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21º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Cinequanon)


III- Internacional


Críticas mais recentes: "A Descida", "Conversation Piece", " Música no Sangue", "Retrato de Família".


7.57 AM-PM , de Simon Lelouch. França, 2009. Doc – Cor - 35mm – 11 min. Mostra Internacional > Internacional 05 (FOTO 1)

Iniciado com imagens bem captadas – havia consistência e certeza no trabalho e posicionamento das câmeras -, esse filme de Simon Lelouch passa uma impressão inicial de que irá se instalar sobre o embuste, a enganação da plateia que passa por uma estação de metrô em Paris. As pessoas são bem filmadas, os detalhes de rostos e reações – reações a alguém que toca um violino “à espera” de alguma gorjeta, ou reações agradecidas (por poucos) ante a possibilidade singela da música bem executada -; o processo de montagem por parte do artista bem detalhado e enquadrado, também bem capturado.

Todo esse processo, sem nenhuma explicação durante o seu percurso, indicava algo como uma pegadinha sem graça, com qualidade de filmagem. Ao final, quando os créditos sobem e a explicação do fato revela detalhes e razões, o trabalho se identifica como um documentário (sim, há o embuste, a pegadinha, mas sem pretensões “maléficas” ou de gozação gratuita), com informação de razoável “utilidade”. Vale, principalmente, como modo de constatação de quanto é possível se captar sons e imagens sem que a parafernálias e traquitanas estejam tomando conta do ambiente. Por Cid Nader.


A Coluna (The Spine), de Chris Landreth. Canadá, 2009. Ani – Cor - 35mm – 11 min. Mostra Internacional > Internacional 1.


O norte-americano Chris Landreth chamou atenção no mundo do Cinema de Animação com o curta “Bingo”, em 1998, quando ganhou alguns dos principais prêmios na área. O uso sofisticado da computação gráfica como pouco havia-se visto até então - a serviço de uma pequena história de tortura psicológica - lhe fez merecer tamanho destaque. Tanto que imagens do filme foram usadas para ilustrar o material promocional do poderoso software 3D Maya, no qual nasceu “Bingo”. Um feito para um curta-metragem.

Seu filme seguinte, o documentário “Ryan” (2004) – também na programação deste Festival Kinoforum -, teve carreira ainda mais premiada, inclusive alcançando o Oscar. O virtuosismo estético deste curta é tão exagerado que parece ser pretexto maior que o de contar a trágica história do genial animador canadense Ryan Larkin. O que era pra ser uma justa homenagem saiu como uma peça de portifólio. Visual que impressiona. Pela feiúra.

Neste novo A Coluna Landreth continua a pesar a mão no virtuosismo estético. E foi mais além. Passou de Oliver Stone da animação pra Michael Bay da animação, com uma pitada do sadismo carinhoso à la Todd Solondz. O curta tem tantos movimentos de câmera inúteis, textos vazios e imagens monstruosas, que pouco se compreende do que se tanto fala e mostra. Fica uma pseudo-sofisticação no ar. Landreth parece não perceber que seu texto e suas imagens se batem e se anulam, nunca se somam. Ou não confia na eficiência isolada de cada um (ou sabe mesmo que não se seguram separadas).

Fica aqui mais uma prova de que as infinitas possibilidades oferecidas pelos atuais softwares de computação gráfica tem gerado mais obras grotescas que mágicas, onde a punheta de plugins ganham mais importância que roteiro ou direção. Por Fábio Yamaji.


A Descida, de Shai Miedzinski. Israel, 2009. Fic – Cor – Vídeo – 20 min. Mostra Internacional > Internacional 03.

Com luz típica de quase todos os filmes da região – algo meio chapado, sem muitas nuances ou variações, que acabam por homogenizar as cores como se ali fosse sempre deserto, o que não é, mas algo propiciado por incidência e névoa que teimam em determinar num mesmo patamar as imagens – e a tristeza melancólica que também costuma ser companheira nesses filmes, A Descida representa um mergulho pungente e plácido. Falando da busca de uma pedra para a lápide de um filho morto (pedra e judaísmo, na morte, são símbolos inequívocos de perda, reverência e tristeza), o curta sintetiza em seu tempo um monte de situações que angustiam os seres humanos (há uma desesperança mais aparente da mãe, um aparente apatetamento do pai, e a busca do isolamento tentada sutilmente pela irmã), mas que parecem muito típicas e apropriadas quando sucedidas em Israel e entre os seus.

Todo o clima conspira para que o filme se baste, se conte, se mostre, e entristeça. Sem qualquer tipo de “truque” a mais, ou manipulação mais apurada do material. A beleza do trabalho está porque está. Por Cid Nader.


