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Os verdadeiros infiltrados: em defesa de Michael Mann













Marcelo Miranda

Venho acompanhando, como sempre, as indicações e distribuição de prêmios da indústria norte-americana de cinema – é Globo de Ouro aqui, sindicatos de atores e diretores ali, associações e grupos acolá, todos dando palpites sobre os melhores filmes do ano – os melhores feitos nos EUA, vale registrar.

(Existe sempre aquela categoria sem-vergonha do “filme estrangeiro”, que diplomaticamente elege um título de fora do país para definir como “o melhor”. Estranho e meio picareta foi ver o Globo de Ouro deste ano indicar, entre cinco finalistas, dois filmes de produção americana – “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood, e “Apocalypto”, de Mel Gibson – unicamente por não terem diálogos em inglês. Mas divago...).

O título mais em alta na temporada de premiações, sem maiores dúvidas, vem sendo mesmo “Os Infiltrados”, novo trabalho do mestre Martin Scorsese. Marca seu retorno ao universo violento e traiçoeiro dos mafiosos urbanos contemporâneos, depois de mergulhos no tempo e nos épicos que foram “Gangues de Nova York” e “O Aviador”. O filme é realmente muito do que se tem dito, trabalho de um artesão dos mais competentes em atividade e merecedor de absoluto respeito. Porém, o que este humilde colunista/crítico não consegue compreender é porque todas essas listas de prêmios vêm ignorando aquele que certamente é o grande filme feito nos EUA em 2006: “Miami Vice”, de Michael Mann. É aqui que estão, de fato, os verdadeiros infiltrados.

Para começar, infiltrados no sentido “scorsesiano” do termo: assim como no longa de Scorsese, em “Miami Vice” há policiais inseridos no mundo do crime com o intuito de informar a seus superiores das artimanhas que estão sendo tramadas – e o limite entre a fidelidade a um ou outro lado é muito tênue. E há outro tipo de “infiltração” no filme, que é a do próprio diretor Michael Mann. Junto a David Cronenberg, M. Night Shyamalan, Clint Eastwood e o próprio Martin Scorsese, Mann se tornou um dos maiores contrabandistas de idéias e formas de se fazer cinema no cenário americano. Só que, diferente dos demais citados, que guardam, cada um à sua forma, jeitos de lidar com esse contrabando voltados mais a um certo classicismo, Mann aposta em escolhas radicais de construção de imagem e narrativa para atingir seus objetivos. Neste sentido, ele se firma como um autêntico autor dentro de uma indústria que prioriza o pouco pensar e a baixa inteligência – e se firma mergulhando na alma dos temas e abordagens que escolhe seguir.

Vem sendo assim desde o início da carreira. Michael Mann começou escrevendo para seriados de televisão, depois estreando como diretor de longas também na tela pequena. Data de 1981 o primeiro trabalho para cinema – “Ruas de Violência”, iniciando um estilo a ser depurado com o passar dos anos e que atingiria o ápice com “Miami Vice”. No meio do caminho, vieram novos trabalhos de TV (inclusive a criação do seriado homônimo ao filme de 2006) e de cinema, entre eles “Caçador de Assassinos” (primeira versão de “Dragão Vermelho”, lançado em 1986), o popularíssimo “O Último dos Moicanos” (1992) e a impressionante série de grandes e reconhecidos projetos, que foram “Fogo contra Fogo” (1995), “O Informante” (1999), “Ali” (2001), “Colateral” (2004) e, finalmente, “Miami Vice”. Em todos, sem exceção, Mann deixou marcas indeléveis de um verdadeiro artista, de um diretor firmemente convicto das próprias crenças e que se dispõe a ir o mais fundo possível naquilo ao que se propõe.

Fiquemos, sem grandes floreios, no supracitado “Miami Vice”. É, a princípio, um filme policial sobre dois agentes em investigação contra o tráfico de drogas. Porém, Mann transforma o banal em sublime. Pega a dupla protagonista e a coloca num emaranhado de dramas pessoais e profissionais que, por si só, resultariam num potencial bom trabalho. Somado a isso, Mann trabalha com o tempo e a imagem com habilidade ímpar. Naquele visual proporcionado pela câmera digital (Mann é talvez o melhor utilizador desse recurso como forma de linguagem), elipses na narrativa vão e vêm. Não existe uma cronologia exata das coisas. O filme é narrado em ordem clássica (começo-meio-fim), mas dentro dessa ordem não existe ordem. Vale tudo para atingir o efeito dramático.

