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Filmes da 29ª Mostra tematizam a preservação











Anette Fuks

Há uns quatro ou cinco anos, uma senhora de meia-idade saiu bufando no meio de uma sessão vespertina da Mostra Internacional de Cinema, no Cineclube Vitrine 1, e quase agrediu a mocinha monitora vociferando: “Isso não é filme que se passe! Pura violência, um horror! Por que fazem um filme desses para mostrar aqui?”

Não satisfeita com a bronca, mandou também um e-mail bravo ao Cakoff, ao qual ele respondeu: “Não sou eu que faço filmes; eu trago filmes que são feitos no mundo, por isso que aqui é uma MOSTRA”.

Pode parecer um fato irrisório, um fato isolado, mas a verdade é que ele me fez meditar e refletir. E me acendeu uma luzinha: ora, desde as primeiras Mostras que freqüentava, eu já procurava (sem conscientemente saber) um tema comum, subjacente às aparências dos diversos filmes. É bem óbvio que há 20 anos os temas mais comuns que perpassavam todos os filmes, seja de forma bem nítida, seja “en passant” ou bem de leve, eram temas ligados ao preconceito (em alguns poucos o racial, em outros tantos o sexual, daí o grande sucesso de público que faziam os filmes de temática gay/lésbicas).

Toda essa introdução é para eu começar a falar sobre o que, na minha particular opinião, foi o tema desta 29ª Mostra: o tema da preservação. Para minha felicidade culminou com chave-de-ouro no último domingo com três filmes preciosos: “Os Atores do Teatro Queimado” (Camboja), “Uma Vida Iluminada” (Estados Unidos/Ucrânia) e “Clube da Lua” (Argentina).

Na abertura da Mostra, no dia 20 de outubro, foram projetados o média-metragem da Isabella Rosselinni tentando preservar a memória afetiva do pai e o longa do George Clooney (“Good Night, and Good Luck”) que versa sobre a preservação da liberdade de pensamento na Era Macarthista. Eu poderia ir citando os filmes que vi (não vai dar, foram 124) mas vou ressaltar os mais notáveis, os que mais gostei, em ordem alfabética:

“A Criança” (preservação da vida); “A Dignidade dos Ninguéns” (a dignidade); “A Grande Viagem” e “Esperando as Nuvens” (identidade e tradição); “A Vida no Paraíso” (amor à música, mesmo escondido dentro de si); “Al Outro Lado”, “Todas as Crianças Invisíveis” e “Estrela Solitária” (preservação da identidade paterna); “Lomax”, “The Rising” e “Atravessando a Ponte” (a cultura autóctone em oposição ao estrangeiro); “Batalha en el Cielo” (preservação da integridade individual na briga entre religião e sexualidade); “Caché” (a tentativa de preservar a normalidade em oposição a uma violência que não tem explicação); “Cinema, Aspirinas e Urubus” (amizade); “De Ninguém” (sobrevivência); “Dumplings” (a juventude); “El Viento” (memória familiar); “Elio Petri” (ideais socialistas); “Free Zone” e “Mooladé” (feminilidade); “Humilhação” e “Manderlay” (valores do grupo social); “Marcas da Violência” (felicidade da família); “Memórias Ocultas”, “Noiva do Silêncio”, “O Mundo” e “Off-Screen” (independência individual X instrumentos de convencimento das massas), “O Último Mitterrand” (o socialismo X a globalização); “Paradise Now” (a vida); “Pavão” e “Todos Contra Zucker” (diversidade); “Três Lugares de Melancolia” e “Trilogia – Vale dos Lamentos” (a liberdade do povo grego); e, encerrando, “Uma Mulher Contra Hitler” (liberdade de pensamento).

Agora volto ao último domingo: tanto “Os Atores do Teatro Queimado” quanto os fundadores do “Clube da Lua” estavam tentando preservar os valores da arte (teatro) e também da convivência social para não serem substituídos. Em ambos os casos, por coincidência, por um empreendimento fundamentalmente comercial onde quem desfruta os lucros e a felicidade é só o dono: um cassino.


Anette Fuks é frequentadora assídua da Mostra, acompanha o evento desde a sua primeira edição. Nessa edição, viu mais de 120 filmes.