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ESPECIAL: SOBRE SETE ONDAS VERDES ESPUMANTES














Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, de Bruno Polidoro, Cacá Nazario. Brasil (POA).

Por Cid Nader (filme visto em Bagé/2013)

Daria pra dizer sem sombra de erros que o gaúcho de Santiago (não a capital do Chile, mas um pequeno município no centro-oeste do RS, bem distante da capital, Porto Alegre, e conhecido por a “terra dos Poetas”), Caio Fernando Abreu, jornalista e escritor, é a figura mais querida, venerada, citada, por poetas, cineastas, pessoas do teatro e sonhadores, vinda do nosso estado mais ao sul, nessa nossa contemporaneidade. Quando se viaja pelo país um bocado e se entra em rodas de conversas com pessoas apaixonadas pelas letras, pelos ditos que se façam por frases e textos de elaboração direta e sem muitas metáforas (dos que falam de paixão, amor, desespero e encantamento, com o mesmo vigor literário), Caio F. lubrifica olhos, desperta sorrisos melancólicos, acende o tempo, e é citado como se fosse o vizinho querido que tem dons que os nossos mais próximos não têm.

Em tempos um tanto anteriores pensava ser “mais um produto” de orgulho típico dos – e para os - rio-grandenses, basicamente. Quando da necessidade de conhecer mais, saber mais, entender as razões de começar notá-lo cultuado nacionalmente, notá-lo extremamente porto-alegrense, mas notar, também, que essa Porto Alegre que lhe nutria ensejos de alguém que a adotara era mais uma daquelas das urbes, das instâncias físicas (das ruas, dos edifícios, das pontes...) operando fortemente sobre as sensações de um ser: podia ser, e foi, São Paulo, Paris, Amsterdã, Rio - habitada por figuras que são muito mais comuns sob as sombras dos concretos, e que eram as que o atraiam. E ao notar dela (Porto Alegre) e delas, entender que o que escrevia falava fortemente aos que lhe eram semelhantes, nas ansiedades, nos desejos, nas quebras e no querer nutrições das mais diversas. E ao notar, já com mais base, perceber que o que escrevia seria tão fortemente arrebatador em qualquer um dos lugares urbanos do mundo, não fosse a barreira sempre complexa do idioma.

Mas os diretores do documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes - título retirado diretamente da obra dele e que, quando de sua vez no filme, imprime, ou melhor, fecha, complementações de estruturas quase físicas (dá sentido, espelha o lido por imagens, amarra todos os campos narrativos usados pelo tempo todo) -, ao notarem a potência do que dizia e o quanto falava aos mais diversos tipos de seres, entenderam de modo surpreendentemente raro que o que ele escreveu, o que ele disse em algumas gravações filmadas, por si só cumpriria a função de um amontoado outro de possibilidades normalmente usadas para elucidar/apresentar quem é documentado. Ao invés de fundarem as bases do filme sobre depoimentos e entrevistas (sim, os há, mas muito poucos), ou sobre documentos palpáveis (sim, há as imagens, mas poucas, e casando de forma concreta com a utilização espetacular das imagens que são tentadas por todo o tempo), entregaram suas palavras, seus textos para os seus fãs/amigos lê-los (artistas das mais diversas origens, principalmente), espertamente atentos de que tudo o que ele fizera nas letras contaria muito mais dele do que qualquer outra atitude de busca, estudos e edições espertas conseguiriam.

Na realidade, Bruno Polidoro e Caca Nazário como que “inventaram” um modo de fazer documentário, onde, diante da extensão do que tinham à mão (que são as palavras e ideias de um homem – por si só documentos suficientes –, vivas e à disposição para quem necessite desvendá-lo), contiveram-se diante das situações possíveis e facilitadoras de cartilha que existem, e do canto de sereias das ostentações por exibicionismo técnicos (como a execução de elipses mais cheias de fru-frus, ou a chance de ficcionalização, por exemplo). E como não aproveitar quando o próprio documentado pode se contar por si só e deixar com que os fizeram um fenômeno de admiração completassem um outro quinhão das informações, cumprindo a missão (talvez a mais ansiada por todos que admiram Caio F.) de lê-lo e algo falar dele? Num jogo de elaboração que transita pelos tempos concretos e pelas sensações que geraram os textos, a obtenção pelo ajuntamento ordenado quase de forma linear – poder-se-ia dizer, pois se vai nos rastros deixados pelos textos, que contam de seus momentos e de seus deslocamentos (aliás, pelo visto, uma necessidade diante de suas inquietudes e buscas: um não querer estabelecer-se para sempre num mesmo sítio) – criou fluxo, permitiu fluidez plácida (mesmo que por muitos instantes a violenta paixão carnal fosse a narrada em tela).

De modo lúcido, para fazer justiça aos climas de reconhecimento e ostentações de modos por via oral, Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes se ampara esteticamente no poder das imagens que busca, pois se é trabalho de fluxo informativo narrado por vozes e textos pregados aleatoriamente vez por outra, jamais abandona “somente” a toda esse poder das palavras do diretor seu destino: e aí é impressa por imagens a sensação do deslocamento na ideia dos fios (luz, telefone, esses todos que nos acompanham pela vida) suspensos, sob o céu, sempre ditando a sensação de caminhada, como uma guia para que as buscas não sejam cessadas; e entope-se a tela com elementos urbanos “animando” os trechos, como que complementação do dito, mas com arranjos de obtenção imagética quase sempre de capturação muito bela, quase sempre raro no que é filmado (o que cumpre a função primordial de um filme de cinema, afinal, que é a do trabalho sobre o que veremos, o trabalho com as imagens, basicamente), mesmo por vezes passando a impressão de que o tom de embriagues restado por diversas das coisas lidas tome de assalto as lentes (em alguns momentos elas vagueiam soltas, parecendo não ter alvos definidos, fins pensados, o que, no fundo, parece bastante justo ao contexto literário). Se foi deixado a cargo do próprio escritor se contar, em nenhum instante fica a sensação de abandono ou desleixo no que é visto (sendo que alguns trechos de imagens dele próprio acabam por embrenhar-se de modo muito pouco invasor com o que foi filmado).

P.S.: se o filme impressiona, imagino o quanto não mais ainda no momento de uma projeção minimamente decente, já que as daqui de Bagé não primam por serem as ideais.


SERVIÇO:
Matilha Cultural:
Rua Rêgo Freitas, 542 (São Paulo/SP)



Sobre sete ondas verdes espumantes from Besouro Filmes on Vimeo.