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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados - "Nagisa Oshima, além de ‘O Império dos Sentidos’”






















Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


Nagisa Oshima, além de “O Império dos Sentidos”                                                                                   (publicado: 02/2013)

Por Humberto Pereira da Silva

A filmografia asiática, especialmente a japonesa, é reconhecidamente forte. Destaca-se pela quantidade e valor artístico dos filmes realizados: a indústria cinematográfica no Japão se estabeleceu à mesma época que a americana, com a criação das companhias Nikkatsu e Shochiku, nos primeiros anos do século XX. Trata-se igualmente de um cinema que, não raro, em decorrência da maneira específica com que aborda temáticas de violência ou de conteúdo sexual, choca e escandaliza espectadores ocidentais.

A esse respeito, importantes diretores asiáticos causaram e causam furor, com filmes de difícil apreensão para espectadores com conhecimento apenas aproximativo do multifacetado comportamento, ou código de honra, do extremo oriente. Esse é o caso de Nagisa Oshima (1932-2013), que se tornou mundialmente conhecido com o escândalo provocado por seu O Império dos Sentidos (1976). Morto recentemente, para as gerações atuais um tanto distantes do furor causado por esse filme, a associação imediata de Oshima, em praticamente todos os elogios fúnebres na imprensa, ao burburinho que se seguiu ao lançamento de O Império dos Sentidos.

Só para lembrar rapidamente a sinopse: a trama, que não traz nenhuma novidade com relação à maneira convencional com que o cinema conta uma história, é centrada no relacionamento entre uma prostituta, que se emprega como criada numa rica propriedade, e seu senhorio; de criada ela passa a amante e o que começa com uma diversão inconsequente evolui para um caso de amor obsessivo, com consequências tão inesperadas quanto trágicas. Entre as cenas mais conhecidas, aquela na qual a protagonista introduz um ovo cozido na vagina; em seguida ela o expele para ser degustado pelo amante.

Proibido ou exibido com cortes em muitos países logo após o lançamento mundial na França em 1976, os brasileiros tomaram conhecimento do filme por meio de reportagem publicada pela extinta revista Manchete: mas apenas puderam vê-lo em 1980 (os ingleses, para ilustrar com uma comparação, viram-no antes com cortes; a versão integral, contudo, só foi exibida na Inglaterra em 1991). Vale observar que a liberação de O Império dos Sentidos no Brasil ocorreu já na fase de Abertura do regime militar, com a revogação do AI-5 e a criação do Conselho Superior de Censura. Ao ser exibido sem cortes, foi alvo de intensa celeuma, sendo projetado em circuito comercial sob a etiqueta de filme pornô. Enquanto aqui se discutia sua liberação, Oshima seguia sua carreira, e em 1978 levou o prêmio de direção no Festival de Cannes por O Império da Paixão, outro trabalho seu com conteúdo erótico, ou pornô.

Conhecido, discutido e proibido, deve-se considerar também que a vinculação de O Império dos Sentidos ao pornô gerou desconfiança com relação ao seu valor artístico. Passada a celeuma, acabou relativamente esquecido. Já Oshima, quando lembrado, é quase sempre associado ao filme. O fato é que a premiação de O Império da Paixão representa o cume de sua efêmera e polêmica “celebrização”. A seguir, sua produção declinou na mesma medida em que seus filmes passaram quase despercebidos. Incorporado aos esquemas ocidentais de produção, fez Furyo, em Nome da Honra (1983), conhecido porque teve no elenco o roqueiro David Bowie; e fez, também, Max, Meu Amor (1986) e Taboo (1999), que abordam a zoofilia e o homossexualismo. São filmes de valor irregular, realizados quando Oshima já se encontrava combalido por um derrame – deixam sombra de suspeita sobre sua importância para quem o conhece somente a partir de O Império dos Sentidos.

De fato é notável que com sua morte seja lembrado quase que exclusivamente pelo filme mais polêmico que realizou. É como se seu lugar na história do cinema se resumisse a O Império dos Sentidos. Ocorre que Oshima foi, nos anos 60, um dos nomes de ponta da chamada nouvelle vague japonesa. E, antes mesmo de realizar seus primeiros filmes, já se destacava ao fundar as revistas “Sete Pessoas” (Shinchinin) e “Roteiros” (Shinariosu). Engajado no movimento estudantil, militante de esquerda, ele se dedica inicialmente à crítica. Em suas incursões críticas desenvolve, em consonância com os franceses dos “Cahiers du Cinéma”, a ideia de que todo autor deve manter contato com a realidade de modo a, na concretização de um filme, deixar-se influenciar por ela.

