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Diários do CINE-PE -
"5 frações de uma quase história" e Curtas


A terceira noite do Cine PE foi mais dedicada aos curtas-metragens e apresentou um longa, "5 Frações de uma quase história". Com relação aos curtas, foram três vídeos e cinco curtas, alguns já comentados em outras coberturas do Cinequanon. Vamos passar rapidamente por eles. Marcelo Lyra escreve sobre o longa e Marcelo Miranda sobre os curtas.


I - "5 frações de uma quase história" (Marcelo Lyra)

A terceira noite de exibições do 11º Cine PE registrou muitos aplausos para esta produção mineira dividida em cinco episódios. Todos são assinados por diretores diferentes, e interligados por um tiro que acerta um carrinho de pipoca, numa praça. São cinco personagens obsessivos: um fotógrafo tarado por pés femininos; um homem influenciado pela TV; um funcionário do fórum que é subornado por um juiz para assumir seu crime; um açougueiro que descobre que sua mulher o trai; e uma secretária desiludida, que resolve casar a força. O filme foi feito com baixo orçamento, (R$ 1,1 milhão) e em apenas cinco semanas (uma para cada episódio).

Como todo filme em episódios, o resultado é um tanto desigual. O episódio da secretária, por exemplo, que fecha o filme e dá a liga com os anteriores, é levado em tom de comédia, enquanto os demais são dramáticos. Justamente por isso, ele destoa dos demais, embora tenha alguns bons momentos e uma grande atuação da promissora Cynthia Falabella, irmã de Débora. O melhor de todos é o que traz Jece Valadão como o juiz corrupto e pervertido (o episódio, por sinal, está mais atual do que nunca, pelo que se vê nos noticiários). Nenhum dos episódios chega a ser ruim e o filme tem uma coerência visual que garante uma unicidade. A relação entre os episódios lembra os filmes de Alejandro Iñarritu e a história do açougueiro guarda uma incômoda semelhança com Amarelo Manga, de Cláudio Assis, embora num contexto bem diferente. No todo, o filme funciona bem, registrando de forma amarga a solidão da vida na grande cidade.


II - Curtas (Marcelo Miranda)


ALÉM DO CAFÉ, PETRÓLEO E DIAMANTES São Paulo, direção de Marcelo Trotta

Bonito documentário sobre dois angolanos fugidos do país de origem por conta das guerras por diamantes. A dupla, agora exilada no Brasil, conta das experiências e da saudade de Angola. O filme é bastante delicado e trata do tema com cuidado, valorizando os talentos de cada entrevistado (um deles é rapper) e dando voz a angústias e dores de quem precisou sair corrido de sua terra.


STELA DO PATROCÍNIO - A MULHER QUE FALAVA COISAS Rio de Janeiro, direção de Márcio de Andrade

Perturbador registro dos pensamentos e idéias de uma interna psiquiátrica que filosofava sobre a vida e deixou um legado de obras em referência (e reverência) à sua pessoa. É um tipo de "Estamira" menos intenso, porém com igual carga de choque no que o ser humano pode ter de louco e lúcido dentro de uma mesma mente. As colocações de Stela sobre a própria condição e a visão contida em relação ao contexto que a cercava deixam muitos espectadores chapados. A direção dribla bem a falta de imagens da mulher, utilizando fotos e gravações em áudio de forma a tentar transmitir o transtorno dela através da montagem.


RUÍNAS Rio de Janeiro, direção de Emílio Gallo.

O encontro de um homem com a morte, ou algo representativo do fim da vida, não é novidade, mas é sempre coisa que mexe com o espectador. Não é diferente neste vídeo, que tem no elenco a excelência de Otávio Augusto e a presença quase inócua (ainda que expressiva) de Caio Blat. Resume-se a um diálogo de forte teor reminiscente, funcionando como um acerto de contas antes de se sucumbir ao descanso eterno. Me remeteu ao japonês "Depois da Vida", de Hirokazu Kore-eda, naquela idéia de se buscar a melhor lembrança antes de morrer. Muito bonito e delicado, e singelo também.


