Fonte: [+] [-]

CURTA 8 – Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba








CURTA 8 – Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba

Talvez aí, uma barricada viável em defesa da película

Por Cid Nader

Foi tremendamente linda e ressuscitadora a potência emotiva proporcionada por sessões de filmes em Super 8, num instante da história em que o cinema está caminhando celeremente para ser representado em tela de modo facilmente/limpamente visível (algo que assoma plástico imitando couro, tanto quanto a limpeza rascada do som digital), através da acumulação de bits, de cápsulas capturadas digitalmente, sem que “realidades sujas”, “realidades de texturas” que se permitam atravessadas... realidades que acompanharam o humano desde suas primeiras tentativas de representar o que via pelo que sua habilidade conseguia na hora de rememorizar e representar instantes ou histórias – e aí pode-se pensar desde os instantes rupestres aos das artes plásticas em suas variações delirantemente diversificadas, para numa simplificação de detalhamentos nesse caminho extenso cairmos no instante das coisas filmadas. Tão lindo quanto ver que as imagens podem ainda ter cheiro – (re)descobri isso em Curitiba, no Curta 8, que as imperfeições, ou o que pareceria antes algo como desfoque ou falta de luz, remetem ao livro com cheiro de livro, por exemplo, ou à pintura, que sempre e sempre deixa no ar seus resquícios –, foi constatar que ainda há alguns abnegados (muitos deles jovens que fizeram oficinas, outros com bagagem no formato – Pedro Merege, no Paraná, parece ser um exemplo quase icônico da atualidade) -, além dos que já transitam pelo cinema pelos “padrões mais comuns” e toparam a coisa de filmar na bitola) dispostos, talvez sem saber, a fazer desse exercício algo como que talvez o mais possível e à mão ato de ensaio para um erguimento de barricada em defesa do material que registra as imagens e é palpável.

Ver as projeções, com bandas sonoras representando qualidade rara nas caixas de som da sala de exibição – algo mesmo como se fosse o som mais macio do vinil -, as imagens amplas ocupando seu espaço máximo no trecho de tela que ocuparam e, principalmente, passando as sensações de vida, pelas variações na iluminação, nos modos de PB ou de cores, nas granulações, nos sutis contrastes, no que os catequizados pelo digital podem entender como falta de nitidez, afinal, remeteu a lembrar vivamente da beleza que só a película/material proporciona, e que mesmo aceitando os avanços do que é de bits (que na realidade está à busca da naturalidade antiga), sem ser um radical de carteirinha e acreditando que o mercado por razões óbvias sufoca tudo que estiver na frente em favor das novidades que podem render novos lucros (ou maneiras de lucros), topar assim, de repente com o que se fez o chão de trânsito da trajetória dessa arte (a película) desde lá no princípio de tudo assomando ao papel de importância maior de um evento, trazendo para si a função de talvez ser mais atração do que até os resultados dos filmes feitos nele, não teve preço.

Quando recebi o e-mail do Fábio Allon convidando para ser jurado nesse raro festival dedicado às produções em Super 8mm, quando estava no “Festival de Brasília do Cinema Brasileiro” (onde, por acaso, as maiores discussões técnicas estavam se dando sobre a questão da qualidade do DCP como o que há mais de fiel obtido até hoje para tentar fazer algumas justiça à película), logo após ter aceitado um outro que já me deixaria longe de casa por período mais alongado do que tenho conseguido suportar sem peso na consciência, titubeei um tanto. Matutei que havia “furado” com ele durante o “Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo”, quando ele esteve por lá com uma seleção de trabalhos na bitola: mesmo ainda assim me senti renitente. Aí fui aos escritos para olhar o que era o festival em si: e quando deparo com a promessa de sessões competitivas alternando entre as com filmes “Finalizados em Digital” e as de “Tomada Única”, algo alertou para uma oportunidade rara e única à frente. Passei e me sentir incitado pela possibilidade rara de estar um evento onde tudo que seria exibido ao som de fundo do material passando em batidas rápidas e sincronizadas pelo projetor; pela chance de ficar por três ou quatro dias vendo na tela imagens com texturas e profundidades quase perdidas nesses novos tempos; mas principalmente pelo que parecia sandice, na proposta do “Tomada Única”, que basicamente era a de jogar espectadores e realizadores numa panela de pressão máxima, pois seria a chance de todos verem pela primeira vez (e novamente cito: os próprios realizadores), “ao vivo”, os trabalhos feitos num modelo que impede a pós-produção, o corte na mesa (ou computador), qualquer adequação ou correção externa, já que seriam obras filmadas, editadas, decupadas (o que quer se pense) no gatilho da câmera: filmou, ficou.

Chegado o instante da reabilitação (ou melhor: redenção) diante da ausência do formato em minha vida pregressa, como cinéfilo, crítico ou no lar: até tive uma câmera na casa da infância, mas nunca a usei – como ninguém de minha família. Chego a Curitiba, e no primeiro dia em que o evento acontece pra valer – houve um dilúvio na cidade no que seria o primeiro dia de verdade, que impediu a sessão de abertura -, sentar na cadeira do cinema, e como não se emocionar ao ouvir aquele som típico de “um projetor de película”, como citei acima (algo que não é etéreo: algo absolutamente palpável), batendo atrás de nossas cabeças: ele (projetor), depositado no meio da sala do cinema da Caixa Cultural com o intuito valente de vencer a distância da tela, tão maior do que a de uma sala de estar, para onde parecem ter sido idealizados todos esses filmes pequenos. E como não emocionar quando nota-se que o que poderia incomodar por falta de luz, ou por PBs subexpostos, ou ainda, quando de cores, com jeito de adornadas por sutis borrões, na realidade representava ali o que pode ser a salvaguarda gentil da arte dessas imagens que teimam ir além das nossas representações ao imporem-se perninhas para também caminharem e saltar no quadro.

