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Diários do CINE-PE -
"O Mundo em Duas Voltas" e "O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol"


I - "O Mundo em Duas Voltas" (Por Marcelo Miranda )

Fui achar um salão de beleza para acertar a minha barba. Entro e só tem mulheres. Pergunto: "vocês acertam barba?". E a mocinha bonita: "Sim, custa R$ 20". Eles realmente acham que turista é rico. Como não sou turista, e muito menos rico, rebati: "nossa, mas é caro. Só pra acertar a barba?!". Aí ela viu minha cara e respondeu: "então pode ser por R$ 10". Ah, bom.

Passada a minha quase-falência, vamos aos filmes da noite. Primeiro veio o vídeo mineiro "Eu sou como o polvo", de Sávio Leite. Em três minutos, exibe o quadrinhinista Lourenço Mutarelli desenhando a si mesmo e falando sobre as angústias que rondam sua cabeça. Trabalho simples, realizado sem grandes arroubos e com criatividade razoável para captar um pouco da essência de um artista. Em seguida veio o curta "Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba", de Ricardo Dias e Thomaz Farkas. Já visto por este cinequanônico no Festival de Brasília, é um resgate importantíssimo de imagens raras do músico, num show de celebração do aniversário de São Paulo, nos anos 50. Não fosse uma certa auto-indulgência do diretor em relação a Farkas e à própria recuperação das tais imagens, o curta poderia respirar e fluir bem melhor. Ainda assim, merece respeito.

O primeiro longa da noite foi o documentário "O Mundo em Duas Voltas", dirigido por David Schürmann. Registra dois anos e meio de uma viagem ao redor do mundo realizada pela família de David. É uma mistura de filme de aventuras com diário real de bordo, recheado de imagens arrebatadoras de dezenas de países e vários continentes. O tom é de celebração familiar. Isso causa um efeito estranho ao longo da projeção. O que pode ser interessante a David não é tanto para o espectador, exposto a histórias e curiosidades nem sempre passíveis de registro em película. Além disso, a narração dos pais contando as peripécias da viagem são razoavelmente "encenadas" demais, e por conta da ciência dos documentados em relação ao fato de estarem sendo filmados, tudo parece um pouco armado e preparado.

E daí, nada de grandes conflitos íntimos, nada de momentos realmente tensos (com exceção da tempestade que abre o filme), nada de "sujeira". Tudo é limpinho, asséptico, por vezes simplesmente inócuo, um grande apanhado dos melhores momentos de uma empreitada ousada. As imagens são, de fato, muito deslumbrantes, mas o que mais fica? Por que assistir a um filme como "Um Mundo em Duas Voltas"? Engraçado é o fato de ser um projeto tão simpático, tão "do bem", tão feito com amor, que fica difícil simplesmente criticá-lo. Não chega a ser ruim - David tem boa noções de filmagem, e o roteiro de Luiz Bolognesi sabe trabalhar ganchos que mantém um mínimo de interesse. Mas não vai muito além dessa superfície.

O outro filme da competição exibido na terça foi mais um documentário, o pernambucano "O Coco, a Roda, o Pnêu e o Farol", de Mariana Fortes. Sobre este, leia o texto abaixo do xará Marcelo Lyra.


II - "O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol", de Mariana Fortes, 80'. (Por Marcelo Lyra)

Este documentário pernambucano procura dar conta das diversas variações do coco, um ritmo musical regional, baseado em cantigas curtas, rimadas ou não, geralmente com uma estrofe, cujas letras são criadas com muita simplicidade, por qualquer pessoa, aproveitando quase sempre uma mesma base melódica e retratando situações do cotidiano.

A maior armadilha dos documentários que procuram resgatar culturas locais é um certo pedantismo, um olhar de cima para baixo, típico de intelectuais que pesquisam temas aos quais são estrangeiros. A diretora estreante Mariana Fortes escapa dessa armadilha de forma inteligente. Seu principal mérito foi ter encontrado uma linguagem adequada ao universo que pretende retratar. Tudo é filmado com simplicidade, sem grandes floreios, com a câmera muitas vezes no centro das rodas de coco. A câmera passeia em meio às pessoas, vai aos locais onde moram ou trabalham os participantes (sempre gente muito simples), e participa das rodas, sem chamar a atenção. O maior momento é quando entrevistas as pessoas que cantam e fazer as letras e, a certa altura, um deles canta uma música de sua autoria. A seguir, um outro cantador, em outro local, canta a mesma música e jura ser de sua autoria. A situação se repete com outra música e outros cantadores, dando idéia de como essa manifestação popular dispersa a autoralidade.

Inicialmente o filme parece uma tese de mestrado, procurando abranger as variações do coco e mostrar os locais onde ocorrem as rodas como um documentário de observação. O espectador chega a temer pelo pior. Mas aos poucos a diretora encontra o rumo e o resultado é um belo retrato desse universo musical, que nasceu em botequins, mas tem forte presença feminina. Não é nenhuma obra prima, nem dá grande contextualização histórica do ritmo, mas é honesto em relação a seu tema e funciona bem como registro.


III - Amanhã

Na quarta-feira, tem "Os 12 Trabalhos", de Ricardo Elias, segundo longa do cineasta e único a já ter estreado no circuito comercial de exibição.








Leia as matérias deste festival:

I - Programação