A PESTE DA JANICE Rio Grande do Sul, direção de Rafael Figueiredo.

A opressão que um ambiente escolar pode provocar e a dor da solidão são temas deste curta, mas poderia ser ainda a maldade inerente à infância, época não tão ingênua como se costuma imaginar. O drama da garotinha discriminada na escola e a relação dela com a única coleguinha que lhe dá atenção comovem e são tratados com muito cuidado pelo diretor. Não há auto-piedade na forma como se filma a protagonista. Sofre-se com ela, e não por ela. Ao mesmo tempo em que capta esse olhar por vezes perverso da criança, há alto teor de solidariedade e esperança (ainda que o final seja ambíguo) no desfecho do filme.


VIDA MARIA Ceará, direção de Márcio Ramos.

De longe o curta mais ovacionado até agora no Cine PE deste ano. Com justiça, vale dizer. Animação sobre o ciclo de miséria no sertão nordestino, dosa à perfeição a técnica em 3-D com a história contada. Imagine um desenho animado filmado em plano-seqüência e retratando décadas de uma visa miserável? Essa salada toda é incrivelmente bem resolvida pelo diretor, que se aproveita de todos os recursos ao seu dispor, proporcionados pela tecnologia, para narrar um conto que não guarda maiores surpresas, mas emana poesia e dor. De fato, um filme tocante, dos melhores da safra recente de curtas-metragens.


A CHUVA NOS TELHADOS ANTIGOS Minas Gerais, direção de Rafael Conde.

Já tinha escrito deste quando exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes. Com um reparo ou outro (revisões ajudam nisso, afinal), repito as idéias a seguir: é ruim ficar escalonando os filmes, mas é preciso dizer que este deve ser, ao lado de "Noite de Sexta Manhã de Sábado" (a ser apresentado no Cine PE nesta quinta-feira), o mais maduro entre os curtas da seleção. Resume-se ao diálogo entre um homem e uma mulher que, aparentemente, tiveram algum caso afetivo e intenso no passado. É hora de ajustar contas, revelar dores e anseios e aceitar que nem sempre a vida dá as circunstâncias ideais para as pessoas serem felizes. Tudo é tratado com muito carinho pelo veterano diretor mineiro Rafael Conde, demonstrando enorme amor e respeito pelos personagens que registra - e ainda nos oferece um dos planos mais elaborados e expressivos que se viu recentemente, quando a protagonista tem os olhos emoldurados pelas gotas de água que escorrem no vidro. Se há problemas no filme, são os créditos finais: em vez de deixar o casal à deriva, idéia a qual o filme todo aparenta seguir, Conde retorna com cenas de amor que explicitam a maior riqueza do filme - a ambiguidade e a insinuação de um desejo impossível de ser saciado.


SETE MINUTOS Rio de Janeiro, direção de Julio Pecly e Paulo Silva.

Exercício de câmera e som. Trata-se de um único plano subjetivo de um morador de favela ajustando contas com algum traficante local. Ao mesmo tempo em que busca colocar na película a claustrofobia e o nervosismo de uma situação de violência tantas vezes vista na TV sob os olhos de terceiros, o filme se deixa levar demais pela própria proposta e se enforca nessa ambição. Há mesmo uma elaboração notável, mais ainda no trato com a imagem (meio suja e com falhas), mas ao fim nada de muito memorável sobra.


DIA DE FOLGA Brasília, direção de André Carvalheira.

Fugi de comentar este em Brasília e agora ele volta a mim. Difícil a vida do crítico. Enfim, é um curta que eu considero bastante equivocado e besta (abusando aí dos proibidos adjetivos) sobre um pedreiro que enche a cara de cachaça e começa a ter alucinações envolvendo galinhas, homens de preto e apresentadores histriônicos de televisão. Só vendo o tamanho da besteira, mas parece ter boa receptividade do público, que ria aos montes da patetice na tela. Será que estou ficando chato demais?









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I - Programação