A Gaiola, de Adrian Sitaru. Romênia/Holanda, 2009. Fic – Cor – 35mm – 17 min. Mostra Internacional > Internacional 01. (FOTO 2)

E eis aqui um bom representante do que é o cinema dessa Romênia libertada de seu maior trauma – pais que passou por vários, milenarmente – que foi o da ditadura de Ceausescu. Parece que foi justamente no cinema que eles encontraram seu maior pendor de expiação dos sofrimentos, e o que tem se constatado é um cinema bastante autêntico, direto, que trata com carinho e bom humor (mesmo quando o assunto é sério demais não há a auto piedade interferindo demais) seus traumas e, principalmente, fazendo dele um modo de reapresentação ao mundo.

A Gaiola é da vertente da simplicidade máxima no modo de filmar (característica repetida nesse surgimento) – sem que isso signifique descuido – e de relatar fatos. Mostra o dia-a-dia de uma família simples, enquanto “desmascara”, por gestos sutilmente intrometidos na trama e nas atuações, atitudes que perfazem um pai de característica superficialmente impositiva e dura, para revelá-lo, aos poucos (por mecanismos de cinema), um “banana” (no melhor dos sentidos). Grande e belo trabalho simples, que fala muito de uma nação e do seu modo de ser – como tem tentado todo esse seu novo histórico na arte. Por Cid Nader.


A Metáfora da Mandioca (Le Métaphore du Manioc), de Lionel Meta. França/Camarões, 2010. Fic – Cor – 35mm – 15 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

Um tanto como possível lenda resgatada, um outro tanto como fábula moderna - que poderia estar remetendo a compreensão dos personagens à dificuldade de concatenar modernidades e procedimentos que se falam por urgência, enxugamento e concisão de palavras, a modos de compreensão e “velocidade” típica de um região que ainda mantém muito de seu quinhão ancestral guardado no DNA -, o que acontece é que esse correto trabalho africano/francês consegue ser simpático, fluido, de fácil assimilação, sem a costumeira chatice intrometida por sublinhas ou sub-morais manifestadas pelos franceses quando colaboram ou se “apoderam” do dom de falar de alguns de seus ex-colonizados.

O engano – ou não, se pensar-se na questão por outras vias mais complexas – gerado pela não compreensão ou fuga da mulher que toma um táxi para ir em busca do marido, em Denver, nos EUA, é bem trabalhado: porque bem filmado/ porque bem editado (correto, nada demais, mas correto); mas principalmente pela naturalidade de todos (e digo todos) os personagens que acabam passando pela frente das lentes. Pra ver sem medo ou outras coisas mais. Cid Nader

Allonz-y! Allonzo!, de Camille Moulin-Dupré. França, 2009. Ani - Cor - 35mm - 07 min. Mostra Internacional > Internacional 09.


Uma animação que homenageia ao Jean Paul Belmondo e um pouco à Nouvelle-Vague, também. As citações da diretora são sempre sutis, e tentam manter equilíbrio como algum mote de partida, e com a fluidez imaginada para criar dinâmica ao modelo de animação escolhida. Animação que caminha na tela pelos “movimentos” de quadrinhos estanques em sua movimentação interior – tentando recriar tecnicamente o que a imaginação fazia (ainda faz) para imprimir vida às histórias em quadrinhos -, nada demais, mas que é bem boa pela qualidade e similaridade como o que se fazia em tempos muito próximos do auge do ator. O que resultou foi mais um exercício estilístico que aproveita para “brincar” um pouco com os conhecimentos dos cinéfilos do que qualquer outra coisa. Por Cid Nader


Beijos e Sussurros (Älä Kuiskas Ystävän Suhun), de Hannleena Hauru. Finlândia, 2009. Fic - Cor - 35mm - 10 min. Mostra Internacional > Internacional 09. (FOTO 10)


O maior atrativo desse filme finlandês consiste na utilização daquela luz típica dos paises encostados nos polos, originada nas noites quase inexistentes dos extensos dias que quase nunca acabam, como um elemento de marca indelével que fica registrada na retina. Talvez, um segundo maior atrativo esteja no clima de um amor que não se concretiza verdadeiramente – há um beijo entre um casal de amigos (talvez mais do que isso) que grafitam a vitrine de uma loja entre um extenso passeio na extensa noite de luz tênue e onírica – que, pelas possibilidades geradas da estrutura especial de uma noite dessas quase ártica, ou pelo desinteresse carnal (muito mais fraternal, ou platônico, ou...), compõe a aura estranha ao comum do mundo mais central.

