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21º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Cinequanon)


II - BRASILEIROS (N a Z)


Críticas mais recentes: "Sofá Verde", "Não, João!", "Nalu", "Naiá e a Lua".


Naiá e a Lua, de Leandro Tadashi. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35 mm – 13 min. Programas Especiais > Mostra Infanto-Juvenil > Mostra Juvenil.

Filme que agrada em cheio à criançada – vi algumas delas angustiadas e até choramingando em alguns momentos de maior sofrimento da garotinha Naiá -, não pode ver tal resultado positivo junto ao seu público-alvo simplesmente ser esquecido por conta de seus problemas técnicos – problemas que envolvem basicamente opções estéticas, de luz difusa, captações (difíceis algumas, pois tomadas debaixo d'água) com senso parecido ao de obras que trabalham sob ditames do grande cinema de entretenimento americano, atenção a detalhes que não acrescentam muito à buscada beleza plástica.

É evidente que a intenção de Leandro Tadashi era principalmente a de falar diretamente com um público infantil ansioso por coisas que falem de floresta, de natureza, de coisas ecologicamente corretas, e também de fazê-lo se emocionar com as expressões delicadas e autênticas da indiazinha (que na lenda original gerou o folclore do surgimento da Vitória Régia nos rios amazônicos). Alcançou esse intuito, e quem quiser que conte outra história. Por Cid Nader

Nalu, de Stefano Capuzzi Lapietra. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35 mm – 05 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 02.

Nalu prescinde totalmente da palavra ou de qualquer outro organizador mais “racional” ou de condução mais obrigatoriamente definida, para deixar uma boa marca na memória. Filme de imagens, basicamente, aproveita a ocasião para revelar alguns grandes momentos de captação delas, com acompanhamento seguro e bastante elaborado das suas lentes. Talvez não haja nada mais imagético em nosso pais do que a visão do mar. Talvez não haja nada mais caracterizante como “marca nacional” do que essa interação das nossas pessoas com ele (o mar). O diretor Stefano Capuzzi conseguiu concretizar seu filme – que é um belo exercício de fotografia, na realidade e principalmente -, aproveitando essa relação de identidade, fazendo de um garoto e de sua prancha nossos representantes sensoriais no local, e deixando com que as indefinições de certezas narrativas tradicionais (oralidade, história, dramatização) acabassem como “Uma espécie” de complemento ao filmado. Há um momento especial bom, onde a câmera acompanha a trajetória do menino numa curva, foca-o próximo, e encerra sua “perseguição curiosa” deixando no ar cheiro e luz do que se vê. Por Cid Nader

Não, João!, de Maurício Hirata Filho, Renato Nery (SP), 2010. Fic – P&B – Vídeo – 12 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 02.

Típico trabalho que apesar de parecer uma simples brincadeirinha consegue mais do que a empatia fácil que busca com o público. Espertamente aproveita-se a necessidade pesquisadora de uma criança que descobre a liberdade quando inicia suas primeiras caminhadas pelos próprios passos, passa-se à perseguição por lugares repletos de armadilhas como são as ruas de São Paulo, gruda-se o microfone em suas parcas falas e, terreno pronto para arrancar risadas e simpatias.

Com edição que pontua as paradas com um truquinho sonoro, o filme ganha mais potencial cômico, e adenda os bons momentos da montagem, que possibilita uma dinâmica bem interessante pelos cortes abruptos e costuras que fazem as sequencias ressurgirem em outros momentos – de geografia diversa, iluminações variantes, sons ambientes conflitantes -: sem perder a grande sacada condutora que é João e seu modo de conduzir a jornada. Por Cid Nader


Não Me Deixe em Casa, de Daniel Aragão. Brasil (PE), 2009. Fic - P&B - 35mm - 18 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 10.

Da safra do cinema recifense, sem dúvida, mas com o pé mais ainda na "modernidade" do que o fator que mais incentiva a cidade e sua produção a serem como são, que é a óbvia necessidade de se auto afirmarem sempre como uma "metrópole antenada", uma urbe - com aqueles aspectos que perpetuam tradições, mas sempre abrindo espaços para que as influências e tendências mais "mundiais" ditem o modo de assimilação e readequação dessas tradições.

