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"O Arco": um breve comentário









Maiara Gouveia

Alguns viram na extrema poesia e beleza de O Arco, um demérito. A Folha de S. Paulo afirma: perde a força por excesso de poesia e o Jornal do Brasil considerou o trabalho dotado de beleza sem conteúdo. Sim, a maior parte das críticas ao trabalho do coreano Kim Ki-duk irá girar em torno disto: um lirismo transbordante, etc. E não poderemos discordar delas, embora tudo o que digam, não necessariamente consiga os resultados pretendidos, ou seja, deixar entrever no êxtase e na sensação de suspensão que o filme nos deixa, algo ruim. De fato, não é o tipo de trabalho que nos fará sair da sala de cinema com um peso de toneladas ou uma dúzia e meia de aporias e outra de reflexões, basicamente, intelectuais. Não, a base das reflexões é de outra ordem, e, mais do que reflexões, nos sobra encantamento (nos diversos sentidos que podemos extrair da palavra).

O mar, que parece ser o ponto de encontro entre diversos tempos e mundos, é o lugar em que está o barco onde convivem um senhor sexagenário e uma adolescente. O velho encontra a menina aos seis anos e a toma para si com o propósito de desposá-la tão logo ela complete dezessete anos, eis o pretexto para o desenrolar da trama. A relação entre ambos adquire, desse modo, um contorno incestuoso que acentua o caráter simbólico do amor entre as personagens. Essa ligação entre a juventude e a senilidade é silenciosa e profunda, estabelecida em um plano atemporal, ininterrupto, que o verbo não alcança.

Podemos enxergar a iminente ruptura da harmonia inerente ao mundo estabelecido (o barco no meio do oceano) em relação ao mundo possível (o que vem de além do horizonte). Os homens que chegam do outro mundo, aquele ao qual a menina não tem acesso, trazem um breve desequilíbrio, como espasmos na eternidade. Não obstante a presença de um outro jovem, portador do desconhecido, ser o motivo do rompimento entre as personagens centrais o mundo posto, o elo fundamental permanece.

Separação, união... o balanço dos opostos como um pêndulo. E o balanço em que a jovem se senta, depois de amarrar fitas no pulso, esperando que o idoso arqueiro dispare as flechas em direção aos diversos pontos da imagem do Buda, delineando, assim, o futuro dos passageiros que vêm do continente.

Depois, ler o futuro do hóspede indesejado será ler o futuro de todos os envolvidos, e qualquer resposta, nessa altura dos fatos, não poderá ser totalmente satisfatória. Não ouvimos o destino, porque este é sussurrado no ouvido de quem o deseja saber, mas desconfiamos que o desfecho dará sentido a todo percurso, porque costumamos pensar assim: é lógico. Então, o velho, aparentemente, permite que a menina se vá, no entanto, ela não parte, quando nota que pode perdê-lo. Desse modo, o casamento antecipado pelos ardis do ancião se realiza, e a cena de amor, uma das mais belas entre todas, confirma a dimensão mais ampla da relação entre as personagens.

Para extrair a música do arco é preciso que a corda esteja tensa, para que uma flecha atinja o alvo é preciso fazer com que a corda relaxe abruptamente, mas seja para atingir ou para tocar, inúmeras possibilidades fluem do mesmo instrumento: o arco, eixo central do belíssimo e excessivamente poético filme de Kim Ki-duk.


Maiara Gouveia é poeta. Contatos: maiaragouveia@gmail.com e http://maiaragouveia.blog.uol.com.br