É bonito, um tanto melancólico como se supõe sempre imagens vindas de lá, carece de “certezas”, mas se completa pela exploração das possibilidades oferecidas, que acabam gerando texturas interessantes, de granulação, como num trabalho experimental. Por Cid Nader


Campos Viajantes (Travelling Fields), de Inger Lise Hansen. Noruega, 2009. Exp – Cor - 35mm – 16 min. Programas Especiais > Imagens Narrativas. (FOTO 3)

Virar uma câmera de cabeça para baixo e filmar qualquer coisa que seja é coisa velha e manjada no cinema que ousa, no cinema de tentativas e invenção? Se a resposta for sim, nada a contestar – pois tal prática é nascida praticamente junto com o movimento das câmeras, junto com a possibilidade de fazer da arte algo que fugisse do simples retratar das estruturas normais pela visão do homem (isso já secularmente). Acelerar os quadros então, é coisa antiga? Bem, desde o quase sempre, um dos truques mais incríveis consistia nessa prática.

O que dizer de um trabalho que tem toda sua ideia “técnico estética” brotada desse binômio de procedimento? Que seria um embuste, um atraso: saudosismo reverencial? Bem, os noruegueses têm bastante tradição no formato dos curtas-metragens e, sabendo disso, dá pra perceber como procedimentos tão “rudimentares” resultaram nesse estonteantemente bom e impactante Campos Viajantes.

Tão óbvio quanto perceber que os “truques” utilizados o foram por ferramentas mais modernas e de capacidade para captação diferenciada, foi a angustiante relação espaço percepção que o filme conseguiu alcançar. É trabalho que remexe de várias maneiras com o sentido do espectador, sendo que boa parcela disso se deve ao inusitado de fazer o cérebro perder a noção de horizonte, chão ou céu – o espetáculo de algumas imagens invertidas faz com que o obtido alcance momentos plasticamente sublimes, e de complexidade intensa para o “organismo” humano. Mesmo utilizar “antiguidades” com ferramentas modernas não teria rendido tanto se a edição do filme não fosse tão justíssima, e se para isso os movimentos constantes dessa perspectiva obtida pela inversão das lentes não viesse como resultado de uma negativa à estagnação das lentes por todo o tempo. Forte.Por Cid Nader.


Conversation Piece, de Joe Tuner. Inglaterra, 2009. Fic – Cor – Vídeo – 07 min. Mostra Internacional > Internacional 03.

Brincadeira técnica, à base de diálogos ríspidos e inquisidores sobre uma lasca num vaso, que ganha ares de confusão e não aceitação de desculpas, mas tendo em conta como sua aposta verdadeira a substituição dos elementos orais comuns, pelo improviso de notas, executados por Rex Stewart, na década 60. As caras e expressões britânicas contribuem para o clima do filme, tanto quanto se é possível imaginar o modelo de humor de lá como o mais indicado para tal tipo de tentativa. Nada demais, mas diverte quem está com vontade de se divertir. Por Cid Nader.


Cuidado Com Essa Besta (Carefull With that Crossbow), de Jason Stutter. Nova Zelândia, 2010. Fic – Cor - 35mm - 02 min. Mostra Internacional > Internacional 09.


O que dá para fazer em dois minutinhos de filme? Alguns gênios de plantão conseguem até deixar impressa sua marca, mas, convenhamos, é um tanto difícil. Jason Strutter imaginou uma piadinha engraçada pelo que gera de expectativa um molequinho com cara de sapeca, tentando flechar uma maçã sobre a cabeça de uma irmãzinha complacente e evidentemente à parte de possíveis consequências no caso de um provável erro. Esticá ao que dá, arranca algumas gargalhadas temerosas, desvia o foco inicial e arranca mais algumas gargalhadas inocentes. Se considerado como um intervalo para respiro entre filmes, funciona como é a pretensão do diretor. Por Cid Nader


De Uma Margem à Outra, de Maxime Desmons. França, 2009. Fic - Cor - 35mm - 17 min. Mostra Internacional > Internacional 09.


Cristophe Nonnoré e seu cinema cantado parece ter feito escola e chegado ao mundo dos curtas. Pra quem não sabe: o diretor, de longas, tem se fixado como um dos diretores interessantes desse século XXI – há quem se oponha ao seu trabalho fortemente, o que não é o meu caso -, por fazer um cinema contundentemente humano e urbano, mas principalmente por ter “criado” uma nova volta das canções entrando abruptamente nas suas tramas, com a diferença de que, no caso, são canções de qualidade literária bem interessantes, que substituem o falar de emoções ou momentos outros dos personagens.