Só que a safra recifense que botou o cinema de lá dentro do que há de mais importante na arte no Brasil - entre pecados graves e virtudes possantes - parecia sempre saber como manipular as tecnologias que buscavam como modo de aproximação do todo global para tentativas minimamente interessantes e inconformadas. Aqui, em Não Me Deixe em Casa, Daniel Aragão cedeu - ou talvez nem tenha pensado de outra maneira desde o início - aos modismos mais superficiais e detestáveis, para concretizar um trabalho que fala muito dentro das "modas" jovens (a ostentação e o voyeurismo via internet), com poucoi estofo ou questionamentos relevantes. O filme se deixa levar por alguns aspectos complexos da cultura jovem atual, sem parecer que o faz para alcançar discussões pertinentes a mais do que revelar "como pode ser legal filmar tudo isso com câm,eras de celular, ou lap-tops, ou pcs, ou...". Restou uma grande sensação de aproveitamento da rudeza urbanóide para sua utilização de forma gratuita e somente estética. Por Cid Nader.


Ninjas, de Dennison Ramalho. Brasil, 2010. Fic – Cor – 35mm – 23 min. Programas Especiais > Dark Side > Programas Brasileiros > Mostra Brasil 10. (FOTO 7)

Como seria possível recomendar sem medo algum filme dirigido pelo instigante diretor, Dennison Ramalho? Não seria o caso de mandar que pessoas de bom senso (esse senso comum que nos faz – ao menos a maioria – pensar na vida com prazer, no mínimo, esperança, e vontade de crer na “divindade” nos abençoada, seres humanos, como espécie escolhida e elegida) fugirem com a certeza de que não se arrependerão pelo ato, senão de toda a obra do moço, ao menos, especificamente, desse incrivelmente perturbador (da mente, do inconsciente e da mecânica das funções fisiológicas) Ninjas? Ao menos desse, não seria o caso de alertar estridentemente que fujam as pessoas de paz no coração e bom senso nas artérias?

É o seguinte: esse curta de Dennison é com certeza seu trabalho mais completo. Além de ser o mais pesado. Trata de várias questões complexas da sociedade (sim!) sob a velha (e potencializada) fachada indigesta que “enfeita” seus filmes, e lhe criou fama de maldito (do tipo: ame-o ou deteste-o). Por trás de cenas escabrosas de tortura policial – com uma especialmente fortíssima (a do saltinho) -, o filme denuncia o escândalo de uma polícia abusiva e incompetente no trato humano: e para isso o faz via engano que atinge um inocente, diretamente, e indiretamente, na auto-punição de teor temeroso-religioso que ocorre com o soldado que errou, e o faz contra prováveis bandidos, que acabam merecendo a punição fora da lei que executam algumas figuras do sistema de força das instituições.

Por trás de cenas complexamente bem construídas, há um dedo acusador denunciando o temor que algumas igrejas imputam em seus fieis: desde sessões de descarrego ou exorcismo, que viraram marca registrada dessas entidades neo evangélicas, até o momento em que da imagem de um Cristo crucificado (e aí reside uma bela incongruência que permite perceber no trabalho de “denúncia”a não opção pelos evangélicos especificamente – já que não nutrem o apego por estátuas ou afins) saem (com muita viscosidade) ameças à estabilidade emocional de qualquer um. De dentro desse temor ante “alguém” ou algo que deveria somente proteger, também brotam cenas de pavor na cama, ou no armário, no mais recôndito do lar: que deveria ser sempre o casulo protetor, e que, quando utilizado para apavorar, apavora mesmo (mexe lá dentro de nossos instintos genéticos de proteção).

O filme assusta porque é concretizado com cenas de impacto visual e editado de maneira que a narrativa varie em tensão, sempre e sempre “ameaçando” com a próxima cena. Assusta mais ainda por que revira nossos medos e nos coloca desprotegidos ante nossas instituições. Como recomendar para pessoas de “aura leve” uma pequena joia suja como essa. Pra mim, se interessa: filmaço. Por Cid Nader


O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Sung Sfai. Brasil (SP), 2005. Fic - Cor - 35mm - 2005. Programas Especiais > Curta o Sexo.

