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Pai e Filho, filme de Alexander Sokurov









Maiara Gouveia

Alguns artistas são especialmente imunes àquele tipo comum de análise em que se comenta, com maior ou menor sucesso, mera descrição de acontecimentos. Quando temos, por exemplo, um cineasta que enxerga o mundo como artista plástico e reconstrói imagens como poeta, haverá dificuldade adicional em encaixar sua obra na forma de crítica acanhada que freqüentemente encontramos: Alexander Sokurov é um desses para quem a forma importa mais do que a intriga e para quem a trama serve como pretexto.

Em Pai e Filho há uma exigência maior do espectador do que uma inteligência mediana e uma sensibilidade apenas razoável, será preciso boa dose de entrega e atenção, além de uma capacidade de absorver sutilezas. As cenas surgem como telas, verdadeiras pinturas de cores opacas, belas proporções, interessantes enquadramentos. O texto, muitas vezes, parece poesia: as frases são ditas em um ritmo quase sempre moroso, seguindo uma cadência, acompanhando a intensidade das imagens. Algumas falas são frisadas pela repetição das palavras finais e as personagens proferem sentenças carregadas sentido e musicalidade. Ao redor dos diálogos parece haver um ruído distante intermitente: barulhos, vozes mescladas, sons soprados... talvez proveniente de um mundo de sonhos, talvez do passado, mas não sabemos ao certo. Os tons de sépia parecem envelhecer os quadros, riscar os traços da relação forte entre pai e filho com cores castanhas (levemente amareladas). Por vezes, sentimos estar fora do tempo (ou em uma encruzilhada de tempos) e há certa melancolia, reforçada pela trilha sonora composta, essencialmente, por temas retirados de Tchaikovsky. De qualquer modo, não estamos apenas em contato com a relação entre um reservista do exército doente e seu filho aspirante à carreira militar, mas estamos dentro da relação entre pai e filho.

É interessante como todas as personagens alheias ao envolvimento de ambos parecem intrusas, deslocadas ou estrangeiras. A namorada, quando rompe o relacionamento com o adolescente por não conseguir aceitar a dependência estabelecida entre ele e a figura paterna, o faz por meio de uma janela apenas entreaberta e gradeada, separando seu ambiente (o mundo) do ambiente interno em que está o menino (nesse caso, a academia militar). Eles nunca estão próximos de fato, e há um obstáculo permanente. Ela chega a afirmar que pai e filho construíram uma fortaleza onde ninguém mais pode entrar.

“O amor de um pai crucifica, e um filho amoroso deixa ser crucificado”, diz Aleksei em dois momentos do filme. Ele repete a frase como quem tenta compreender o enigma.

Aliás, enigma não falta nesse filme poético do excelente cineasta russo: Pai e Filho nos oferece o fabuloso universo de floresta e penumbra. Fomos capturados pela diversa combinação de extremos que compõe os elos da natureza: há formas de troncos de árvore e dorsos masculinos, o gemido de angústia semelhante ao do gozo, muitas insinuações e ambigüidades. Ao despirmos a noite com sonhos que não fugirão do controle se pudermos falar com as águas, as fronteiras, capazes de separar o homem de seus descendentes, são frágeis como a linha divisória entre morte e sonho, entre sonho e vida. E prosseguimos, embebidos de estranhamento e lirismo; dentro de nossos medos e fragilidades, embotados daquilo que não podemos tocar com o raciocínio. Ficamos, enfim, como Tchaikovsky ao piano: “alegres enquanto tristes”.

Existem mesmo lugares onde somente podemos estar sozinhos e além de nosso ser não há respostas.


Maiara Gouveia é poeta. Contatos: maiaragouveia@gmail.com e http://maiaragouveia.blog.uol.com.br