Pois bem, Maxime Desmons, canadense, parece ter gostado da ideia e contou o amor “proibido” de duas mulheres sob truque similar. Porém: as canções, literariamente, são bem mais fraquinhas; o excesso de músicas pelo pequeno espaço do filme acaba criando uma sensação não de estranheza, como nos trabalhos de Honnoré, mas de chatice; e a história, do jeito que é contada e com um exagero na intransigência que se concretiza infantilmente com um não perdão, ao final, acaba parecendo muito mais infantil nas ideias do que seria o desejado. Por Cid Nader


Derbi (Derby), de Paul Negoescu. Romênia/Alemanha, 2009. Fic – Cor - 35mm - 14 min. Mostra Internacional > Internacional 09.


Como disse uma amiga: esses romenos andam mandando muito bem mesmo com seu cinema, não? Sim, diria. E mais: como já citei em alguns textos sobre trabalhos vindos de lá (longas ou curtas), eles parecem ter expurgado rapidamente ao mal que a ditadura de Ceausescu fez ao pais, para passarem a revelar ao mundo facetas de um povo muito autêntico (meio engraçado, meio tristonho, muito família, solidário e um tanto estressado – latinos com toques médio europeu). Filma também de forma muito prática, direta, sem buscar demais camadas de tentativas estéticas mais elaboradas, deixando que a verve e os conceitos se façam as principais veias condutoras de suas tramas.

Dentro de um pequeno lar: um pai, uma jovem filha e seu namoradinho, uma mãe cozinhando e um fiapo de história para deixar com que reações e emoções façam os papeis de elementos principais. Tudo muito simples, muito direto, mas eficiente: para tal, contribui bastante a naturalidade nas interpretações e o clima cenográfico de matiz bastante autêntico. É daqueles cinemas que parecem estra caminhando na contra-mão da modernidade, mas que se resolvem sempre muito bem. Por Cid Nader


Eu Amo Luci (I Love Luci), de Collin Kennedy. Escócia/Inglaterra/Dinamarca, 2009. Fic – Cor – 35mm – 12 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

Sabendo como tirar carinho de dentro da miséria. É assim que se poderia definir sinteticamente esse filme de Collin Kennedy. Apesar de ter vários paises lá nos créditos como produtores do trabalho, é inequívoco que se trata de coisa vinda lá daquele terrenão no meio do oceano que opõe algumas raças (por variados motivos) mas que faz perceber (principalmente por filme como esse) o quanto têm de comum no tratamento das questões humanas. No caso, terrenão que abriga a Inglaterra e a Escócia.

No caso, filme com a maior aura escocesa possível (que não nos percamos pelo nome do diretor), mas que poderia ter sido feito por ingleses, ou até por irlandeses. Eles enxergam suas periferias, seus “pobres”, seus mais desamparados como se enxergassem uma civilização: que enfrentam tudo e conseguem fazer piadas sobre suas dificuldades. O filme é direto, sem enrolação ou tentativas mais ousadas: mas isso é muito da proposta do cinema curto daquela região. Com é proposta de lá juntar essas pessoas no mesmo sofrimento e nas mesmas esperanças. E como é proposta, quase sempre, evitar a tentação da pieguice acenando com o farto material que se apresenta. Por Cid Nader


História de Cão (Chienne d'Histoire), de Serge Avédikian. França, 2010. Doc – Cor – 35mm – 15 min. Mostra Internacional > Internacional 02. (FOTO 7)

O premiado História de Cão é o típico exemplo (e resultado) de como imaginação e boas soluções podem ser tentadas e utilizadas no mundo dos curtas-metragens. Para contar uma inacreditável (pareceria inacreditável nos dias atuais de tanta afeição aos pets) história de extermínio de cachorros na Constantinopla de 1910, o diretor Serge Avpedikian se utilizou do recurso da animação (uma coincidência ou modismo que tem jogado na praça vários filmes documentos abdicando das fórmulas e das caras de pessoas ou coisas filmadas “ao vivo”): mas foi mais inventivo e obteve uma pasmante beleza de onde deveria advir somente horror.

Não foi às animações tradicionais para tal: utilizou por quase todo o tempo cartões postais de então para conduzir a situação e contar o fato, dando-lhes animação e inserindo alguns elementos (desenhos e colagens) para facilitar a fluidez.