Baseado num texto de Hilda Hirst, amparado no timing da atriz Iara Jamra e apresentado para nós com um notável movimento circular de câmera – que capta, de cima, a personagem principal, nos primeiros momentos do curta, deitada de bruços e escrevendo suas picantes revelações em um diário cor-de-rosa -, esse filme já sairia na frente pelo inusitado e pela qualidade atípica da literatura da escritora. É um trabalho no qual o bom desempenho interpretativo se faz imperante e Iara não nega fogo. A construção – que embrulha, habilmente, os tempos diversos contidos na história – se faz de maneira a preservar algumas surpresas para os momentos decisivos. Pode chocar um pouco os mais puritanos - será? - mas, se eles ainda existem, recomenda-se calma e persistência até o final.Por Cid Nader.


O Sarcófago, de Daniel Lisboa. Brasil (BA), 2010. Doc - Cor - 35mm - 19 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 10.

Estranho documentário, que começa com uma imersão no "suposto" modo de pensar do personagem retratado - com disparidades e incongruências de fluidez no trato comum das coisas, no andar, no fazer - e que se aproveita de tamanha ligação ao não comum, ao não normal, para o excesso num exercício de captação e edição tão veloz quanto truncado, e muito voltado a execuções e práticas de tendências e modismos. Conforme o tempo avança e passa-se a intuir e perceber - intuição que vem do acúmulo de informações visuais, e percepção que toma rumo por alguns vociferares e atitudes mais concretas reveladas - o que ocorre e quem seria aquele ser estranho perseguido pelas lentes, o curta passa a conseguir mais atenção e carinho, e passa, também, a ganhar mais consistência e segurança: a partir desse dado e inexato momento, O Sarcófago ganha forma assimilável.

Assimilável e boa. Daniel Lisboa - que poderia deixar de lado alguns dos truquezinhos utilizados lá no início - revela uma dessas pessoas que parecem malucas, e com certeza transitam em ondas fora do padrão comum. O seu personagem reside em Salvador, faz as funçõess de garimpeiro urbano para a feitura artesanal (um escultor, um moldador) de coisas que possibilitam sua excludência desse mundo comum e mereceu mesmo uma documentação. Muito do que se constata ao final do trabalho é pertinente, pois mantém conexão com o não normal do rapaz, e se percebe concretizado com destreza e bom manuseio das ferramentas de cinema. No geral, um bom resultado. Cid Nader.


Obra Prima, de Andréa Midori Simão, Thiago Faelli. Brasil (SP), 2009. Ficção - Cor - Vídeo -23 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 01. (FOTO 1)

Obra Prima é o típico curta-metragem paulistano moderno – isso é uma constatação, não uma crítica ou adjetivação pejorativa. Como ficar indiferente a um filme que dialoga tão francamente com o público, como esse? É evidente a empatia que causa o modo de construção jovem e urbano, com plateias que veem, e (ou) idealizam, e (ou) percebem signos indisfarçáveis à distância, da capital de São Paulo. Utilizando técnicas modernas na confecção – com muito “enquadramento ligeiro”, com privilégio no enfoque de construções e trechos viários complementando esteticamente as artes – que é o mundo no qual trabalha a sensível e arrebatadora personagem, com dinâmica meio “indie” no ritmo narrativo... -, com “edição cool”, os diretores se revelaram competentes e suficientemente antenados para reproduzir coisas e modos de sua geração e localização geográfica.

Tanto não há uma necessidade de engajamento com a história clássica de nosso cinema “curtista”, como se revela, também, uma distância do institucionalizado pela modernidade urbana mundial, por conta de um humor ligeiro e um apego poético, bastante singulares e próprios da gente. O que eles conseguiram fala diretamente aos mais jovens, mas é capaz de arrancar sorrisos e identificações com qualquer um, sem nenhum momento de rancor ou indiferença: o que, convenhamos, não é ato de fácil concretização. Por Cid Nader


O Plantador de Quiabos , de Coletivo Santa Maria. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35mm - 15 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 05. (FOTO 2)

Filmes vindo de “Coletivos” têm cada vez mais me surpreendido positivamente. Como esperar que variadas mãos – normalmente inocentes no assunto cinema – consigam manipular de maneira razoavelmente unida para criar algum tipo de organicidade em trabalho que merece sempre um centro determinador (o diretor de cinema)? Pois bem, assistir a esse bem humorado e singelo O Plantador de Quiabos, pode resolver tais dúvidas como um exemplo de, se não explicar o como, que é possível tal finalização.