Havia pensado fazer um balanço do evento: algo que conseguisse suprir uma certa obsessão em escrever sobre tudo que vejo em festivais, mas que cerceei em Curitiba por estar na “função jurado”, não na de crítico e jornalista, como sempre. Passados uns dias, o que me fica de maneira bem marcante – a ponto de fazer pensar análises mais rigorosas como descabidas diante do impacto de experiência novidadeira – foi a experiência, com certeza reveladora, mais ainda alentadora quanto ao futuro do material. Nas conversas que tive com o Allon, com o Leandro Bossy (meio que o responsável maior), a amiga antiga Lila Foster, Adriano Esturilho ou Eugenia Castello – todos envolvidos diretamente com a organização -, além de outras com realizadores, o próprio Pedro Merege, e mesmo os companheiros na empreitada de avaliar e julgar, o Marcelo Caetano e o grande Eduardo Baggio, ficou a marca de que é possível retomar o formato como mesmo um salvador da pátria da película e do consequente belo resultado proporcionado por ela; ficou outra marca, do quanto é lindo ver alguém se jogando de cabeça (e muita organização anterior, evidentemente) com uma câmera no misterioso mundo de um cartucho fechado de Super 8, que serve de receptor e ferramenta de edição ao mesmo tempo, que concretiza (ou reestabelece) o sonho primário da potência ilusória que a imagem pode criar, sem se saber ao certo em que grau se oferecerá - isso é lindo, tenso, estimulante, angustiante, e certeza de que imagens cheiram, tem texturas, profundidade, ainda.

De todo modo, bom pescar dos filmes em competição pérolas da insensatez como o maravilhoso e impactante filme português A Herdade dos Defuntos, de Patrick dos Santos Mendes, numa comprovação da importância desse cinema português atual (que breve corre o risco de cessar seu singrar mares, por conta da falta quase total de incentivos), ou o belo e emocionante Rua Julieta Palhares, 295, de Renato Coelho (que pelo conjunto do apresentado – foram mais dois filmes seus e outro em colaboração estreita com Pryscila Bettim - pareceu o diretor jovem com mais domínio do formato, criando suas obras com sucessão rara de corte velocíssimos e emendas justas: campos de fluidez perfeitos): ambos na categoria “Finalizados em Digital”, o que permite a edição fora da “caixinha” do filme, com trabalhos mais longos e adequados ao olhar menos paciente. Ou lembrar que a cereja do bolo mesmo esteve no que mais provocava desde o início, o “Tomada Única”, que entregou os trabalhos com mais “erros” – as sub e superexposição estiveram em todos -, não fosse a proposta de coragem: e tome o maravilhoso e denso Equinophobia, de Bruno Surian, que levou prêmio de melhor filme, com sua tensão bem equilibrada e crescente entre as imagens e a música (um PB que começa escuro – o diretor, dizem, sofreu com esse “erro” –, sai para o exterior preenchendo o campo visual de planos incríveis); e tome, In Memoriam Afeto (João Miguel Santana), Visão 2013 para Roberto Piva (da Priscyla citada acima), O Cinema Segundo Luiz Rô (o outro do Renato Coelho), A Gal and a Gun (Raquel Areias Gancha), Querida Tia Sheila (Maria Antonia Mion), Leme (Demian Jacob/Tomas Magariños), ou O Útero (Danilo Daher Alvarenga), por exemplo. Filmes que se abasteceram de uma certa imprevisibilidade quanto ao resultado que seria visto em tela como uma confirmação de algo que pode e deve ser incentivado, retrazido.Vale lembrar que alguns desses trabalhos tiveram sua sonorização ao vivo, no palco

Curiosidades: os diretores tarimbados fazendo do exercício algo que repete seus processos comuns de trabalho, emprestando justamente no segmento “Desbunde” – onde corpos e sexualidade são os motes tocados da maneira o mais impactante possível – os momentos de mais organicidade nas narrativas, com imagens em fluidez mais pacata, mais justa ao cinema comum, e menos “equivocada”; os filmes dos coletivos convidados a filmarem, que mostraram o maior número de equívocos de sincronia entre a banda sonora e a das imagens, mais problemas com a luz, rendendo as obras mais ousadas no conceito, nos motes, e menos no “gatilho” (o filme do pessoal do Filmes do Caixote se deu bastante bem, num curta de cores interessantes, com a Helena Ignez e a Gilda Nomacce instigando o fã de carteirinha aqui, e humor nonsense: Desculpa, Dona Madama). Pedro Merege com seus trabalhos exibidos parece o sujeito acima do bem e do mal na competência estética e técnica com a bitol; e o desejo de que isso ganhe corpo (não em tamanho de festival, mas no espalhamento da ideia de fazer do Super 8 a representação mais viável para a película). Voltei um ser crente e abismado.