À época haviam mais de 60 mil cachorros abandonados nas ruas da cidade e um ministro qualquer da higiene pública resolveu que a solução seria “exportar” metade deles para uma ilha deserta. O resultado pra lá de desumano gerou turismo de pessoas passando de barco ao largo do locak e pinturas feitas sobre a situação. O filme retrata totalmente a situação com esses documentos (e os postais) de forma sóbria e, com citei acima, até bela. A disposição tranquila das informações importa bastante ao final, pois conseguiu fazer com que “técnica escolhida” e os fatos relatados dialogassem harmonicamente e explicativamente. Por Cid Nader


Incidente no Banco (Handelse Vid Bank), de Ruben Östlund. Suécia, 2009. Fic – cor – 35mm – 12 min. Mostra Internacional > Internacional 5. (FOTO 8)


O diretor sueco Ruben Östlund consegue contar com um único plano-sequência uma história com suspense, drama e comédia, de forma simples e muito engenhosa. Trata-se da reconstituição de um fracassado roubo a banco testemunhado pelo próprio diretor. Ele recria tudo o que aconteceu do lado de fora da agência, onde ele mesmo estava, dando ao espectador as mesmas informações e incertezas pelas quais passou. Em uma única tomada Östlund consegue registrar com extrema habilidade aspectos do comportamento humano frente a um acontecimento insólito. O perigo iminente não é suficiente para aplacar a curiosidade das testemunhas, que assistem a cena real do crime com o mesmo interesse de James Stewart em “Janela Indiscreta”. E claro, sem influenciar a ação, pois isso desmancharia o desenrolar natural da ocorrência.

Conheci a produtora do curta, Marie Kjellson, no Festival da Cracóvia em Maio passado. Marushka – como gostava de ser chamada – me revelou que foram gravadas 4 tomadas do plano, sendo aproveitada a última. Posteriormente foram adicionados movimentos de câmera dentro do plano, como suspeitei ao assistir o filme. Estes zooms eletrônicos criados na pós-produção funcionam como uma ‘montagem’ no plano-sequência, que acarreta perda de qualidade da imagem (pixelização, foco doce), mas que aproxima a experiência visual de um vídeo feito em câmera de celular, como o que fizeram os personagens principais do curta. Esta metalinguagem esperta surgida de um defeito visual só faz valorizar esta pequena obra-prima premiada com o “Urso de Ouro no Festival de Berlim” deste ano. Por Fábio Yamaji.


Mobile (Planter des Rèves), de Verena Fels. Alemanha, 2010. Ani - Cor - Vídeo - 06min. Programas Especiais > Mostra Infanto-Juvenil > Mostra Infantil 1

Mobile pode ser observado de duas maneiras: como animação exercida pela técnica do stop-motion (um dos modelos de 3D - o mais nobre) é primoroso; como história obtida é bonitinho por falar muito diretamente ao público bem pequenininho, até o lado B, pois sofre de uma síndrome que ataca cada vez mais algumas "desenhos", que parece exigir que elas tenham seu momento hiper movimentado (a algum momento qualquer de seu transcurso), o que impedirá o espectador caindo duro e seco pelo marasmo...

Bem realizada e sem nenhum porém negativo a ser dito nos quesitos, manipulação, escolha dos materiais (logicamente que por tratar de bichinhos pendurados sobre berços infantis não deveria utilizar massinha, e sim panos e afins - o que foi feito aqui), edição... Bacana quando a "trama" apresenta os tais bichinhos tentando se equilibrar e reações singelas ou assustadas na medida. Chato quando se obriga a ter o tal momento da velocidade enlouquecida (como alguns imaginam filmes de adultos só tendo valor com uns tirinhos ou umas batidas de carros - "pra não cansar, sabe"? Por Cid Nader

Música no Sangue (Muzica in Sange), de Alexandru Mavrodineanu. Romênia/França, 2009. Fic – Cor – 35mm – 16 min. Mostra Internacional > Internacional 03.

Indo lá eu com minhas maluquices e cismas: será que o fato dessa produção romena (que tem acertado com seus filmes em sinceridade e não enrolação) ter coparticipação francesa foi o responsável pelo resultado um bocado mais pitoresco do que o que se desejaria? Pois o filme, para falar de músicas e gente que imagine poder sobreviver pelos dons de seus petits como artistas, ultrapassa os muros que têm colocado a representação fílmica do pais num contexto contemporâneo realista, para representá-lo pela ótica (na realidade pelas percepções auditivas) do pitoresco resgatado lá nas tradições ciganas de parcela de sua civilização.