O curta é filmado de maneira despretensiosa, com luz natural interferindo diretamente no resultado da fotografia (luz meio chapada de interior campesino, mas ajustadamente utilizada em suas complicações, e com algumas tomadas abertas bem interessantes), não é malucamente ousado na edição (mas faz com que a velocidade da narrativa tenha seus tempos bem colocados e decisivos no andamento), e utiliza o lindo 35mm. Não vai às tentativas demais como seria de se esperar de várias cabeças (mãos), ainda mais trabalhado no tentador campo dos curtas metragens, mas é corretíssimo (e muito bom na ideia que gerou mote da história).

O resultado é um trabalho bem concretizado, alegre, dinâmico e simples – um bom exemplo de como pode se comportar um trabalho curto. Por Cid Nader.


Poética, de Sidney Schroeder. Brasil (RJ), 2009. Exp - Cor - Vídeo – 05 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 10.

Sidney Schroeder conseguiu atingir seu intuito, mais estético do que questionador, nesse seu curta de forte apego imagético: atingiu variados campos de boa resolução entre a saturação de cores em ambientes planejados (ou escolhidos a contento) e o contraste com as imagens em TVs (lap-tops, celulares...), normalmente em PB. A discussão sobre a interferência e a ingerência da TV sobre outras mídias e sobre o cotidiano, fica num campo reduzido, restrito, pouco amplo na busca. Vale pela estética.Por Cid Nader.


Preciosa, de Eliane Coster. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35mm – 11 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 05. (FOTO 3)

A diretora Eliane Coster já tem certa bagagem no ramo. Agora fez um filme que passaria mensagem estranha? Preciosa é uma garota que mora na cidade de São Paulo e vai á escola sempre de tamancos de madeira. O desenrolar da história – entre singeleza na proposta visual e acerto na escolha da atriz principal – sugere um desfecho que para alguns pode parecer coisa de moralismo provinciano. Será?

Muito mais do que crer no que desfecho optado como uma aposta nesse tal moralismo, penso ter percebido no filme uma oportunidade de falar de cotidianos urbanos correntes (com suas violências, mas também com detalhes da beleza difícil – mas existente – que pode ser captada por olhares e lentes sensíveis, brotada do concreto), fato do qual se aproveitou Eliane para citar uma dessas dificuldades: que gera, tanto medo nas pessoas abordadas pelo filme, como observações simplistas sobre as opções escolhidas para o desenlace final da trama. A impressão mais permanente foi a de um trabalho que fugiu dos abusos estéticos e aproveitou a técnica para contar sobre uma menina, no meio de um cotidiano tipicamente urbano: com seus medos e suas possibilidades de escape. Bonito pela opção do “pouco”. Por Cid Nader.


Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho. Brasil (PE), 2009. Fic - Cor - 35mm - 23 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 04. (FOTO 4)

Vou começar superlativamente um comentário sobe filme de Kleber Mendonça Filho: ele conseguiu se superar mais ainda, e parece estar querendo alcançar o posto de maior curta-metragista em atividade: no mundo, não somente em nossas terras tupiniquins. Diretor de clássicos no formato havia realizado com seu último trabalho no tamanho diminuto, “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, para mim, o maior curta de amor da história do cinema. Quando se pensa que o moço poderia se acomodar, ou não conseguir alçar voos maiores por conta de ser impossível, vem agora com esse Recife Frio, do qual havia ouvido maravilhas, e pelo qual ansiava.

