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Viva a Boca do Lixo – “As Deusas”




















Viva a Boca do Lixo


As Deusas                                                          (publicado: 03/2013)

Por Gabriel Carneiro

Mulher deprimida vai, com o marido, para a casa de campo de sua psicóloga, por recomendação da própria, com o objetivo de encontrar a paz em meio à natureza. Tudo parece normal, mas a angústia dessa mulher é tão grande que não aguenta, telefonando desesperada para a terapeuta e clamando sua ida ao refúgio. Envolto por obscuridade, o ambiente faz a psicóloga sucumbir a uma série de tentações e sentir as perturbações de sua paciente.

Walter Hugo Khouri, ao longo de mais de 50 anos de carreira no cinema, passou incólume por todos os fazer cinema em São Paulo: da Vera Cruz à produção independente, da Boca do Lixo, à Embrafilme e à Retomada. Incólume porque, mesmo trafegando em diferentes formas de se produzir, nunca perdeu sua autenticidade e sempre manteve seu projeto de cinema intimista e existencial, fosse em dramas, suspenses, filmes de horror ou comédias. O preâmbulo armado por Khouri em As Deusas, que inicia este texto, é exemplo perfeito disso. Egresso do cinema sofisticado urbano feito em São Paulo nos anos 1960, após estourar em termos de público e conseguir prestígio internacional (dois filmes dos nove filmes anteriores competiram pela Palma de Ouro em Cannes: a saber, Noite Vazia/1964 e O Palácio dos Anjos/1970), Khouri ingressa no cinema das Boca do Lixo justamente com esse As Deusas, primeira parceria com a Servicine de Alfredo Palácios e A. P. Galante.

A Servicine sempre teve a pretensão de fazer público, de ganhar dinheiro com o que produzia, daí baixíssimos orçamentos, temas populares, fórmulas exploradas à exaustão, etc, etc. Khouri era um sujeito que raramente trabalhava temas estritamente populares – seus personagens de classe média trafegam por espaços, situações e sensações que dificilmente eram vistos na Boca do Lixo -, nunca entregando tudo facilmente, ainda que tenha tido grandes sucessos de público. É impressionante pensar em As Deusas como um filme da Boca, mesmo que seja um típico Khouri, porque o cineasta parece radicalizar algumas de suas experiências estético-narrativas. Mestre na criação de atmosfera, o diretor calca seu filme praticamente nesse elemento, de certa forma, abrindo o precedente para os filmes de horror que dirigiu, O Anjo da Noite (1974) e As Filhas do Fogo (1978), em que o verbo é deixado de lado em favor do abismal e do efeito do ambiente nas ações e nos sentimentos de seus personagens.

Ainda que exista, em As Deusas, breves diálogos explicativos sobre a psique da protagonista, isso está longe de promover a insanidade contagiosa que vemos no filme, quando a personagem de Lilian Lemmertz – impecável – corre desesperada pelo bosque da casa, delirando, com uma câmera explosiva, andando em círculos. Essa capacidade de narrar uma história que Khouri tinha era sua grande qualidade. Notável em saber o que fazer com a câmera, era grande diretor de atores, sabendo exatamente o que extrair deles. Bastam um olhar de Lemmertz, de Mário Benvenutti (o marido) ou de Kate Hansen (a terapeuta) para a história evoluir.

A capacidade expressiva dos atores constrói, ao lado da câmera e a trilha do habitual colaborador de Khouri, Rogério Duprat, a atmosfera. No filme há uma linha muito tênue entre a loucura e a sanidade, entre a sedução e o assédio, entre o prazer e a dor: tudo é jogo. Ali, tudo misturado, existe uma consciente liberdade dada ao espectador de fazer o juízo que lhe for, de lhe provocar aonde lhe diz mais, tamanha a ambiguidade provocada pelo diretor – que casa perfeitamente com o tema retratado no filme. Mais: sem propor qualquer explicação racional. Quanto mais os personagens se impregnam por aquela dualidade, em que a clareza de pensamento ou mesmo de ações deixa de existir, mais se prendem à realidade, seja ela qual for, a ponto de ser algo quase compulsivo, numa espécie de buraco negro existencial.

Khouri ficou marcado como um sujeito que fazia pornô chic, por mais errado que isso seja. Era o sujeito que fazia filmes de erotismo latente, em que o sexo era a exasperação da liberdade corporal, nada vulgar, em ambientes de classes mais abastadas. Isso, muito derivado das questões existenciais tão caras a ele e que tanto identificavam essa classe ora alienada, ora despropositada, que não sabia muito para onde ir. As reminiscências deixadas pelo cineasta em seus filmes, especialmente nesses em que a atmosfera reina frente ao verbo e que o ambiente tem um papel tão opressor ao âmago do individuo como as dificuldades vistas nos filmes de cunho social, demonstram muito mais do que a maestria em filmar, permitem aos espectadores investigarem suas próprias personas a partir do que o filme propõe, para o lado que tender sua interpretação.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Walter Hugo Khouri.
Diretor de Fotografia: Rudolph Icsey e Antônio Meliande
Montagem: Sylvio Renoldi
Cenografia: Hugo Ronchi
Roteiro: Walter Hugo Khouri
Música (Genérico): Rogério Duprat

Elenco: Lilian Lemmertz (Angela), Mário Benvenutti (Paulo), Kate Hansen (Ana).

Ano: 1972


Distribuição: U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira

Produção: Alfredo Palácios
Produtor Associado: Antônio Pólo Galante
Gerente de produção: Heron R. Grivas
Assistente de produção: Maria Helena Sayanes
Co-produção: Galante Filmes e Servicine





Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.