Quando percebo algum pais “periférico” sendo tratado com gentileza extrema por conta de sua “pureza”, normalmente tem franceses com seu paternalismo camuflado colocando o dedo. Não é mal filmado, não tem equívocos na construção, tem sentido narrativo correto e tudo mais: mas prevalece uma aura de carinho a ser adquirido dos olhares estrangeiros na marra, por conta de suas particularidades e entranhas excêntricas, que somente “nós”, os de fora (no caso, os da França) somos capazes de valorizar e “entender”. Perdeu pontos. Por Cid Nader.


O Cartão Postal (La Carte), de Stefan Le Lay. França, 2009. Exp – Cor/P&B – 35mm – 7 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

Bobeirinha. Sem nada de mais incrível dentro do experimentalismo imaginado, o fato de fazer com que uma figura de cartão postal se apaixone por outra e passe a cometer peripécias na tentativa de alcançá-la – montagens com fotografias, cenários aumentados e construidos, e alguns momentos com cena filmada mesmo e atores fazendo o “congelado”, por exemplo – não é, nem suficientemente engraçada, nem bastante bonita, nem encantadoramente sedutor, nem..., para fazer com que toda a trabalheira de Stefan Le Lay e equipe valessem realmente a pena. Cid Nader


O Homem de Seis Dólares e Cinquenta (The Six Dollar Fifity Man), de Mark Albiston,Louis Sutherland. Nova Zelândia, 2009. Fic – Cor – 35mm – 15 min. Mostra Internacional > Internacional 01.

Essa história de crianças hostis (a tal da maldade infantil) parece que não é privilégio de nações e civilizações mais afeitas aos padrões comuns. Mesmo lá na distante Nova Zelândia (um desses locais em que classifico as pessoas como “povos do isolamento” – situação causada pro condições de distância geográfica ou climática) moleques em bando, quando veem alguém potencialmente diferente do padrão, tendem a partir para a ignorância: como se fosse uma defesa à possibilidade (que prosseguirá na vida adulta com consequencias mais nefastas ainda) do “estranho” interferir na paz causada pelo comum, pelo comodismo, pela mesmice acolhedora.

Um garoto desses um tanto fora do padrão comum (tem mesmo uma carinha meio bela e maluquinha) se vê obrigado, na marra, a deixar de lado seu mundo fantasioso (onde nutre incrível paixão por um super heroi de plástico e preço baixo), para enfrentar a dura realidade dos que a chamam para seu lado. Os diretores do curta foram enxutos e precisos na maneira direta e sem firulas como construíram sua história. Com belo manejo das lentes (tomadas próximas, boa utilização do entrono como suporte imagético das ações, e concisão na edição) filmaram um trabalho tão atual/real/duro, quanto lúdico/infantil/sonhador: lúdico alcançado, principalmente, nas atitudes sonhadoras do menino, e na relação dele com uma colega da classe. Por Cid Nader


Oleg, de Jaan Toomik. Estônia, 2009. Fic - Cor - 35mm - 20 min. Mostra Internacional > Internacional 09. (FOTO 9)


Filmes vindo da Estônia- ou daquelas geladas cercanias russas - costumam conduzir o espectador "estrangeiro" por paisagens desoladas, clima frio (luz acinzentada e pouca vibração no vestuário dos personagens), e pouca explicação vinda da forma oral de compreensão, pois, normalmente, evitam diálogos extensos ou omitem muito do que poderia ser "externado" por pensamentos sonorizados. Jaan Toomik conta aqui uma história muito típica daquela região, pois embarca seu personagem numa viagem de retorno aos tempos de militarização (todo aquele enorme e distante entorno geográfico foi bastante afetado,além de ter sua civilização moldada, por eventos de dominação estrangeira que sempre se fizeram por forte imposição militar - no caso desse, muito mais recente, ainda sob resquícios da dominação do império soviético), para uma espécie jornada de libertação interior.

O filme, captado por luzes frias no início, numa estrada, se serve de uma elipse regressiva simples e conduz, espectadores e personagem principal (que se saberá ser quem é já lá próximo do desfecho), há 25 anos de distância dos dias de hoje, para um quartel, sob iluminação fria, também, mas um pouco mais idealizada em busca de nitidez, para permitir que se conte uma história. A entrada de um jovem soldado em, cena - meio machucado e contando para um "seu amigo" sobre ser evitado, sobre ser excluído e não bem visto por outros, e sobre o que lhe levará a atitudes futuras, tais situações (que podem parecer de pouca monta para quem assiste ao filme, mas que, notar-se-á, é de forte teor humano - daquelas que mexem no âmago de alguém, como poucos de fora podem notar) - coloca sob dúvidas a percepção do espectador, em relação ao que já não parecia nunca mesmo muito compreensível.

