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Viva a Boca do Lixo - O Último Cão de Guerra


















Viva a Boca do Lixo


O Último Cão de Guerra                                   (publicado: 02/2014)


Por Gabriel Carneiro

Para os que esperam do cinema roteiros bem amarrados, atuações inesquecíveis, grandes sacadas e inovações estilísticas, os filmes de Tony Vieira talvez não sejam a melhor opção. Artista autodidata, que começou como servente na Companhia de Cimento Itaú, nos anos 1960, chamando a atenção nos shows de calouro, Tony - nascido Mauri de Queiroz – logo foi convidado pra atuar na TV, em novelas. O cinema veio logo depois, fazendo participações espirituosas em filmes como Panca de Valente (1968), de Luís Sérgio Person. Não demoraria a estrear na direção e produção, e se fundar como um dos poucos astros no star system da Boca do Lixo, ao lado de David Cardoso. Vieira era ícone do anti-herói inescrupuloso que trabalhava para o bem, especialmente em filmes de ação, policiais e faroestes, que deram muita bilheteria.

Tony fazia filmes mirando um público-alvo, aqueles assíduos frequentadores dos filmes da Boca do Lixo, sedentos por ação e mulheres nuas. Nos seus filmes, não faltava nada disso. O Último Cão de Guerra é um desses filmes inacreditáveis, do plot aos diálogos, da encenação às caracterizações. Tudo parece tão absurdo, que facilmente poderia ser engendrado como o mais puro trash – segundo os padrões de qualidade ditados pela intelligentsia cinematográfica. O que poucos parecem apreender é a autenticidade de um filme como O Último Cão de Guerra, que vai direto ao ponto quanto ao que lhe interessa: divertir e entreter, com uma história mirabolante, repleta de ação e nudez. Todo o resto seria apenas verniz – coisa, dentro dos padrões orçamentários da Boca, completamente dispensável.

Em O Último Cão de Guerra, um sobrevivente general nazista agrega um bocado de gente sob sua ideologia na América Latina e põe em prática seus experimentos numa área rural. Pretende dominar o mundo, mas não tem estrutura. Sequestra um bocado de lindas garotas locais que devem parir filhos de uma raça superior. As que não servirem a esse propósito devem ser postas a uma série de atrocidades, para medir quanto tempo uma pessoa aguenta a dor. Os pais dessas garotas contratam então uma dupla de mercenários, Jô (Tony Vieira) e Gato (Heitor Gaiotti, seu parceiro habitual e alívio cômico), para acabar com os nazistas.

Vieira mistura em seu filme gêneros muito populares à época, para além da ação, como o nazisploitation (filmes que exploravam os nazistas como mote para atrocidades sádicas e sexuais), o WIP (women in prison, filmes com mulheres aprisionadas) e a ficção científica. De cada, Vieira busca apenas o essencial para trabalhar sua linha narrativa. Pouca importa se a ideia de mercenários contratados por lavradores para combater nazistas na América Latina pareça absurda. Talvez seja esse justamente o elemento que tanto lhe interessasse, essa anarquia narrativa – com direito a cenas antológicas, que fogem completamente de uma estética realista e mesmo paródica, como quando Jô aporta de seu helicóptero no meio do mato perguntando onde é a revolução.

Dentro desse absurdo todo que é o filme, que desafia as mais simples lógicas, para surpreender sempre o espectador com reviravoltas objetivas – não lhe interessa o suspense da reviravolta, apenas seu desenrolar na história -, Tony Vieira demonstra ao menos uma importantíssima qualidade como diretor, já que composição de quadro ou direção de atores pouco lhe importavam: o domínio do ritmo. Ele sabe como poucos na Boca dar o tempo exato para cada cena ou ação, sem tornar-se enfadonha pela lentidão ou pelo excesso, equilibrando embates físicos, nudez, conversas etc.

Vieira não gostava de dirigir, seu barato estava em estrelar os filmes e produzi-los, ganhar dinheiro com uma arte de que tanto gostava. Enquanto diretor, então, buscava aquilo que sabia fazer diferença aos seus filmes de gêneros, que era conduzir o espectador. O humor escancarado e deslavado de Gaiotti, a beleza de suas musas - nesse caso, Cristina Kristner e Arlete Moreira -, a bravura despojada de Vieira em papéis que confirmavam sua masculinidade: tipos que apenas reforçavam a narrativa do extraordinário que tanto lhe interessava, como cineasta.

Se a aposta no absurdo para trabalhar o extraordinário pode estar tão longe de uma estética naturalista/realista, em geral celebrada pela historiografia, e ao mesmo tempo do registro paródico, em que o filme é uma maneira de rir de si próprio e de suas limitações enquanto cópia, neste caso, resta apenas entender Tony Vieira como um cineasta essencialmente autêntico a tudo que acreditava enquanto cinema. A veracidade transborda em O Último Cão de Guerra.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Tony Vieira
Assistência de Direção: Rajá de Aragão
Direção de fotografia: Henrique Borges
Edição: Walter Vanni
Produção: Tony Vieira
Direção de produção: Nabor Rodrigues
Assistente de produção: Osvaldo Moreira
Desenho de Produção: Altair de Oliveira
Roteiro: Mauri de Oliveira Queiróz, Rajá de Aragão
Argumento: Mauri de Oliveira Queiróz
Música Original: auri de Oliveira Queiróz, Robertinho, Tony Vieira
Som: Orlando Macedo
Figurinos: Tony Vieira


Elenco: Tony Vieira, Cristina Kristner, Heitor Gaiotti, Arlete Moreira, Francisco Assis Soares, Itagiba Carneiro, Renée Casemart, Elden Ribeiro, Isa Mark, José Ohashi, Francisco Silva, Perla Elizeche, Sandra Regina, Walderez Pires, Jospe Cruz, Tuty, Durvalino de Souza, Débora Muniz, José Lopes, Arkindo de Souza, Nabor Rodrigues, Edna Del Corso, Marcos Niro, Cleusa Ramos, Waldemar Bonaccio.

Ano: 1979

Coprodução: Mauri Queiroz Produções Cinematográficas.





Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.