É a partir dessa ideia que ele se lança à direção. Com poucos recursos, ao lado de Kiju Yoshida, Seijun Suzuki, Shohei Imamura, impulsiona o movimento de renovação do cinema japonês. Realiza, então, obras originais e de conteúdo polêmico: seja pelos ataques à sociedade japonesa e à influência americana, seja pela ousadia no campo erótico. Num ímpeto extraordinário e vertiginoso, seus três primeiros filmes de forte impacto foram rodados em 1960: Juventude Desenfreada, O Túmulo do Sol e Noite e Nevoa sobre o Japão. Com ímpeto criativo incomum, de suas realizações nos anos seguintes destacam-se, Os Prazeres (1965), Canções Libertinas Japonesas (1967), O Enforcamento (1968), Diário de um Ladrão (1969) e Cerimônia Solene (1970).

Para Oshima os anos 60 foram efetivamente prolíficos. Um golpe de olhos em sua produção revela um artista que circulou em diferentes níveis no mundo das imagens em movimento. Além dos longas citados, assinou diversos documentários, curtas e séries televisivas: destas, destaque para “Aurora na Ásia” (1964), série de treze episódios sobre aventureiros japoneses na China no início do século XX. Para nós, infelizmente, da prodigiosa produção dos anos 60 apenas O Túmulo do Sol está disponível em DVD (Cult Classic). Com isso, um dado de curiosidade sobre o mercado de distribuição de DVD no Brasil: senão por motivações legais (questão de direitos autorais e congêneres), difícil entender o porquê de a Cult Classic ter lançado O Túmulo do Sol, mas não ter feito o mesmo com Juventude Desenfreada.

Em Juventude Desenfreada e O Túmulo do Sol, o melhor guia para se entender como Oshima vê o cinema, tanto quanto como retrata questões de comportamento juvenil no Japão do pós-guerra. Esses dois filmes são espécie de manifesto no qual ele assinala a diferença entre seu projeto de cinema e o que era feito pela geração anterior, cujos nomes mais representativos são Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi e Akira Kurosawa. Em contraposição a esses diretores essenciais, Oshima inova e introduz no cinema japonês algumas das preocupações básicas do cinema europeu do pós-guerra: movimento de câmara nos espaços urbanos em escombros; personagens anônimos, desesperançados, que trafegam a esmo; tramas intimistas, mas fortemente condicionadas por conflitos sociais.

O diálogo com elementos do cinema europeu da mesma época é o que justifica, para muitos, a identificação entre Oshima – e seus colegas de geração – e os franceses da nouvelle vague. Essa identificação é plenamente justificável, mas ela merece uma nota que é pouco discutida. No caso de Oshima, o diálogo também se dá em igual medida com o neorrealismo de Pier Paolo Pasolini. Juventude Desenfreada e O Túmulo do Sol guardam semelhanças estilísticas e temáticas, principalmente, com Accattone (1961). O que não deixa ser curioso, pois Oshima e Pasolini estreavam na direção, e, é quase certo, realizaram esses filmes com poucas informações sobre o que o outro fazia.

Assim como Accattone, Juventude Desenfreada coloca em cena a falta de perspectiva de jovens que vivem em países derrotados na Segunda Guerra. Nesses dois filmes, uma juventude inconformada, alienada, autodestrutiva e ressentida, que transita em ambiente dominado por gangues e pela prostituição. É nesse universo adensado que o casal protagonista de Juventude ... se atira às aventuras mais despropositadas e irresponsáveis: de um lado, para afrontar convenções; de outro, alimentar um cotidiano tedioso. E assim, nessa atmosfera carregada, já no primeiro encontro do casal, sinais do destino que o aguarda: ambos são enlaçados pela tragédia.