A elipse, o clima frio exacerbado, as dúvidas geradas por um não situar definitivamente os personagens de forma didática, conduzem toda a trama a um patamar de ansiedade: gerada nos espectadores que aguardam algo mais palpável. Esse clima de dúvidas e pouca luz (metafórica e literalmente), começa a ganhar potência inacreditável quando um fato se concretiza lá nos momentos passados, fincando finalmente suas bases emocionalmente e impactantemente tristes quando a elipse nos retorna, e à história, para uma situação que se resolverá visualmente, conduzindo almas e incertezas ao mais profundo choque de tristeza. Creio ter sido um dos curtas mais tristes que vi na vida. Por Cid Nader


Passeio de Bicicleta (A Bike Ride), de Bernard Attal. EUA, 2010. Fic – Cor – 35mm – 13 min. Mostra Internacional > Internacional 02. (FOTO 6)

O início desse belíssimo curta-metragem ianque (uma obrinha-prima, se poderia dizer) com um trecho do poema do irlandês Yates, “To Child Dancing in the Wind”, já apontava para probabilidades mil, se observado algum respeito à sensibilidade que a lembrança literária emprestava. Bernard Attal se debruçou sobre a singularidade que é entender as conexões infantis com o mundo. Mais: no poema, que fala de uma criança dançando ao vento, o que se lamenta é a atitude de termos de ser adultos, com saudades do idílico de não ter de enfrentar as forças da natureza com atitudes racionalmente “responsáveis”.

Transportando tema e adaptando para uma discussão tão atual quanto de sempre, o filme embarca num singelo passeio de bicicleta pai e filha, pelas ruas de Nova Iorque, enquanto se faz necessário alongar conversas e compreensões (de ambas as partes, e com cada uma cumprindo seu papel de importância etária nessa “necessidade” de explicações) brotadas das inseguranças da separação de um casamento. Como a citação do poema indica, o passeio se fará para enfocar nas perspectivas e sensibilidade da menina quanto ao assunto.

Como a citação do poema aponta, a conversa toma teor de carinho e compreensão, de tentativas de fazer perceber à criança que seu mundo ainda é o que merece se abastecer de “imagens imaginadas”, de observação fugas do entorno, de imaginação sobre o que ocorre ou sobre as pessoas com quem se cruza, deixando as certezas e dúvidas atrozes para o chato futuro adulto.

A beleza do filme, que incia com essa sensibilidade de um pai que tenta dialogar num patamar singelo necessário (há um momento em que ela pergunta ao pai “se ele acredita no paraíso”, cuja resposta demonstra o grau de relação que está sendo tentado naquele instante, por exemplo) , se concretiza com a qualidade do que foi captado pelas lentes (e pela maneira como foram feitas as imagens). Há a imagem quadrada (igual à das janas de filmes antigos) que ganha força e beleza pela qualidade limpa e colorida das imagens, e que ganha vida com a inserção de pequenos trechos em Super-8; há as opções de posicionamento das câmeras que filmam o passeio (numa que persegue o percurso serenamente posicionada próxima, e com variadas tomadas executadas a partir de diversos ângulos imaginados, surgidos da própria bicicleta); há a observação dos outros (o filme não se fecha em si, e no diálogo entre eles) executada pelas lentes com o olhar da garota). Belo e pacatamente bem resolvido no seu curto período.

P.S.: trecho do poema: “Dance there upon the shore; what need have you to care for wind or water’s roar? Being young.... Por Cid Nader


Retrato de Família (A Family Portrait), de Joseph Pierce. Inglaterra, 2009. Ani – Cor – Vídeo – 04 min. Mostra Internacional > Internacional 03.

Quando os ingleses resolvem que vão fazer filmes estranhos, mais do que estranhos o que conseguem concretizar são trabalhos questionáveis, de mau gosto, sem nenhuma novidade (parece um repetir de coisas que já foram vistas vindas de lá mesmo desde séculos): que causam um certo mal estar. Essa animação em 2D utiliza aquela velha técnica da transformação dos desenhos comuns em monstrengos ciumentos, vingativos, com línguas que saltam da boca, olhares atravessados, enfim, nada a ser realmente louvado – nem, como beleza estética (mesmo com traços elaborados), nem com qualquer modelo de essência, nem como algum tipo de diversão (nem as originadas no susto, no trash). Por Cid Nader.


