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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados - “A História Oficial” e a Argentina da ‘guerra suja’”


























Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


A História Oficial e a Argentina da ‘guerra suja’                                                                                   (publicado: 05/2013)

Por Humberto Pereira da Silva

Comparações entre Brasil e Argentina facilmente passam do anedotário para manifestações de afirmação de identidade que deliciam estudos antropológicos. Mas os dois maiores países da América do Sul se desconhecem reciprocamente, olham para o quintal do lado quando o “Outro” se projeta internacionalmente, como na escolha de Prêmio Nobel ou do Papa. Na disputa cinematográfica foi o que aconteceu com o recente Oscar para o argentino O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella; como também em 1985, quando A História Oficial, de Luis Puenzo, tornou-se a primeira produção da América do Sul laureada pela academia hollywoodiana. Orfeu do Carnaval (1959), de Marcel Camus, filmado no Rio de Janeiro nos idos dos anos 50, é reivindicado por admiradores ávidos pela afirmação de nosso cinema nos EUA, mas a produção é franco-italiana. Na comparação, perdemos de dois para os portenhos.

Essa “folclórica” discussão sobre superioridade cinematográfica, no entanto, é mais fruto de mentalidade colonizada do que algo a se levar a sério no plano cultural. Independentemente da estatueta – e consequente prestígio com a premiação –, quase trinta anos atrás foi realizado na Argentina A História Oficial, um filme que, sim, muito pode nos ensinar sobre sua história; com ele, sim, pode-se traçar paralelos entre nossas trajetórias, sob o julgo de ditaduras, para além de anedóticas disputas sobre hegemonia cultural.

Importa, então, tratá-lo como uma das obras mais conhecidas e vistas dos anos de 1980, tanto quanto uma das que mais suscita curiosidade, por conta de sua fortuna crítica e concomitante alheamento de seu diretor. A História Oficial é uma película cujas circunstâncias de momento – o contexto histórico e político – são determinantes para se entender o porquê de sua premiação e recepção crítica internacional. Exibido dois anos após o fim da ditadura militar argentina (1976-1983), trata de tema indigesto no processo de transição para a democracia: o sequestro de bebês de militantes políticos nos CCD (Centros Clandestinos de Detenção) e posterior adoção por famílias de classe média e elite civil que davam sustentação ao regime.

Com isso, uma trama de forte apelo emocional, o que fez desse filme inequívoco libelo contra o terrorismo de Estado: o calor do momento e o tema incômodo são dados que contribuíram para que fosse visto, gerasse desconforto, tanto quanto angariasse prêmios, concorresse em festivais prestigiados, como o de Cannes. De um filme corajoso, que mexe em casa de marimbondo, espera-se um diretor comprometido, com visão de cinema própria daqueles do chamado “cinema político” dos anos 60 e 70: Gillo Pontecorvo, Elio Petri, Costa-Cavras, ou seu compatriota Fernando Solanas, cujo Hora de Los Hornos (1968) é um dos momentos sublimes da sétima arte, são referências marcantes da época. Mas não é o que acontece: o que move Luis Puenzo para o cinema não é o mesmo que impulsiona os cineastas citados.

Do ponto de vista da relevância histórica, sua obra restringe-se a A História Oficial. Sobre este, aliás, se manifestou raramente, e quando o fez, foi sem muito entusiasmo. Na onda do sucesso pelo Oscar, pouco depois veio Gringo Velho (1989): produção americana, com participação dos astros Gregory Peck e Jane Fonda, que, entretanto, não passou de retumbante fracasso comercial. Puenzo também responde pela adaptação pouco convincente de A Peste (1992), novela existencialista do francês Albert Camus.

Inicialmente seduzido, mas depois desencantado com Hollywood e o cinema de modo geral, Puenzo foi menos cineasta que publicitário: antes da ditadura havia criado uma empresa para fazer comerciais exibidos na televisão; como publicitário, se converteu num dos mais reputados da Argentina, posição que manteve mesmo nos anos do regime de força. Seu trajeto para o cinema, especificamente na direção, foi condicionado pela situação do país. Solicitado a falar da razão que o levou à realização de longas de ficção, responde que na verdade não tinha interesse em filmar, pois estava muito bem na publicidade: mas, logo depois da derrota argentina na Guerra das Malvinas, furioso com os militares, decidiu dar seu testemunho sobre o que se passava nos porões da ditadura; ou seja, o cinema não era para ele – tampouco passou a ser – um projeto pessoal com carreira consistente em seguida.

Isso é interessante ser ressaltado, porque não é coincidência o fato de ter realizado um filme cuja direção é longinquamente lembrada. Nesse sentido, Marcelo Piñeyro, que responde pela produção de A História Oficial, é mais importante na história do cinema argentino que Puenzo (no início deste século, com Plata Quemada e Kamchatka firmou-se como nome de ponta). Ou seja: num filme de tema explosivo, que afeta diretamente pessoas ao lado dele, o diretor não é mais que um artesão (na arte medieval, aquele que realiza trabalho manual e não reflete sobre seu ofício; um homo faber, enfim). Assim sendo, o filme ganhou autonomia própria e se impôs sem necessidade da etiqueta (assinatura) de um autor com visão de política e cinema que fosse além do desabafo pessoal.