Deve-se notar, entretanto, que mesmo ao carregar nos tons de violência, na ausência de perspectivas, em Juventude Desenfreada sobram momentos de ternura, afeto, e certa esperança de que os jovens podem transformar a sociedade. Nesse sentido, Oshima faz recorte social e aponta a câmara para uma juventude perdida entre os valores da sociedade tradicional e a absorção do modo de comportamento americanizado. Com isso, a maneira distinta dos conflitos de gerações nos vencedores da guerra: em Juventude Desenfreada, o triste retrato de uma geração que, principalmente, se ressente dos erros da geração que afundou o país: mas ao mesmo tempo uma geração que se apega a modelos de comportamento americanizados para se rebelar contra a realidade na qual é jogada.

De qualquer forma, trata-se de um filme cujo comportamento do casal protagonista, tanto quanto dos que estão ao redor, é matizado. O verniz de esperança que se pode encontrar nele, contudo, está totalmente ausente em O Túmulo do Sol. Neste, Oshima radicaliza. A trama, com grau de violência bem mais acentuado, gratuito e alucinado, retrata a delinquência juvenil num bairro miserável de Osaka (Kamagasaki no filme se assemelha às favelas do Terceiro Mundo). Ao contrário de Juventude Desenfreada, o casal protagonista se dilui na trama e os personagens sequer são caracterizados minimamente a partir de seus dramas individuais ou inquietações existenciais: num mundo de violência sem limites, não há lugar para afetos, não há cumplicidades nas relações intimas. Sem passado nem futuro, todos se movem numa ciranda, atormentados por paranoias, desconfianças e traições.

O Túmulo do Sol exibe um quadro de pessimismo, em espaço social fechado no qual a sobrevivência é garantida pelo tráfego de sangue humano e pela prostituição. Aqui, comparações com Pasolini também podem ser traçadas: como Accattone, ou Mama Roma (1962), a paisagem em ruínas acentua os horrores da guerra, tanto quanto evoca um espaço dantesco onde impera a disfuncionalidade social: todos derivam presos num circulo infernal. Mas há um dado que afasta esse trabalho de qualquer similar europeu da época: Oshima oferece uma parábola sobre violência juvenil e o submundo, que ganhou tratamento parelho apenas no recente contexto do mundo globalizado.

Tenho em mente O Ódio (1995), de Mathieu Kossovitz, Amores Brutos (2000), de Alejandro Iñarritu, e Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. Principalmente por conta da visão apocalíptica que exibe, O Túmulo do Sol é filme inovador, ousado, que não devia ter passado despercebido pelos que fizeram obituário de Oshima. Em decorrência de um filme como esse, ou de Juventude Desenfreada, de suas realizações nos anos 60, enfim, Nagisa Oshima é diretor que merece ser visto, revisto: em suma, ter a obra posta em questão.

É uma pena que hoje ele seja lembrado em função – e até certo ponto incompreensão – do escândalo causado por O Império dos Sentidos. Diante deste filme, aliás, é recomendável ter em vista o quanto a mentalidade ocidental difere da oriental, no que se refere ao tratamento da sexualidade e na maneira de lidar como o corpo: a esse respeito, Oshima é menos um pervertido oportunista, acusação que lhe pode ser feita, do que um esteta e moralista que trabalha no limite as pulsões sexuais e o prazer em situações de violência. Num nível maior de exigência e confronto cultural, seria oportuno ver seus filmes tendo ao lado o Marquês de Sade, Leopold von Sacher-Masoch ou Georges Bataille.

Polêmicas e escândalos à parte, entendo que Oshima, no conjunto, não deixou obra tão relevante quanto a de mestres como Ozu, Mizoguchi ou Kurosawa, com os quais procurou romper nos níveis formais e de abordagem temática. Mas entendo também que contribui para que haja pouca atenção para obras como Juventude Desenfreada e O Túmulo do Sol a ênfase em O Império dos Sentidos. Como decorrência, a sugestão indevida de que ele se projetou no mundo do cinema, exclusivamente, ao explorar cenas de sexo explícito.


FOTO 2 O Império dos Sentidos (Ai no korîda)
FOTO 3 O Império da Paixão (Ai no borei)
FOTO 4 Furyo, em Nome da Honra (Merry Christmas Mr. Lawrence)
FOTO 5 Max Mon Amour
FOTO 6 Taboo (Gohatto)
FOTO 7 O Túmulo do Sol (Taiyô no hakaba)
FOTO 8 Juventude Desenfreada (Seishun zankoku monogatari)




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).