Salto Mortal (Val Dood), de Arne Toonen. Holanda, 2009. Fic – Cor – 35mm – 09 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

Os holandeses ainda apostam muito em curtas que transitem em cima de uma piada esticada – normalmente previsível, mas que agrada e arranca risos quando se está relaxado o suficiente para não botar a cabeça exigindo algo a mais. Sem nenhum primor técnico a ser destacado – talvez, ao contrário, até com um certo desleixo na qualidade das imagens obtidas e bem “quadrado” no modo de edição -, sem nenhuma novidade na “história” arranjada (se bem que seja provável os realizadores acreditando no non-sénse da situação como suficiente para segurar a barra), sem o aproveitamento maior de outras possibilidades do formato que não a de não cansar porque raramente dá tempo disso, o filme se presta para fazer rir, quem quer somente rir. Se isso é pouco demais ou o suficiente, aí é outra história. Por Cid Nader


Semeando Sonhos (Planter des Rèves), de Pierre-Antoine Carpentier. França, 2009. Fic/Ani - Cor - Vídeo - 15min. Programas Especiais > Mostra Infanto-Juvenil > Mostra Infantil 1. (FOTO 4)

Misturando técnicas de animação em 2D (figuras recortadas em cartolina, manipuladas sobre paisagens desenhadas, nos momentos em que a imaginação dos dois irmãos envolvidos na história flui para lugares mais distante) a atos comuns filmados, o que Pierre-Antoine Carpentier obteve nesse Semeando Sonhos foi o que todo o trabalho destinado a públicos das mais variadas idades deveria: um resultado com muito boa qualidade na definição estética, com boa transição entre as técnicas utilizadas, soluções inventivas (ousadia), remetendo a trama ao gosto mais pueril e humano do espectador.

O cinema de curtas francês tem qualidade quase sempre boa, indo muito mais diretamente ao assunto do que seu cinema de longas. Mais: normalmente sabem tratar de assuntos familiares e infantis com gentileza e carinhos justos, observações tranquilas sobre as situações desenvolvidas e pouco "encafifamento" para complicar as coisas e gerar conversas infindáveis (coisa muito típica como "esporte" favorito daquela raça). Há a confiança do irmão mais novo (doente e hospitalizado) no mais velho; e há a real atenção que ocorre (ou deveria) nesses casos, de ambas as partes, fazendo com que seu mundo se faça uma fortaleza particular, mas que se abre de modo carinhoso para uma figura estranha a tal conchavo (um homenzinho da limpeza). Bonito, bem feito, e para todos os gostos. Por Cid Nader


Tussilago, de Jonas Odell. Suécia, 2009. Ani – Cor – 35mm – 14 min. Programas Especiais > Documentários Animados.

Utilizando técnicas que sugerem trabalhos de animação sobre imagens filmadas, Jonas Odell realizou um curta-documentário. Moda entre as modas, aproveitar o formato para realizar docs via variados modelos de animação parece estar se tornando um fenômeno. Nesse caso um porém se estabelece de maneira complexa: a animação é bastante virtuosa e boa (complexa e exigente da atenção pelas diferentes tentativas executadas, pelo não alinhamento, pela variação de mecânicas utilizadas), o que acaba implicando em uma “briga” das nossas atenções (nós que não falamos sueco, afinal de contas), entre tais procedimentos e o importante texto condutor da história.

O filme é muito bom, e tal problema acaba fazendo com que se tenha vontade (talvez necessidade) de uma revisita. A sugestão é para que se mantenha (no caso da possibilidade dessa volta) mais a atenção nos fatos narrados numa primeira vez, para que se possa aproveitar as possibilidades empregadas na execução da animação em si, numa segunda, e para que tal fato seja o que mais fique impresso na memória. Por Cid Nader.


Thomas, de Alex Windler. Inglaterra, 2010. Fic – Cor – 35mm – 14 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

Um filme que fala de excessos de, culpa infantil, agressividade gratuita (aparentemente gratuita, se for dado o desconto da difícil vida no campo), e abusa do cenário e climas locais para realçar as coisas que ocorrerão. Aparentemente, o que o diretor Alex Windler quis “passar” foi sobre intransigências e ensinamentos duros que deveriam ser abortados como prática. A história, por se passar no campo, abusa dessa condição, para além do clima e cenário citados, impor a sensação de atemporalidade, o que poderia remeter a queixa a qualquer momento outro histórico.

Não é um filme agradável de se ver, e não pela questão abordada, mas pelo fato de parecer que toda sua estrutura visual foi construída para que o peso parecesse mais opressivo, e essa opressividade e agressividade ganhassem reforço junto ao público, além da possibilidade de discernimento pessoal de cada espectador. Se resolve bem dentro do tamanho, mas com jeito de lição a ser passada. Cid Nader


























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