Bem, o que vemos exibido na tela é simplesmente é uma condensação expandida dos que pensa Kleber de cinema. É filme de edição, de enorme capacidade captação, de “humor fingido” e, principalmente de denúncia feita com tapas de luvas de pelica. Quando o filme inicia com um meteorito caindo sobre sua Recife e, na sequência, vemos uma câmera com estilo noticioso filmando cientistas tentando analisar algo do objeto celeste e discutindo sua “desimportância” quanto a futuras implicações, estabelece-se a questão: o que virá por aí. Pois bem, o diretor, bem ao seu estilo, inicia seu filme apontando dicas, mas nunca entrega o que está almejando tão rapidamente. Tal sentido de organização, já por si só, indicaria que um realizador de conhecimento está por trás de tudo: quando se trás procedimentos “camuflados” como os que ele executa para a curta minutagem do formato, passa-se a admirar muito mais quem consegue solucioná-los, pois tais mecanismos de procedimento, imagina-se, só terão boa resolução com espaço e tempo para sua concretização.

A partir daí, e aproveitando o mote lançado da “câmera telenoticiosa”, o diretor passa a executar um filme de dinamismo avassalador. Coloca um narrador argentino falando para seu país de um fenômeno ocorrido na capital pernambucana, que teria resfriado sua temperatura a algo digno de países do centro europeu. Recife esfria no filme, pinguins se mudam para lá, as praias são abandonadas, as roupas mudam, os artesanatos mudam, as pousadas esvaziam, as religiões evocam explicações e piedade... Passa-se a participar de um exercício de humor corrosivo e impressionante por sua imaginação e por sua confecção técnica. Contando a história surreal, a ideia do formato de noticiário é explorada ao máximo, com Kleber explorando fortemente manias e vícios televisivos, aproveitando a sacada para embutir trechos hilariantes dos mais impensáveis em diretor de feição tão contida – isso para quem não o conhece. Há sarcasmo no humor, e sarcasmo faz rir: a cena de um Papai Noel feliz e contando suas agruras anteriores é antológica (estranho esse termo, mas vá lá).

Só que num certo trecho, aquele Kleber Mendonça politizado e apaixonado pela sua cidade assume o posto, com filme passa a contar sua verdadeira razão: o diretor nunca se conformou com a verticalização, com o aburguesamento, com shoppings substituindo o lazer natural da região. Sutilmente – a empregada sendo “beneficiada” com a suíte do rico apartamento, por exemplo -, ele oferece suas ideias, seus preceitos justos, mas, percebe-se, o está fazendo estritamente dentro da linguagem do cinema. O humor não é abandonado, volta-se a rir, continua-se a se impressionar com o excesso de imaginação das imagens criadas, mas, já aí, o recado está dado e impregnado. É tudo inimaginável saído da cabeça de um simples mortal: quanto mais inimaginável ainda realizado e transformado em cinema por um mortal cineasta. Mas é Kleber. Por Cid Nader


Saliva, de Esmir Filho. Brasil (SP), 2007. Fic - Cor – 35 mm – 9 min. Programas Especiais > Curta o Sexo.

Esse é um curta que - sob pretexto de contar uma simples (e bela) história de rito de passagem, daquele momento muito específico e marcante na alma das adolescentes em que a primeira sensação real de contato com o sexo oposto se dará fisicamente através de um beijo na boca - se faz, na realidade, de trabalho de experimentação "tátil" e visual, de tentativa de alcançar sensações por conta dos usos de texturas; de obra que o diretor concretiza com, no mínimo, duas pretensões:a pretensão evidente de contar sobre esses momentos adolescentes, que resulta bastante sensível - apesar de um tanto "over" no quesito viscosidade: a pretensão estética - digamos assim -, das texturas, cores, nuances, impressões, completada pelo firme e decidido modo de filmar e de editar (esta sim é surpreendente pelo obtido). Resta saber o que é de mais pertinência para o gosto do espectador, e se a evidente superioridade estética é suficiente para marcar. Em minha opinião, um trabalho muito superior ao badalado, "Alguma Coisa Assim". Um diretor que se estabelece (já fez até um longa) e faz de sua carreira algo entre buscas estéticas e curiosidade sobre a juventude. Por Cid Nader.


Sebo, de Lucas Cassales. Brasil, 2009. Fic – Cor – Vídeo - 08 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 09.

Aparentemente, os filmes da PUC do Rio Grande do Sul vêm se estruturando para apresentarem resultados que saltem aos olhos pelo poder de imagens fortes e misturas excêntricas de cores (parecem apostar forte no trabalho sobre texturas visuais). Isso deveria soar como bons augúrios – ainda mais por tratar do mundo estudantil atuando para tal -, mas os exemplares que vi e me marcaram o fizeram por não parecerem nada mais do que exercícios um tanto gratuitos e “grandiosos”.

