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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados – “Filmes de Ousmane Sembene exibem impasses do ‘cinema africano’”




























Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


Filmes de Ousmane Sembene exibem impasses do “cinema africano”                                                                                   (publicado: 08/2013)

Por Humberto Pereira da Silva

A menção à existência de cinema africano pode gerar interrogação em muitas pessoas. Como geraria de cinema maori na Nova Zelândia, ou inuíte na Groelândia. Não há exagero nessa comparação. Mostras de cinema judeu e árabe fazem parte da agenda de cinéfilos que escapam da programação nos Cinemarks, e revelam nomes desconhecidos, tanto quanto instigam debate sobre suas filmografias. Mas a recente Mostra do senegalês Ousmane Sembene (1923-2007), promovida pela Casa das Áfricas e ocorrida no Cinematilha, nos dias 10 e 11 de agosto, ficou praticamente confinada a acadêmicos de antropologia da USP e ativistas de movimentos raciais.

Sembene é tido como pioneiro do cinema africano. Contudo, aqui convém uma ressalva: a África é um continente com diversidade cultural, social, política e étnica que dificulta qualquer tentativa de estabelecer unidade. Fazer uso da palavra “África” como exortação cultural e símbolo de unidade de um povo esconde diferenças profundas entre grupos étnicos que vivem no mesmo espaço geográfico. A denominação “cinema africano”, inclusive, embaralha o que se entende por “cinema árabe”. A diretora egípcia, Hanan Abdalla, presente com À Sombra de Um Homem na 8ª Mostra de Cinema Árabe (entre 15 de agosto e 1º de Setembro), promovida pelo CCBB, é obviamente africana, mas identificada ao cinema árabe.

Com isso, não quero trazer falsa polêmica, mas tão somente realçar que o imaginário sobre a África camufla um contexto complexo. Como o Egito, além de país africano, o Senegal também é habitado por maioria muçulmana. Mas ao contrário do Egito, na áfrica subsaariana há um caldeirão com grupos linguísticos e etnias que escapam a qualquer possibilidade de classificação. Bem, mas por que Sembene é celebrado como o “pai do cinema africano”?

Sua trajetória é errática. Filho de pescador, ele nasceu em Casamance; ainda adolescente vai para Dakar, onde trabalha como encanador, pedreiro e mecânico. No começo da década de 1940 serve às forças de libertação da França durante a Segunda Guerra (les tiraileurs sénégalais); com o fim da guerra e a França livre, se estabelece em Marselha e se sustenta como estivador. Apesar de não ter feito sequer o que seria nosso ensino médio, nos anos em que vive na França tem despertado o interesse pela leitura e acaba seduzido pelo Partido Comunista. Nos anos de 1950 milita contra a guerra da Indochina e pela independência da Argélia.

Até o começo dos anos de 1960 o cinema não faz parte de seus interesses. Como resultado de sua militância política – e da própria experiência como estivador –, começa a escrever romances que se destacam pela temática engajada. Sua vida sofre uma guinada justamente em 1960, quando o Senegal se torna independente da Federação do Mali, formada dois anos antes com a independência da França: ele volta então para sua terra natal, e nesse retorno à África aproveita para conhecer o Mali e o Congo. Nessas viagens é despertado para o cinema: para ele, o veículo de expressão que lhe permitiria mostrar uma realidade africana desconhecida pelo imaginário europeu. Movido apenas pelo interesse, sem formação, ele precisa estudar: é então que obtém uma bolsa e vai estudar cinema em Moscou.

Em 1966 surge seu primeiro longa metragem, La Noire de..., produção franco-senegalesa baseada em uma novela que havia escrito. Vencedor do prêmio Jean Vigo, trata-se do primeiro filme realizado por um cineasta da África subsaariana. Sua obra seguinte, Le Mandat (1968), premiado no Festival de Veneza, ratifica sua posição de porta-voz do “cinema africano”. Sembene foi novamente premiado em Veneza por Le Camp Thiaroye (1988) e na Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes por Moolaade (2004).

O reconhecimento em festivais importantes criou a aura de cineasta símbolo da África negra. Em sua filmografia destacam-se também Emitai (1971), Xala (1975) e Ceddo (1979). Este último foi proibido no Senegal, por sua abordagem pouco positiva da influência de preceitos muçulmanos no país. Realizador com produção econômica, o que contribui para a criação do culto à sua personalidade o fato de Sembene jamais ter abandonado a postura militante: ele próprio ia de vilarejo a vilarejo exibir seus filmes e discutir sua concepção de cinema.

Mas, em que consiste efetivamente esta concepção? A resposta pode ser encontrada em seu filme de estreia, La Noire de... Sembene trata, com diversos matizes, da condição da mulher na sociedade senegalesa, da relação entre a elite que chegou ao poder com a independência e a antiga classe dominante, e da convivência entre ritos e crenças ancestrais e valores culturais franceses que impregnam o cotidiano do novo país (Ceddo foge desse esquema. Fábula atemporal que opõe cristãos e islâmicos, se exime do confronto com a colonização francesa: por isso, vista como mural, é sua obra com maior poder de afirmação cultural). Assim, em sua filmografia, a convergência desses temas é recorrente. Nesse sentido, La Noire de... não só é sua primeira obra como revela uma concepção temática que sofrerá poucas mudanças em seus filmes posteriores.

