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A Criança e o Cinema – A Menina do Outro Lado da Rua


















A Criança e o Cinema


A Menina do Outro Lado da Rua                                                                          (publicado: 03/2013)

Por Beatriz Saldanha

Jodie Foster iniciou no trabalho de atriz quando criança, tendo aparecido especialmente em programas televisivos cômicos ou infanto-juvenis. No cinema, participou do elenco de produções do estúdio Disney, como Napoleão e Samantha, de 1972: mas era o ano de 1976 que marcaria uma reviravolta na carreira da jovem atriz.

Foi neste ano que ela apareceu nos filmes Taxi Driver e Quando as Metralhadoras Cospem, e teve a oportunidade de interpretar personagens mais maduras. No primeiro, faz uma prostituta-mirim, enquanto, no segundo, numa espécie de brincadeira do diretor e roteirista Alan Parker, integra o elenco de crianças que fingem ser adultos e interpreta a sedutora namorada de um gângster.

Se nestes filmes Jodie Foster correspondeu em alguma medida à carga sensual de suas personagens, em A Menina do Outro Lado da Rua, também de 1976, ocorre o contrário. Aqui a vemos como Rynn, a única filha dum poeta britânico, menina de aparência frágil, com um dente lascado. Rynn muda-se com o pai para uma pequena cidade dos Estados Unidos a fim de escapar das “garras vermelhas” de sua mãe. Quando o pai se ausenta, a menina precisa sobreviver sozinha, sem que os outros habitantes da cidade saibam de sua condição.

Rynn é uma criança impelida ao amadurecimento precoce, não apenas pela ausência dos pais, mas por toda a violência a qual é submetida pelo simples fato de ser uma criança longe da égide do adulto. Violência que se dá, ora ao ter sua individualidade violada quando a senhoria da casa (Alexis Smith) em que mora invade o lugar, ignorando seus gritos de protesto, ora quando o pedófilo da cidade (Martin Sheen), obstinado em apossar-se do seu corpinho mirrado, tenta violá-la na noite do Dia das Bruxas, enquanto os filhos dos outros praticam o lúdico exercício de pedir doces de porta em porta.

Aliás, este contraste entre a inocência e a perda dela é explorado em outros momentos do filme, como quando Rynn leva uma palmada no traseiro. O ato, comumente associado à infância, desprovido de malícia, assume o aspecto de abuso sexual quando executado por um pervertido mal-intencionado.

“Que idade devemos ter para que nos tratem feito gente?”, pergunta a menina a Mario (Scott Jacoby), seu único amigo, que surge e permanece na trama de forma divertida, numa tentativa de preservar o lado infantil de Rynn. Mas ela tornara-se, de forma irreversível, uma mulher, e é como mulher que toma a madura decisão de fazer sexo com o colega.

Os contos de fadas foram por muito tempo porta-vozes dos problemas infantis. A senhoria em quem Rynn provoca ciúmes por chamar a atenção de seu filho é a representação das velhas bruxas destas narrativas seculares; o pedófilo, o lobo-mau; Mario, o “mágico aleijado”, uma espécie de príncipe encantado às avessas; por fim, o modo como a menina resolve seus problemas, a vingança, é muito frequente e plenamente aceitável nos contos de fadas.

A Menina do Outro Lado da Rua é um daqueles filmes obscuros que merecem ser reencontrados e revistos: seja pela experiência de observar a jovem Jodie Foster num dos papeis infantis mais interessantes já escritos, pelo modo delicado como aborda a transição da infância para a adolescência ou até mesmo pelas boas horas de suspense que proporciona.


FICHA TÉCNICA:

Título original: The Little Girl Who Lives Down The Lane

Direção: Nicolas Gessner
Fotografia: René Verzier
Edição: Yves Langlois
Roteiro: Laird Koenig
Produção: Zev Braun
Co-produção: Denis Héroux, Eugene Lépicier, Lesland Nolan
Direção de Arte: Robert Prévost
Produção executiva: Harold Greenberg
Efeitos Especiais: Christophe Harbonville
Música: Christian Gaubert
Edição de som: Frank H. Griffiths
Maquiagem: Bob Pritchett, Mirelle Recton, Joe Tubens

Elenco: Jodie Foster, Martin Sheen, Alexis Smith, Mort Shuman, Scott Jacoby, Dorothy Davis, Clesson Goodhue, Hubert Noël.

Ano: 1976





Beatriz Saldanha é graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Esteve à frente do Cineclube João e Maria, projeto de extensão da universidade vinculado ao grupo Infância e Interculturalidade. Realizou através do CNPq a pesquisa "Violência e erotismo nos contos de Grimm: Releituras no cinema pós-moderno".