O grande montador Walter Murch já escreveu, no obrigatório “Num Piscar de Olhos”, que a maior prioridade da montagem fílmica deve ser a emoção – e não necessariamente a lógica, a continuidade ou o ritmo. Murch sabe o que diz. Montou, entre outros, obras-primas como “O Poderoso Chefão 2” e “Apocalypse Now”. Escreve ele: “O que você quer que o público sinta? Se ele sente exatamente o que você queria durante todo o filme, você fez o máximo que poderia fazer. O que será lembrado não será a edição, a câmera, as atuações ou mesmo o enredo, mas como o público sentiu tudo isso (...) Se tiver que abrir mão de alguma coisa, nunca abra mão da emoção em benefício do enredo”.

É justamente isso que Michael Mann faz na sua obra. Especialmente em “Miami Vice”, auxiliado pelo estupendo trabalho da dupla de montadores William Goldenberg e Paul Rubell. Ele preza a emoção, o impacto do que está sendo contado, acima daquilo que é contado. Porque contar, qualquer um pode. Contar bem é para poucos. O cinema de Michael Mann, grosso modo, torna-se arte na capacidade do diretor em nos narrar de um jeito incrivelmente original e particular histórias que não são nem trarão novidade alguma. É um detetive atrás de um psicopata (“Caçador de Assassinos”), é o agente experiente da polícia num jogo de gato e rato com o “expert” em assalto a banco (“Fogo contra Fogo”), é o homem amargurado perante o grande poder das multinacionais (“O Informante”), é a vida cheia de altos e baixos de um grande esportista (“Ali”), ou então o mercenário e seu refém num “thriller” de suspense e perseguição na noite (“Colateral”).

Mann consegue, nestes temas todos (e tão batidos), extrair sensibilidade e singeleza, por mais violentos os universos retratados. Poucas vezes no cinema o embate entre dois homens peritos no que fazem teve tamanha força como no conflito entre Al Pacino e Robert DeNiro em “Fogo contra Fogo”, para muitos a obra-prima de Mann. Ali está a quintessência moral e temática de seus filmes: o choque nunca pacífico entre um personagem solitário contra forças iguais ou acima de sua capacidade de enfrentamento e entendimento, resultando numa quase metamorfose desse mesmo personagem naquilo que ele precisa combater. Isso existe em todos os filmes, e a partir disso Mann vai montar o espetáculo que é seu cinema – não no sentido espetaculoso do termo, mas sim na acepção do prazer estético, da fruição, do gosto pelo que se vê projetado na tela.

Longe de mim querer desvalorizar “Os Infiltrados”. Gosto do filme. Há quem deteste com ódio mortal, caso do crítico do “Estadão” Luiz Carlos Merten. Não é meu caso. Sou defensor, inclusive, dos dois filmes anteriores do diretor. Muitos não gostaram dos projetos épico-intimistas recentes de Scorsese, dizendo que ele se afastou de suas obsessões como cineasta. Um pouco de injustiça e incompreensão, porque “Gangues de Nova York” e “O Aviador” não são tão diferentes de outros trabalhos maravilhosos seus, como “Taxi Driver” e “Touro Indomável”. São, sim, igualmente calcados no transe de personagens tão grandes quanto o mundo que habitam, mas tão pequenos e mesquinhos quanto os sentimentos que os aprisionam neste mesmo mundo. “Os Infiltrados” é isso tudo também, e talvez ainda mais. No fundo, Scorsese está sempre falando de uma América criada, desenvolvida e mantida sob atos violentos.

Porém, como projeto e ideológico e estético, como construção, criação e desenvolvimento de linguagem, como mergulho visual e narrativo num universo ao qual não temos muita certeza de onde estar pisando, “Miami Vice” me parece um tipo de cinema bem mais desenvolvido e essencial do que “Os Infiltrados”. Michael Mann já demonstrou influências fortes de outros diretores, inclusive de Scorsese. Mas há tempos ele deixou de ser discípulo para se tornar mestre. Só os participantes de sindicatos, associações, grupos e não-sei-mais-quem que julgam “os melhores do ano” ainda parecem não ter atentado para isso. Tudo bem. É característica do bom contrabandista passar despercebido por quem deveria estar de olho nele.



Marcelo Miranda é éditor do Cinequanon e crítico do jornal O Tempo (MG), escreve também para os sites www.digestivocultural.com.br e www.canalcinefilia.com.br.