um exercício cansativo e incompleto. Mas, de minha experiência pessoal, destaco o que me tocou: no documentário, Cidadão Boilesen (2009), de Chaim Litewski, e O Dia que Durou 21 Anos (2013), de Camilo Tavares. Já na ficção, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger, Batismo de Sangue (2007), de Helvécio Ratton, e “A Memória que Me Contam (2012), de Lucia Murat.

Se a ditadura é uma fonte da qual constantemente se servem cineastas recentes, a fim de que não se perca a memória do passado, dos chamados “anos de chumbo”, também é verdade que nos anos em que esta ainda vigorava o cinema não se furtou em exibi-la. Tendo-a por foco, de modo direto ou indireto, foram realizados filmes como O Bom Burguês (1979), de Oswaldo Caldeira, Paula – a História de Uma Subversiva (1979), de Francisco Ramalho Jr., Pra Frente, Brasil (1982), de Roberto Farias. Mas, creio, no período em que se avizinhava o processo de redemocratização, o filme mais simbólico e desvelador dos sentimentos embutidos naquele ambiente opressivo foi Nunca Fomos Tão Felizes (1984), de Murilo Salles.

Neste filme, algo da força do cinema – arte do tempo por excelência – que só a passagem do tempo pode devidamente propiciar. Quer dizer: visto hoje, é como se fosse uma nova obra, como se o sentido oculto presente em suas imagens estivesse em estado de hibernação. E assim, com o tempo, despertasse numa realidade diversa daquela em que foi concebida. Em sentido estrito, Nunca Fomos Tão Felizes é o tipo de filme em que, num paradoxo, cabe a etiqueta de antedatado.

Vejamos o porquê disso. Consideremos inicialmente a ironia do título. Nunca Fomos Tão Felizes, slogan exibido no próprio filme, faz menção a uma chamada da Rede Globo do início da década de 1970, que carrega em si a ilusão de um país feliz, em perfeita ordem e progresso. Mas, no momento em que foi realizado ainda vivia-se em certa medida a realidade do próprio slogan: ou seja, ao mesmo tempo em que, no título, se faz menção aos anos do governo Médici, aos “anos de chumbo” em que vigorava a censura com o AI-5, em 1984 os militares ainda estavam no poder.

Em suma, o slogan, o título do filme, portanto, se apoia numa ironia que, hoje, se põe em outros termos. Nunca fomos tão felizes, num exercício de metalinguagem, hoje se aplica ao mesmo momento em que o filme foi feito. O que significa ter em mente o risco de se realizar um trabalho que, mesmo quando não mais vigorava o AI-5, carregava grande teor de provocação. Esse sentido de risco potencial, uma virtude da empreitada de Murilo Salles, é o que agora pode ser de fato destacado. Na época, era um dado em estado hibernal.

A trama, em linhas gerais, joga luz quase exclusivamente na figura do jovem Gabriel (Roberto Bataglin). Órfão de mãe, estudante em um colégio interno católico em Minas Gerais, ele é retirado da instituição pelo pai (Claudio Marzo), que não via e de quem não tinha notícia há oito anos, passando a morar num apartamento no Rio de Janeiro. Nas primeiras sequências, o espectador é suficientemente informado de que o pai é um militante político que aderira à luta armada. Ele esteve preso, mas, por razões não esclarecidas, no momento em que a trama se passa é um foragido que atua na clandestinidade, onde realiza ações armadas contra o regime.

De fato, a narrativa se pauta pela obscuridade, pela imprecisão. Não há indício da organização na qual ele militaria, tampouco se consegue vislumbrar seu papel na guerrilha. Apenas mais um militante num cenário em que não consegue saber o que se passa, ou um líder importante? A cessão do luxuoso apartamento para acolher o filho – propriedade de mulher da alta sociedade (Suzana Vieira) que foi sua amante – indicaria que ele não transitaria no baixo clero da luta armada. Mas os dados são insuficientes, pois a socialite é de ambiguidade exasperante.

A obscuridade, a imprecisão, a ambiguidade dos personagens chegam ao paroxismo. Nunca Fomos Tão Felizes joga o tempo todo com ambiências temporais fugidias que escapam a certezas. Assim, não faltam referências pontuais à data em que a ação se passa. Mas ao mesmo tempo essas referências se chocam. Há oito anos o pai não via o filho: feitas as contas, com o golpe de 1964, que logo se lançou à perseguição de quem se opusesse ao regime, tudo sugeriria o ano de 1972. Essa suspeita se fortalece quando se vê pai e filho no cinema vendo Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade.

