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21º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Cinequanon)


VI - SESSÃO DARK SIDE

Por Laura Cánepa (e uma mais uma segunada crítica de "Ninjas", por Cid Nader)

SESSÃO DARK SIDE

Mantendo a tradição desde 2004, o "Festival Internacional de Curtas de São Paulo" traz mais uma vez a Sessão Dark Side, voltada inteiramente a curtas-metragens de horror. Neste ano, diferentemente do ano passado (quando foram exibidos nove curtas de vários países), a sessão se resume a cinco curtas, dos quais três nacionais, com duração um pouco mais longa que o normal - ficando cada um torno de 20 minutos.


Começo, então, pelos curtas estrangeiros:

O inglês Coisas Que Deixamos Para Trás ("Things We Leave Behind", de Andrew Brand) traz, numa atmosfera tipicamente gótica, um homem que retorna à casa de sua mãe recém-morta, numa região isolada no interior da Inglaterra, e que começa a ser atormentado por um sininho que toca durante a noite, impedindo-o de dormir. O filme consegue construir uma narrativa que vai progredindo em direção ao puro pesadelo, produzindo um "final-surpresa" que consegue ser perturbador. Nada extraordinário, mas trata-se de um bom curta de horror.

O mesmo não se pode dizer do mexicano Últimos Passageiros ("Ultimos Pasajeros", de Ricardo Soto). Filme de escola, em que o diretor parece confundir uma história de horror com mera coleção de bizarrices e nojeiras numa estação de metrô. A história (?) gira em torno de dois mendigos que vivem num metrô decadente. Um deles tem como animal de estimação um rato pelado, o outro gosta de exibir sua boca desdentada aos passageiros. Apesar do filme ter alguns planos interessantes e provocar uma certa curiosidade no início, acaba se tornando maçante e simplesmente desagradável com o correr dos minutos. Dispensável.

Já os três curtas brasileiros trazem um dado curioso: dois deles são gaúchos, enquanto o terceiro tem como diretor um gaúcho radicado em São Paulo.

Comecemos por Maldita, de Carla Dreyer, produzido em Porto Alegre. Trata-se de uma pretensa comédia de humor negro sobre uma velha má que obriga a filha a ficar com ela até a morte, sob a promessa de deixar-lhe uma misteriosa herança. Além de previsível e sem graça, o filme traz grandes atores (do calibre de Araci Esteves e Sérgio Silva) pessimamente dirigidos, comportando-se de maneira excessivamente histriônica e eliminando qualquer curiosidade que se possa ter sobre seus personagens. Somando, assim, previsibilidade e desinteresse, pode-se dizer que o filme não funciona em nenhum aspecto. Apesar disso, há que se reconhecer a tentativa da diretora de realizar um gênero pouquíssimo comum em nosso cinema: a comédia de horror.

Glossolalia, de Gabriel Honzik, é mais um filme de escola presente na sessão Dark Side. Produzido no "Curso de Realização Audiovisual da Unisinos", em São Leopoldo, traz a história de um jovem (interpretado pelo próprio diretor) que vive com a mãe e o irmão na zona rural, e parece estar possuído por um demônio-serpente. O filme começa muito bem, e pode-se notar influências diversas que vão do cinema japonês de Iamamura até o curta "Amor Só de Mãe" (2003), de Dennison Ramalho. Diferentemente do que ocorre em "Maldita", neste filme os atores estão bem dirigidos, e sua interpretação correta se soma a um talentoso trabalho de fotografia, trilha-sonora e direção de arte. O roteiro, porém, peca por acabar a história cedo demais (antes de concluí-la, na verdade), frustrando claramente o espectador. Se era essa a proposta, sinto dizer que funcionou da pior maneira.