Sebo parece o tempo todo estar querendo se impor por suas virtudes visuais, por seu (inequívoco, sim) poder obtido pela composição de cores que se contrastam em torno dos contrastes dentro do ambiente em que se passa. Não é um filme que tente algo a mais do que o exercício “primoroso”, e isso não é o bom. Por Cid Nader.


Sobre Distâncias e Encontros de Alguma Tristeza, de Alberto Bitar. Brasil (PA), 2009. Exp - Cor - Vídeo - 6 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 05.

Resultado correto obtido por Alberto Bitar nesse trabalho que não é nenhuma novidade estonteante ou revolucionária, mas que exige muita paciência e bom conhecimento dos meandros das lentes e suas sutileza nas horas de se aglomerar e distribuir luzes e cores. Com Câmera estanque captando as imagens dentro de um apartamento, e velocidade acelerada no momento da montagem, o que ele conseguiu, além faz óbvias variações cromáticas de iluminação sobre objetos imobilizados, foi um resultado de rememorações – aí sim, pela essência desejada de ser atingida, e não pela técnica utilizada – bonito e com “matiz” de forte emoção. Por Cid Nader


Sofá Verde, de Arno Schuh, Lucas Cassales. Brasil (RS), 2009. Fic – Cor – 35mm – 08 min. Programas Brasileiros > Cinema em Curso > Cinema em Curso 01.

Sob a simplicidade de imaginar dois rapazes carregando um sofá (verde, evidentemente) pelas ruas de Porto Alegre, a esmo, sem diálogos e com mote que permite, remete, a observação do entorno e da paisagem como uma viagem quase existencial, contemplativa, fica-se quase óbvio que a atenção direcionará a avaliação de quem vê Sofá Verde (afinal de contas) a senti-lo como uma obra leve, de teor quase lúdico, e um tanto irônica, também.

O final, ao som de um aparelho portátil, sobre um muro que dá vista para uma imensidão de água, e com uma leve chuva entrando de gaita na “trama”, completam a perambulação pelas vias, como imaginário da observação fugaz sobre o filme indica: viu-se uma história leve, de teor quase lúdico e, um tanto irônica, também. Só que os diretores engendraram tal situação sob observação de lentes rígidas (estancadas) e rigorosas nessa opção de captar sem o auxílio de seu (das lentes) movimento. Acaba resultando, além do tal filme quase lúdico... um belo exercício de escola, quando se pensa nos ensinamentos que deveriam chamara a atenção para um privilégio das questões técnicas (que, quando um tanto “ousadas”, renderão sempre bons produtos estéticos). Por Cid Nader.


Sweet Karolyne, de Ana Bárbara Ramos. Brasil (PB), 2009. Doc - Cor - Vídeo - 15 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 04.

Antes de ver Sweet Karoline ouvi diversos comentários sobre a “fofura” que era o documentário que retrata uma menina meio “que fenômeno”, prodígio para certas exigências menos interessadas em verdadeiros prodígios e mais interessada em reações anormais que aproximam crianças de comportamento adulto de pouco monta e importância relevante a um pequeno meio. Reações anormais talvez seja um termo estranho e de impacto forte à compreensão, mas o que quero dizer é que Karolyne é produto semelhante àquela menininha que faz sucesso tremendo no programa do Sílvio Santos (Maysa, é isso?), de rara capacidade e inteligência, mas utilizada para satisfazer baixas expectativas. É isso: a diretora Ana Bárbara intima, questiona a menina, com perguntas de caráter absolutamente ligados à sua vida e ao “trabalho” do pai. que imita Elvis Presley, e com o fechamento ostensivo (e óbvio deflagrador da intenção em realizar o documentário), no qual ela dança tal qual uma adulta no palco, nos momentos de apresentação do show. Para mim é pouca coisa e, até, um tanto fora de boas normas de conduta ante o entrevistado (por conta de permitir que alguns equívocos infantis – como o inglês equivocado – sejam mote de sedução da plateia que concorda com tal. Por Cid Nader


Tempestade, de Cesar Cabral. Brasil (SP), 2010. Ani - Cor - 35mm - 10 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 03. (FOTO 5)

Falar de Cesar Cabral nos dias atuais é certeza – ao menos até hoje – de que se falará de trabalho de animação com qualidade superior. Esse seu novo – com um stop-motion excepcional, onde mistura a clássica massinha dos personagens à madeira da composição do interior do barco, além de um plástico (parecia plástico) para criar o movimento do mar revolto (coisa que me remeteu instantaneamente à relembrança de cenas de “E La Nave Vá”, de Federico Fellini) – trabalho parece já ter nascido clássico desde o momento em que foi imaginado pelo diretor.