A trama de La Noire de... gira em torno de uma jovem senegalesa que trabalha para uma família francesa em Dakar e, com a ida desta para a França, ela a acompanha. A possibilidade de morar na França a deixa deslumbrada. Apesar do sentimento de tristeza por deixar a família, ela fantasia uma vida nova, fruto da imaginação por conta das revistas francesas que folheia. Na França, no entanto, a desilusão: trabalhando como doméstica o tempo todo ela vê a baia negra dos Antibes, na região de Provence-Alpes-Côte d´Azur, da janela do quarto. Para complicar mais sua situação, analfabeta e carente de modos afrancesados, ela entra em confronto com a patroa: simplesmente não entende por que não deve deixar os sapatos espalhados pela casa.

Filmado em preto e branco, Sembene realça a ausência de contrastes e oferece a base semântica do filme: nas roupas que ela veste, na decoração do apartamento, nas bebidas – café e leite –, a presença pregnante da oposição preto e branco. Na estrutura binária exibida pelas imagens, o sistema de exploração que divide a realidade em que se encontram oprimidos e opressores. Ela não se comunica com os patrões: sua voz não vai além de “sim, senhor” e “sim, senhora” - para expressar os sentimentos dela, Sembene recorre ao monólogo interior.

Mas o filme não sugere que o sistema de opressão reside exclusivamente entre os franceses: a elite política que chegou ao poder no Senegal é conivente com a opressão. Ao mesmo tempo em que valores locais são abraçados, com o fetiche em torno de uma máscara que tem significado especial para ela, Sembene mostra igualmente que ela foi seduzida pelo mundo ocidentalizado do namorado. Membro da elite intelectual e política ele se encanta com a França e contribui para a mistificação consumista dela ao presenteá-la com a revista Elle. Ou seja: independente politicamente da França, a elite do Senegal rejeito valores tradicionais para viver como franceses conservadores. Assim sendo, oprimir as classes que estão abaixo e sujeitar as mulheres ao jugo masculino.

Por causa principalmente de filme como La Noire de... Sembene merece ser visto e discutido além do circuito fechado dos movimentos de afirmação racial. Não por curiosidade antropológica ou pela satisfação voyeurista de quem nunca viu um “filme africano”, mas para situar as preocupações de um cineasta importante e praticamente desconhecido, para compreender sua concepção de cinema num mundo que divide opressores e oprimidos. Sembene viu no cinema uma forma de expressão que, além de ato de resistência, é oportuno veículo que exibe uma realidade pouco conhecida, cujo imaginário, no entanto, alimenta distorções.

Respeitada sua relevância e urgência de exibição, a obra de Sembene também revela os impasses, as dificuldades para se pensar numa cinematografia africana. Sua produção é fruto de iniciativa pessoal, com todos os obstáculos que uma iniciativa dessa ordem acarreta. Se ele é o pai do “cinema africano”, também é verdade que não deixou herdeiros. Do ponto de vista da ressonância no circuito de festivais em âmbito mundial, não há antes, nem depois, dele. Além de personalizar o cinema de um país africano, não se pode pensá-lo a partir da produção fílmica do Senegal, ou como clama o slogan, da África.

Assim, no que se refere propriamente à África, ou ao Senegal, se tem um artista que se deslocou de seu país natal, colonizado, para a metrópole. Distante de suas origens, ele recebeu formação dos colonizadores, voltou para suas origens e produziu uma obra que dialoga essencialmente com a elite colonizada e a colonizadora. Seus filmes, de fato, ao contrário do Cinema Novo no Brasil, por exemplo, exibem com timidez o rosto do “povo” senegalês. Quanto ao aspecto formal, aliás, Sembene parece preso às regras do realismo socialista (não à toa estudou cinema em Moscou).

Apesar de suas intenções, sua obra é esquemática e tímida. A realidade “africana” que propunha exibir fica confinada às elites no poder. A pálida imagem do “povo”, com encenações de suas crenças e rituais, deixa a incômoda sensação de caricatura. É como se - e isso não deixa de gerar estranheza - ele tivesse em vista satisfazer certa expectativa de intelectuais ocidentais, franceses quiçá, sobre qual imagem gostariam de criar sobre a África. Por conta desse tipo de ambiguidade, as imagens em seus filmes estão próximas do “cinema de qualidade” virulentamente criticado por François Truffaut. Com isso, ao invés de “cinema africano”, o cinema de Sembene carrega mais apropriadamente – contra seus propósitos ideológicos – o espírito de certo cinema francês da época. Os temas “africanos” perdem força quando filmados à maneira comportada francesa nos anos da nouvelle vague.



FOTOS 2, 3, 4, 5: La Noire de...
FOTO 6: Le Mandat
FOTO 7: Le Camp Thiaroye
FOTO 8: Moolaade
FOTO 9: Emitai
FOTO 10: Xala
FOTO 11: Ceddo






Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).