Mas, pouco antes da sessão, ambos ouvem rádio, e nele, a transmissão de uma partida entre Palmeiras e Botafogo pelo torneio Roberto Gomes Pedrosa, que contradiz a suspeita: o chamado “Robertão” realizou-se pela última vez em 1970. Desatenção do roteiro? Não, muito mais o registro de diluição temporal, uma maneira de jogar com incertezas, imprecisões. Nas cenas finais, agonizante ao lado do filho no apartamento, o pai havia sido ferido após o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, que ocorreu justamente em dezembro de 1970. Este sequestro, por sua vez, foi o último bem sucedido do ciclo durante a ditadura. Em 1972, ano de lançamento de Os Inconfidentes, a guerrilha apenas tentava sobreviver. Nesse hiato de tempo conturbado, a fase em que esta procurava causar comoção com sequestro de personalidades políticas já havia passado.

Mas, como dito acima, o filme é narrado pelo olhar do filho. Este não sabe por que foi tirado do internato, não sabe o que fazer no espaçoso apartamento de uma desconhecida, não sabe o que o pai faz, como ganha dinheiro e por que sua permanência no apartamento os coloca em perigo. Envolto numa situação absurda, quando insistentemente indaga, procurando o mínimo de informação, ouve do pai que para seu próprio bem ele não pode saber de nada.

O filho, até por curiosidade espontânea, na falta do que fazer procura respostas às indagações, procura entender o porquê da situação em que se encontra. As pistas que segue, contudo, ainda que não comprometam as atividades do pai, não lhe esclarecem nada. Solitário, angustiado, o rapaz transita de um lado para o outro sem a menor compreensão do que se passa ao seu redor.

Nesse ponto, aliás, é uma metáfora acabada do que foram os anos de ditadura no Brasil. Visto hoje, como entender que um jovem estudante praticamente não suspeitasse da vida clandestina do pai? Pois bem, de um lado, uma sutileza cuja passagem do tempo gera estranheza, mas que, em retrospectiva, diz muito sobre os “anos de chumbo” em nossa história. O filme é de 1984, vale lembrar, e Murilo Salles está ciente de que não cabe tratar de tema tão espinhoso de modo aberto. Sua opção estilística pela contenção, pelas entrelinhas, pela ambiguidade, tem a ver com o contexto em que vivia. Hoje, essas mesmas opções teriam outro significado. No confronto de conjunturas, a curiosa maneira de notar que Nunca Fomos Tão Felizes é um filme antidatado: clichês e slogans de época, tão exaustivamente usados para se reportar à ditadura, não são exibidos e tampouco teriam significado nesse trabalho.

Por outro lado, o alheamento do filho encontra explicação onde hoje reside muito de inexplicável, quando voltamos os olhos para os “anos de chumbo”. Absortos em nosso tempo, temos dificuldades para compreender como as informações transitavam. Ora, numa atmosfera carregada, num clima de medo constante, num ambiente de forte controle e de delações, as informações, as movimentações das pessoas, eram travadas ou comunicadas de forma cifrada. O rapaz que havia passado oito anos num internato não tinha a menor ideia do país em que vivia. Mas nisso também – e aqui o valor de Nunca Fomos Tão Felizes –, a expressão profunda de que quem estava fora dos acontecimentos não tinha ideia do que se passava. O povo, enfim, tinha uma pálida imagem do que era de fato a ditatura.

O momento em que esse estranhamento se evidencia com crueza é quando o rapaz, depois de tanto insistir em saber com o que o pai está metido, pergunta, desesperado: “pai, você é um terrorista?”. À pergunta, ele não encontra resposta, mas com ela o sentido extremo do absurdo em que se encontra. A sorte lhe reservou um fogo cruzado do qual, com a morte do pai, lhe resta em sua fotografia e na incompreensão. Por quê?

Nunca Fomos Tão Felizes é uma obra marcante sobre os “anos de chumbo” concebida nos estertores da ditadura. Premiada em Gramado e em Brasília, seguiu carreira internacional, onde foi bem acolhida com premiação em Locarno. Passados os anos, à medida que nos afastamos da ditadura, vele revê-la. Murilo Salles legou uma obra que não exauriu as possiblidades de discutirmos aquela época por um prisma que, hoje, teria sentido diferente. Ora, nele, o subliminar tem sentido se adentrarmos no chamado “espírito de época”. Para o cinema, e a arte em geral, não é pouco.





Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).