Fonte: [+] [-]

A Criança e o Cinema – A Excursão














A Criança e o Cinema


A Excursão                                                                                         (publicado: 06/2013)

Por Beatriz Saldanha

Os contos de fadas servem de matéria-prima para o cinema desde os primórdios, quando foram adaptados por desbravadores do gênero fantástico como Georges Méliès e George Albert Smith em seus curtas-metragens. Atualmente, o tema tem sido uma coqueluche em Hollywood, que, dentro de seus padrões, tem investido em grandes produções em 3D, como João e Maria: Caçadores de Bruxas e Jack, Caçador de Gigantes. Universal e atemporal, o tema, por outro lado, também inspira realizadores independentes de todo o mundo, a exemplo de Catherine Breillat (Barbe Bleue) e Julia Leigh (Beleza Adormecida). Existe, em ambas as situações, a ideia de retomada de sentido dos contos como foram originalmente conhecidos, em toda a sua crueza e, em grande parte dos casos, erotismo e sensualidade; apesar de os grandes estúdios promoverem suas produções como subversões.

A Excursão é uma produção independente de 2012, realizada na terra dos Irmãos Grimm, a Alemanha e, mesmo sem fazer de fato uma adaptação direta e objetiva de um conto, apropria-se de todo o imaginário desta literatura para criar uma história intimista, com personagens ordinários que bem poderiam ser eu ou você. Aqui temos uma jovem família (mãe, pai, filha e tia, irmã da mãe) que viaja para um piquenique no interior de uma enorme floresta, onde, após uma série de eventos estranhos, as três acordam sozinhas, sujas de sangue e com as roupas rasgadas: aparentemente foram violadas. A menina, uma consumidora voraz de livros, investiga e desconfia que a família fora atacada por lobisomens.

A Excursão se assemelha ao filme realizado por Neil Jordan em 1984, A Companhia dos Lobos, na abordagem dos contos de fadas, apesar de divergirem na ausência/presença do monstro, e a opção pelo mistério, ao invés da fantasia. A Companhia toma como base “Chapeuzinho Vermelho”: mais especificamente, uma versão escrita por Angela Carter, em que a autora desejou trazer à tona o conteúdo latente da história tradicional. No filme de Jordan é enfatizada a sexualidade feminina, ou melhor, a aceitação desta sexualidade e o retorno da mulher à natureza.

O diretor e roteirista Mathieu Seiler opta por enfoque semelhante em A Excursão, cujo plano inicial mostra uma floresta verdejante ao som de passarinhos em contraste com a panorâmica de uma cinzenta cidade, ao barulho de carros. Após deixar sua prisão na metrópole (ideia fortemente marcada pelas grades na janela do apartamento), as personagens adultas vão de encontro a um primitivismo perdido, enquanto Flora, uma pré-adolescente, desperta para a sua natureza animal. Atento ao comportamento infantil, Seiler mostra a transição desta personagem através de seus brinquedos: primeiro, a menina vê-se representada em “Eu”, uma boneca que carrega sempre consigo, até que a perde na floresta e muda de brinquedo: desta vez ela leva um lobo de pelúcia. É através deste e de outros detalhes pululantes que montamos o quebra-cabeça e percebemos que elas não estão sendo vítimas de abusos sexuais; pelo contrário: as duas mulheres e a menina, em contato com a natureza selvagem, tornaram-se lobas ferozes.

Os homens são retratados de forma apática: tão rápido quanto surgem, somem, sem jamais fazer falta. Quando ressurgem, nos personagens dos caçadores de lobos, mostram-se figuras repugnantes, que se põem de obstáculo à liberdade selvagem adquirida pelas personagens, uma representação do macho ameaçado pela fêmea sexualmente agressiva.

A Excursão é exemplo da possibilidade de se fazer um bom cinema fantástico, mesmo quando se enfrenta adversidades orçamentárias. A escolha por uma única locação, atores competentes e em limitado número, a dispensa de efeitos especiais mais complexos e, principalmente, um roteiro de qualidade, possibilitaram a realização do filme com cerca de R$ 15.000, orçamento considerado humilde até mesmo para curtas-metragens. O filme ainda está fazendo o circuito de festivais e ganhou, no “Fantaspoa” deste ano, o prêmio de melhor filme dentro da mostra internacional.


FICHA TÉCNICA:

Título original: Der Ausflug

Direção: Mathieu Seiler
Fotografia: Oliver Geissler
Edição: Stanley Pienkowski
Roteiro: Mathieu Seiler
Produção: Olivier Kolb,
Co-produção: Cengiz Peker .
Efeitos Visuais: Michael Roland
Efeitos Especiais: Michael Roland
Música: Beat Solèr
Animação: Michael Roland
Maquiagem: Anne Lomberg

Elenco: Maike Jüttendonk, Sabine Krause, Alina Sophia Wiegert, Christian Weber, Jonas Jeremy Barth, Oliver Rihs, Christoph Lukas, Cengiz Peker.

Ano: 2012





Beatriz Saldanha é graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Esteve à frente do Cineclube João e Maria, projeto de extensão da universidade vinculado ao grupo Infância e Interculturalidade. Realizou através do CNPq a pesquisa "Violência e erotismo nos contos de Grimm: Releituras no cinema pós-moderno".