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ERA UMA VEZ EM TÓQUIO
























ERA UMA VEZ EM TÓQUIO

Por Cid Nader

Existem obras e autores que a partir de um dado momento não merecem mais ser atropelados por análises humanas que se pretendam críticas ou analíticas. São ícones (e alguns criadores) que estão para a história humana como os mais arraigados momentos da formação genética se instalando para nos fazerem espécie diferenciada para além dos dados da subsistência e da intuição. Uma das coisas belas – sim, e as há em grande quantidade – da evolução humana foi o fato de termos intrometido na nossa formação a beleza criada, a admiração, a elaboração. Isso, pelos tempos, tomou seus espaços nos encadeamentos genéticos, a ponto de se poder ter certeza de que um naif isolado de uma ilha da Oceania sentirá alguma vibração estranha diante da figura da Monalisa, ou de uma peça musical de Mozart. O ser humano criou, por esses tempos, figuras e obras que já foram extremante analisadas, e que só imagino refaladas a partir de viés emotivo, de sensações, com a coragem de ter certeza de que nada de novo que disser será de importância.

O amor por uma obra, por um ídolo, ainda perfaz caminho percorrido pelas nossas entranhas mais ancestrais, a ponto de ainda podermos pensar nessa admiração como algo que aquece o coração, um órgão, e não as sensações, sinapses. E isso pode ser visto como mais um elemento que leva à negação da avaliação, após tal amor estar definitivamente instalado por nossas “correntes”, do tipo que forem. O amor exacerbado por obras, criadores e até deuses, sempre me fez pensar num setor de admiração como coisas do coração (e olhe o órgão palpável aí novamente, mas na sua faceta de DNA impalpável). Saber que reestreia, no belo Cinesesc, em cópia restaurada digitalmente em DCP, um dos mais belos filmes da história, Era Uma Vez em Tóquio, dirigido por alguém que muitos (como eu) consideram mais do que gênio, um deus, que foi Yasujiro Ozu, incita a escrever obrigatoriamente algo sobre, porque é ocasião em que o mais desavisado sentirá aquela mínima vibração estanha, que seja: tanto quanto me reafirma que tentar bestamente um texto crítico seria desonroso, desrespeitoso – tanto já foi escrito para decifrá-lo. E se há o incitamento ao texto, faço novamente de poucas palavras explanação de sensações, de entrega. Abaixo, resgato um texto meu solto pela vida, engordado por mais algumas impressões.

Desde muito criancinha, no apartamento de meus melhores amigos de infância detalhes e enfeites japoneses atraiam minha atenção por beleza delicada e totalmente atípica ao que era de meu lar. Dona Edna não é japonesa, mas mais jovem que minha mãe parecia mais voltada ao que seria moda nos meados dos 1960. Para mais, numa quitandinha ao lado de minha casa seu Mário e dona Rosa – dois “velhinhos” – atendiam sempre com sorrisos e contenção, criando mais sensações de estranhamento e atração, por uma cultura que era tão diversa no visual, mas presente nas figuras deles, ou na figura icônica do fotógrafo japonês lá do bairro do Tatuapé. Tanto quanto nos passeios à vizinha Vila Carrão parecendo ida instantânea a um Japão totalmente rural: naqueles momentos era fácil notar por lá os okinauanos (a Vila Carrão era reduto dos de Okinawa, rejeitados pela maioria do restante do Japão) passando com carrinhos de verduras colhidas nas ainda existentes chácaras das cercanias. Reconhecer aquele Japão (das figuras de enfeites, dos velhinhos tímidos, ou dos “camponeses”) no seriado National Kid era impossível: o super-herói já era um produto da ocidentalização, se bem que combatendo inimigos que só poderiam brotar do pensamento nipônico.

Passa a vida, conheço mais as coisas de lá, conheço os diretores mais afeitos ao que era moda nos 70 e 80 (mais especificamente Kurosawa), que traziam para a telona um Japão feudal, estilizado ao extremo, que também nada tinha da sensação visual e sensorial da infância – havia visto por esses tempos antigos aos Sete Samurais por algumas vezes na TV, também. Aos poucos, outros diretores sendo reconhecidos, muitas outras imersões nas coisas nipônicas avolumando, até que...

Os momentos finais de Era Uma Vez em Tóquio – de tristeza pungente – resumem demais as intenções de Yasujiro Ozu, que a partir de um dado momento de sua carreira resolveu que seu cinema “serviria” para discutir o desmantelamento das tradições de um país que por uma eternidade esteve fechado em si, enquanto a ocidentalização impingida (principalmente a partir da derrota japo0nesa na Segunda Grande Guerra) pelo modelo EUA avançava para além dos vestuários, costumes novos, alimentos... Acabara de ver o filme – que se tornou um dos meus filmes do coração já naquele instante, para com o tempo talvez alçar à posição “do” filme do coração - pela primeira vez numa retrospectiva incrível do mestre acontecida na sala da Cinemateca (que era no lúdico bairro de Pinheiros), lá pelo início dos 90 (creio). E lembro até nesse instante do agora a sensação de elevação e tristeza que senti: aliás, aquela Cinemateca de Pinheiros foi tremendamente responsável por iniciação cinefílica importante – tanto para mim quanto, com certeza, para diversos amigos...

