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Não Julgarás











Fernando Watanabe

“Crime Delicado” é um filme isolado. Temática e formalmente. Porque no que diz respeito a seu tema, ele habita uma ilha onde faz companhia ao cinema de Júlio Bressane (principalmente seus primeiros filmes) e Rogério Sganzerla, um cinema sobre cinema, sobre arte (não confundir com metalinguagem). Em volta desta ilha está o mar da recente produção da chamada Retomada e seus temas “atuais”, de urgência imediata sobre a realidade nacional, ou seja, a pobreza, violência, presídios, drogas e claro, o exemplo máximo desta leva, que é “O Invasor”, do próprio Beto Brant. E “Crime Delicado” é diferente de tudo isso, pois possui um certo grau de atemporalidade, universalidade. Pois, diferentemente de Bressane e Sganzerla, a metáfora do filme de Beto Brant não se limita a falar sobre o cinema, mas antes, à arte como um todo e, conseqüentemente, sobre a vida.

E que metáfora é esta? Vejamos rapidamente; Antônio (Marco Ricca), um crítico de teatro, homem frio e racional, se afunda numa relação de amor doentia com Inês (Lílian Taublib) mulher modelo do pintor José Campana. Antônio pode ser visto como a Crítica de Arte como um todo, José Campana como o artista criador, e Inês como a obra artística em si. Antônio condena – com a ferocidade e ignorância às vezes recorrentes no meio crítico – a submissão de Inês para com o pintor. Ela reage, e Antônio a estupra. Aí está o movimento chave do filme: o desrespeito cego, a bestialidade invasiva, a imoralidade da crítica ao julgar uma obra de arte que, enquanto tal, há de ser liberta de qualquer definição ou julgamento.

Tal resenha explicativa fez –se necessária a fim de chegarmos à forma do filme, esta sim essencial à comunicação de seu tema. Pois “Crime Delicado” utiliza-se de artifícios como o plano fixo e demorado, a fotografia estranha, a teatralização do espaço e das atuações, e mais importante, de uma economia de meios expressivos, esta sim responsável por manter o filme inabalável no tratamento de seu foco. Uma poesia da secura, delicada sem deixar de ser rigorosa ao defender sua ideologia de forma clara, na forma de alegoria. O triângulo amoroso, por exemplo, não existe. Por pouquíssimos momentos acredita-se que aquele drama seja realmente daqueles personagens, o filme trabalha exclusivamente no nível do geral, do significante. Não há vida nem autonomia para os seres, afinal, Beto Brant se propõe a fazer justamente o contrário, faz de suas peças elementos para falar algo sobre a vida, desprovendo o filme de qualquer resquício desta.

E é aí, ao comunicar sua “mensagem” que Crime Delicado cria limites para si próprio; não há espaço para ambigüidades, divagações, nem um trabalho muito grande por parte do espectador a fim de compreender o filme. A mensagem é clara, está cristalizada em forma de recado dirigido à crítica cinematográfica e a um público restrito. Como Artaud diz, “sentido dado é sentido morto”, Beto Brant sabe muito bem disso, não pretende fazer nada mais do que isto, sente-se que possui total consciência do que está fazendo e do curto alcance do filme. E é aí que está sua riqueza. Antes de ser um defeito, é a forma necessária ao seu tema. E, se fosse um defeito, qual seria o problema? Afinal, no último plano, Inês abandona sua perna postiça e vai embora. Prefere seguir imperfeita.

A exaustiva citação de Júlio Bressane tem um motivo: ele é um ótimo crítico de cinema sem escrever, prefere fazer filmes que criticam outros filmes e o cinema como um todo. E a grande novidade, que diferencia “Crime Delicado” da maior parte da recente produção nacional, se localiza justamente olhando o filme por esta perspectiva. Vejamos. Um dos principais motivos da existência da crítica cinematográfica é proporcionar um diálogo entre obra fílmica e texto crítico escrito que, por sua vez, também pode ser considerado uma obra. Porém, são raros os momentos no cinema brasileiro quando essa conversa, essa troca realmente existiu. O que Beto Brant faz – ainda que de forma intransigente e radical – é, em forma de filme, uma crítica à crítica cinematográfica/artística escrita. É a inversão das posições usualmente ocupadas por cineasta e crítica escrita, um retorno dado pelo primeiro não em cartas indignadas enviadas aos órgãos de imprensa reclamando dos críticos, não em debates acalorados após as sessões, não mais em conversas informais. Mune –se sim de imagens e sons para tal. Agora, a discussão sobre concordar ou discordar da ideologia do filme não deve ser feita aqui. Talvez em outro texto ou em bate-papos informais. É difícil, mas prefiro acreditar que Beto Brant esteja falando sobre a má crítica de cinema, aquela irresponsável e rasteira. Porque se estiver falando do ato crítico em si, generalizante, aí eu não preciso nem falar qual é a minha posição. Escrever sobre o filme já a revela.


Fernando Watanabe começou a ver filmes em Brasília, sua cidade de origem. Em São Paulo, passou a acompanhar as inúmeras retrospectivas e mostras, iniciando–se assim na cinefilia. É graduando do Curso Superior do Audiovisual da ECA-USP desde 2004, fazendo parte da Comissão de Cultura e Extensão do Dept. de Cinema, Rádio e Tv da escola.