Essa peculiaridade na relação entre autor e obra é tão mais curiosa quanto mais se percebe a densidade e complexidade de um filme que, num primeiro olhar, é um melodrama familiar com pano de fundo político. Ora, é nesse ponto, contudo, que as coisas se complicam: o apelo melodramático provavelmente agradou à academia hollywoodiana, assim como a grande parte do público que assistiu à história da doce Gaby, cujos pais desapareceram na “Noite dos Generais” (título de livro de José Meirelles Passos sobre os bastidores do terror militar na Argentina). Ocorre que a mensagem, por trás de narrativa facilmente compreendida e que sensibiliza o espectador passivo, carrega igualmente uma poderosa alegoria sobre a “guerra suja”, levada a cabo pela Junta Militar que tomou a Argentina de assalto.

O acento alegórico está na ingênua canção cantada por Gaby ao telefone antes de dormir para seu pai adotivo, o executivo Roberto Ibáñez, na sequência final: “no país do não me lembro, dou três passos e me perco...”. Em outro momento da narrativa, quando reina harmonia no lar Ibáñez, essa mesma canção é cantarolada para Alícia, a mãe adotiva. “O país do não me lembro” é simbolicamente a Argentina, cujos mandatários pretendiam varrer e jogar no lixo todos os germes de instabilidade que corrompiam as instituições políticas desde meados dos anos de 1940, quando Juan Domingo Perón ascendeu ao poder, para reorganizarem o país a partir do zero. Com esse ideário no horizonte, a Junta Militar que derrubou a presidente Isabelita Perón inicia o período histórico autodenominado “Processo de Reorganização Nacional”.

É nessa Argentina que vive o casal Roberto e Alícia Ibáñez – ela, não por acaso, professora de História. Na base do processo institucional que se cristaliza com o golpe militar, o forte teor conservador e a oficialização de diretrizes de ensino. No caso de História, a orientação para apagar da memória coletiva a possibilidade de julgamento positivo de lideranças sindicais, partidos ou instituições legadas pelo peronismo: ou ligadas a movimentos de esquerda alinhados com a revolução cubana (como traço característico do tom alegórico da narrativa, na apresentação aos alunos, Alícia diz que “nenhum povo sobrevive sem memória: a História é a memória dos povos”). Com o “Processo de Reorganização Nacional”, a história a ser contada nas escolas é a história oficial, como impressa nos livros didáticos.

O casal Ibáñez simboliza quem ganha e quem perde no movimento da história: portanto, a quem cabe fazer a história em cada guinada dos acontecimentos. Roberto tem origem proletária; seu pai, um espanhol anarquista, lutou ao lado dos Republicanos na Guerra Civil Espanhola; derrotado pelo General Franco, foge para a Argentina, onde vê seu filho enriquecer em conluio com a ideologia contra a qual pegou em armas. Roberto é a figura do argentino ganancioso, que saiu do nada e, com informações privilegiadas, delatou colegas de faculdade e pessoas próximas para ascender socialmente e obter privilégios do regime.

O regalo mais caro que lhe foi concedido decorreu da esterilidade de Alícia: adotar uma criança, Gaby, que lhe foi entregue pelas mãos dos carrascos de sua mãe biológica. Alícia desconhece os meios de adoção da menina, mas, como convém a uma mulher conservadora, ela não se imiscui nos negócios do marido: como tampouco lhe interessa o que acontece no país. Assim como a Igreja Católica (há uma cena que hoje remete à figura do jesuíta Jorge Mario Bergoglio), na Argentina, sob os generais, as mulheres fazem voto de silêncio obsequioso.

Alícia passa a se interessar pelos acontecimentos ao redor quando Ana, uma amiga que havia chegado do exílio, num relato sobre seu sofrimento nas mãos de torturadores, casualmente faz menção ao sequestro de bebês nos CCD. Alícia, então, passa a desconfiar que o marido adotara a filha nessas condições, e empreende longa jornada para descobrir quem foram os pais de Gaby.

Embora seja professora de História, portanto uma mulher instrumentada para saber sobre o país em que vive, Alícia deixa a impressão de alienação, de que está absolutamente distante do que se passa ao redor. Seu perfil psicológico e história pessoal, no entanto, são mais complexos. Ela não sabe o que, por decisão voluntária, não deseja saber, pois fechou os olhos e tapou os ouvidos. A conversa com Ana transcorria dentro da normalidade do relato de uma experiência terrível de sevícia sexual, até que Alícia se depara com a verdade que não queria ouvir: como o marido, pactuar com o horror da “guerra suja”. Ao contrário de Roberto, que não demonstra sentimento de culpa, sua personagem se transforma: o primeiro sinal é a mudança de penteado - o coque, símbolo de conservadorismo, é solto, e seu cabelo esvoaça.

É por meio de gestos e ambiguidades sutis que Puenzo dá forma à sua alegoria sobre a “guerra suja”: no filme, a história oficial desmorona com a mudança de penteado de Alícia; em sua própria vida, com a derrota e humilhação nas Falklands. No movimento da história, sujeito à casualidade e ao infortúnio, é irônico saber que A História Oficial resultou de decisão casual de cineasta que, nas suas próprias palavras, não desejava mais do que deixar testemunho de indignação, fazer um filme denúncia. Ironias do cinema, da história, da vida e da criação artística. Com rara sensibilidade, Puenzo condensou a história recente de seu país. Diante disso, o Oscar é mero detalhe promocional. Para nós, resta ver A História Oficial e sermos estimulados a saber sobre nosso vizinho, sem ressentimentos ou balelas competitivas.






Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).