A partir de então, para além de ter suas imagens marcadas como das mais lindas e importantes, passei a acreditar que o cinema tinha um Deus, e que na Terra se chamava Ozu. Melhor: passei mesmo a designá-lo obrigatoriamente como Deus por conta de um grande amigo (bom na arte e na sua avaliação, mas muito afeito a categorizar, enumerar em posições e tal, além de ser teimoso demais em suas convicções), que a cada conversa em que me ouvia elogiando Yasujiro vinha rapidamente, como que ofendido nos brios, com o nome do maravilhoso Kenji Mizoguchi “sendo o do maior e inquestionável diretor nipônico”. Portanto, passei a adotar: Mizoguchi é o maior, ok, mas Ozu é Deus.

No filme, se fala da história de um casal de idosos (Shukishi e Tomi Hirayama, por Chieko Higashiyama e Chishû Ryûque) que vai de sua vila a Tóquio, para uma visita aos filhos, após longa ausência. Os filhos, imbuídos das velocidades que os novos tempos exigiam, não dedicam a atenção que a tradição japonesa ditava – somente uma nora (Noriko, por Setsuko Hara), viúva de um filho deles morto justamente na Guerra (!!!) lhes empresta o carinho justo. Toda as questões se darão em torno de uma das facetas mais ancestrais que vige em cima do respeito e dever aos idosos: e enquanto filhos aos poucos negam tudo que deveriam por tradição ceder a eles, na figura da nora um tanto dessas tradições de respeito se mantém. O bacana demais é que Ozu intromete essa novidade nos modos e comportamentos, mas sem a contrapartida da lamentação ou ranzinzice, que se notaria em países ocidentais, fazendo do belo casal de idosos exemplo de compreensão ante o suceder das coisas: uma das belezas do filme está nessa aceitação nipônica diante do que parece o imponderável, do destino de uma terra que sempre sofreu (por cataclismos, por guerras imperiais/feudais...) reviravoltas.

Enquanto essas relações jogadas na tela da Cinemateca ganhavam todos e quaisquer recantos do organismo, com impressões imagéticas estabelecendo o patamar de sensação inigualável (pois, para além da fineza de um diretor já veterano que sabia demais sobre seu ofício e a partir daí como transformar o que desejava explanar em narrativas ao/pelo olhar, havia também o preenchimento do que imaginava como a representação do Japão, por pontuações que se estabeleceram em minha infância), quase que numa contramão, Era Uma Vez em Tóquio se fazia despojado da possibilidade de parecer uma obra grandiosa e portentos, para exemplificar a máxima da contenção nos atos contribuindo para a excelência do contado: e daí a um filme sem nenhuma apara ou desperdício, o passo mais simples, que somente conseguiria ser dado por conta da compreensão das complexidades, que é inerente aos grandes na arte.

Sair da Cinemateca estupefato e emocionado era o mínimo: pelas imagens, pelo tom de tristeza, pelo jeito conformado do casal, pela abnegação sincera da nora, por um Japão em plena transição que não imaginava se sobreviveria - ainda mais porque estava sendo visto numa sequência de outros trabalhos dele que já o haviam traçado por diversas características, como realizador, em minhas sensações de cinéfilo interessado. Revê-lo por muitas vezes pelo decorrer dos anos (sem exagero diria que o vi lá pras bandas das 20 vezes), como um estreitamento religioso, como um acostumar de casal que se conhece e amadurece junto: justo, necessário, benesse para a alma. Percebê-lo como diretor, que não foi moleza não com seus atores – dizem que até meio tirânico (Deus tem essa pegada meio tirânica, afinal) na busca da perfeição, o que se notava em todos os seus quadros e na maneira exata obtida das atuações -; sacar que a invenção do tal plano tatame (imagens filmadas em diversos trabalhos, como se fossem a partir do ponto de vista de quem observa as situações sentado sobre um tatame) servia para fazer entender que sua ideia visual das coisas era amparada nas memórias nascidas na infância (modo forte de tradição ancestral mantida tecnicamente)... Ozu era Deus.

E Tôkyo Monogatari - com seus momentos, com o olhar doce dela, com os chinelinhos dispostos paralelamente num hotel no meio das viagens, com o choro da nora, o olhar conformado e risonho dele... na música, os aluninhos paramentados com bonés, as chaminés, os planos fixos decupando Tóquio, tudo resumido no final mais singelo da história do cinema (com direito ao apito do trem que tanto seduziu autores ocidentais) -, o mais delicioso dos néctares.





Título Original: Tôkyô Monogatari.

Direção: Yasujiro Ozu.
Fotografia: Yûharu Atsuta.
Edição: Yoshiyasu Hamamura.
Roteiro: Kôgo Noda e Yasujiro Ozu.
Produção: Takeshi Yamamoto.
Música: Takanobu Saito.

Elenco: Chieko Higashiyama, Chishû Ryû, Eijirô Tôno, Haruko Sugimura, Hisao Toake, Kuniko Miyake, Kyôko Kagawa, Mutsuko Sakura, Nobuo Nakamura, Setsuko Hara, Shirô Osaka, Sô Yamamura, Teruko Nagaoka, Toyo Takahashi.

Origem: Japão, 1953.