Por fim, o filme mais esperado da sessão, Ninjas, de Dennison Ramalho. Trata-se de uma história de horror vivida por um policial evangélico traumatizado por matar uma criança por engano, e obrigado por colegas a participar do assassinato brutal de um casal. O filme tem causado polêmica no Brasil, em grande parte pela pouca aceitação do gênero horror no cinema nacional, pois trata-se de uma obra que dialoga com grandes tendências internacionais bem aceitas por aqui, como o horror japonês, o "torture porn" e o próprio filme de favela brasileiro, tão influente nos últimos anos. A isso, soma-se um tema recorrente no trabalho de Dennison, que é uma visão horrorífica de imagens religiosas. No saldo final, este é com certeza o melhor filme da sessão, o melhor curta nacional de horror dos últimos anos (desde o anterior de Dennison, "Amor Só de Mãe", de 2003) e provavelmente um dos melhores curtas nacionais deste ano. Vale ir à sessão só para conferi-lo.


Ninjas, de Dennison Ramalho. (Por Cid Nader)

Como seria possível recomendar sem medo algum filme dirigido pelo instigante diretor, Dennison Ramalho? Não seria o caso de mandar que pessoas de bom senso (esse senso comum que nos faz – ao menos a maioria – pensar na vida com prazer, no mínimo, esperança, e vontade de crer na “divindade” nos abençoada, seres humanos, como espécie escolhida e elegida) fugirem com a certeza de que não se arrependerão pelo ato, senão de toda a obra do moço, ao menos, especificamente, desse incrivelmente perturbador (da mente, do inconsciente e da mecânica das funções fisiológicas) Ninjas? Ao menos desse, não seria o caso de alertar estridentemente que fujam as pessoas de paz no coração e bom senso nas artérias?

É o seguinte: esse curta de Dennison é com certeza seu trabalho mais completo. Além de ser o mais pesado. Trata de várias questões complexas da sociedade (sim!) sob a velha (e potencializada) fachada indigesta que “enfeita” seus filmes, e lhe criou fama de maldito (do tipo: ame-o ou deteste-o). Por trás de cenas escabrosas de tortura policial – com uma especialmente fortíssima (a do saltinho) -, o filme denuncia o escândalo de uma polícia abusiva e incompetente no trato humano: e para isso o faz via engano que atinge um inocente, diretamente, e indiretamente, na auto-punição de teor temeroso-religioso que ocorre com o soldado que errou, e o faz contra prováveis bandidos, que acabam merecendo a punição fora da lei que executam algumas figuras do sistema de força das instituições.

Por trás de cenas complexamente bem construídas, há um dedo acusador denunciando o temor que algumas igrejas imputam em seus fieis: desde sessões de descarrego ou exorcismo, que viraram marca registrada dessas entidades neo evangélicas, até o momento em que da imagem de um Cristo crucificado (e aí reside uma bela incongruência que permite perceber no trabalho de “denúncia”a não opção pelos evangélicos especificamente – já que não nutrem o apego por estátuas ou afins) saem (com muita viscosidade) ameças à estabilidade emocional de qualquer um. De dentro desse temor ante “alguém” ou algo que deveria somente proteger, também brotam cenas de pavor na cama, ou no armário, no mais recôndito do lar: que deveria ser sempre o casulo protetor, e que, quando utilizado para apavorar, apavora mesmo (mexe lá dentro de nossos instintos genéticos de proteção).

O filme assusta porque é concretizado com cenas de impacto visual e editado de maneira que a narrativa varie em tensão, sempre e sempre “ameaçando” com a próxima cena. Assusta mais ainda por que revira nossos medos e nos coloca desprotegidos ante nossas instituições. Como recomendar para pessoas de “aura leve” uma pequena joia suja como essa. Pra mim, se interessa: filmaço.

















Leia as matérias deste festival:

I - BRASILEIROS (A a M) - 30 críticas

II - BRASILEIROS (N a Z) - 22 críticas

III - Internacional - 26 críticas

IV - Latino-Americanos - 4 críticas

V - Destaques: o Cinequanon recomenda.

VI - Dark Side - 5 críticas

VII - Sapporo Short Festival - 4 críticas