Para citar aqueles seres solitários, que são os melhores para instalarem clássicos nas nossas memórias, Cesar foi a um clássico da música, “Eleanor Ribby” – que fala de pessoas solitárias, da solidão do afastamento, da busca, do isolamento do túmulo, da não volta – e contou a saga de um marinheiro, que deseja lutar contra as intempéries, contra a obviedade "que grita que ele nunca conseguirá" (são diversas as razões para tal negativa do destino). O filme é trabalho dos mais elaborados no quesito manipulação dos materiais: fato esperado em diretor e equipe que são pacientes o necessário na certeza da importância da calma para a confecção de trabalhos que mereçam a atenção. Surpreendente – só não mais ainda, porque já se sabe da capacidade e da imaginação dele para criar movimentos e “falsidades” que fazem de seus filmes obras recheadas de zooms e travellings, criando obras de consistência dramático-narrativa rara – pelo alcance das manipulações obtidas com as lentes (pequenos e lentos “zooms”; “tomadas” por ângulos inusitados; variação na iluminação; ventos que movem pontas de papel ou os levam pelas janelas...), o que faz com que esse trabalho consiga um pulo a mais na busca da movimentação perfeita (o que poderia parecer inacreditável)do que já havia ocorrido com o grande “Dossiê Rê Bordosa”.

Não há como não se emocionar com o trabalho, onde a angústia e a solidão do velho marinheiro são potencializadas pela fotografia da amada enchendo a tela vez por outra, ou pela sonorização criada por música clássica (lembro de ter lido o nome de Phillip Glass, mas creio ter lido o nome de um outro autor, mais antigo): valendo ressaltar um trabalho e cuidado primoroso na confecção sonora de tal qualidade, que faz essa animação uma das mais bem “equipadas”, nesse sentido, dentro de nossa cinematografia. Há ainda a busca da similaridade – da homenagem, da referência – à obra plástica de Willian Turner, por alcançar, principalmente, além dos traços e algo da luz, tipos de textura executadas por esse.

Quando o filme termina, a retina imediatamente reage ao que adquiriu pelas mais variadas execuções realizadas e tentadas: e a alma sai com a angústia que o filme emprestou da música dos Beatles, do significado da solidão, da certeza de que há que tentar, mesmo quando se sabe que não se irá alcançar. Quando Tempestade termina, percebe-se que se pode falar à nossa alma pungentemente, mesmo com bonequinhos, com massinhas, com madeira – creio que isso seja uma e das possibilidades da essência da arte e dos caminhos que pode buscar para alcançar objetivos. Por Cid Nader


Todos São Francisco, de Charliane Oliveira. Brasil (CE), 2009. Doc - Cor - DV - 16min. Programas Brasileiros > Formação do olhar > KinoOikos Formação do Olhar 02

Esse documentário, mesmo vindo de uma oficina para curtas (portanto, realizado por, supostamente, aprendiz no ramo), contem em si um bocado das dinâmica e vivacidade que se têm feito algumas facetas mais reconhecíveis no cinema curtametragista realizado no Ceará. O Estado, já consolidado como um dos focos recentes do cinema brasileiro (fato que ganhou potência desde os meados da primeira década dos anos 2000. copm a explosão das realizações no formato "curta"), vem demonstrando que seus realizadores são bastante atentos ao modo técnico de confecção da arte, e Charliane, não sei se por "herança genética" ou por observação, concretizou seu trabalho com,bastante cuidado nos quesitos que compões essa linha fundamental da construção cinematográfica.

Para contar a história de uma espécie de mãe-coragem, com características não tão "edificantes" assim - quando se pensa no conceito geral, que faz pensar numa mãe que cria uma grande levada de rebentos como pessoa fiel a um só gerador (no caso, cada um de seus filhos foi gerado por pai diferente) -, a diretora se utilizou dos melhores trejeitos a serem aprendidos, e entregou um filme bastante bem fotografado (com muita imaginação, possibilitando angulações diversas no início de cada recorte), bastante bem montado, com dinamismo e fluidez (sem ser careta), e boa captação de som: o que possibilitou, também, espaço bem justo para as explanações dos "personagens" que passaram frente seus microfones. Belo e promissor início.Por Cid Nader.

Um Par, de Lara Lima. Brasil (SP), 2010. Fic - Cor - 35mm - 09 min. Programas Brasileiros > Cinema em Curso 01.

Um filme que não vai a fundo demais em nada (óbvia intenção da diretora) representando, na realidade, um exercício de cinema sobre situações do cotidiano entre um casal. Lara Lima "brinca" nesse seu filme com o cotidiano apaixonado, ou não, aproveitando o ensejo para mostrar modos de edição e de filmagem. Modos de iluminação – bem boa -, e atenção às possibilidades dos atores que deveriam merecer mais essa atenção das câmeras: fato que ela exercita fortemente aqui. Um exercício escolar.Por Cid Nader

Vai Dar Samba, de Humberto Avelar. Brasil (RJ), 2010. Ani - Cor - Vídeo - 11min. Programas Especiais > Mostra Infanto-Juvenil > Mostra Infantil 1

Quando vi que esse curta de Humberto Avelar recebeu o prêmio de melhor "técnica de animação", num festival de Garibaldi, fiquei pasmo com meu desinteresse pelo filme. Não que fazer juizo da qualidade de um trabalho possa ser resumido pelas premiações que recebe - muito menos diminuir a qualidade dos que o escolheram por meus parâmetros de avaliação. Mas é que, sinceramente,o desenho escolhido como traço que conduziria os personagens absolutamente insossos pela traminha já é um indicativo do que se verá pela frente.

Feito num 2D muito comportado; para crianças minúsculas acostumadas com uma assepsia mal-vinda reinante em alguns trabalhos televisivos; e muito ruim de música (justamente num filmete que fala de música). Tem seu único momento bom justamente quando opta pela diminuição do volume dos traços, fazendo-os de contorno simples e pouco recheio, quando há uma interpretação (um tanto medonha, pelo som obtido) do velha canção "Marinheiro Só". Nem para criancinhas minúsculas- é bom se exigir mais qualidade desde pequenino. Por Cid Nader.

Verão, de Thiago Pedroso, Hiro Ishikawa. Brasil (SP/CE), 2010. Fic - Cor - Vídeo - 09 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 03. (FOTO 6)

Dentro de uma sessão em Tiradentes (Mostra de Cinema da cidade mineira)que trouxe trabalho de matiz bastante pessoal e juvenil (pode ser de grupos, mas filme que falam pela boca e ideia de pessoas que querem se contar aos outros), esse filme cearense veio para contar, sem tentativas mais “ousadas” (no sentido de querer falar difícil, de sub-textos, de referências implícitas em cada movimento da câmera), coisas de jovens junto ao mar, em momentos de lazer. Fala de amor, de desilusão, e tem sua virtude em fazer desses e outros sentimentos explanados, algo muito simples e direto. Por outro lado, ficam duas questões (ou conclusões): não dá para crer no cinema cearense como um movimento recente que abriga obras e realizadores saidos da mesma formação acadêmica e necessariamente estudiosamente engajada (o que pode ser bom para quebrar estereótipos); por que um filme desses, de evidente apuramento na sua conclusão, tanto quanto careta, ganha a chance de participar de festivais, quando, evidentemente, é trabalho de feição e característica de grupo? Por Cid Nader





















Leia as matérias deste festival:

I - BRASILEIROS (A a M) - 30 críticas

II - BRASILEIROS (N a Z) - 22 críticas

III - Internacional - 26 críticas

IV - Latino-Americanos - 4 críticas

V - Destaques: o Cinequanon recomenda.

VI - Dark Side - 5 críticas

VII - Sapporo Short Festival - 4 críticas