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Diários do CINE-PE -
A noite de abertura teve de tudo um pouco



Marcelo Miranda


Cá está este cinequanônico para mais um festival. Desta vez, no Pernambuco, para a 11ª edição do Cine PE em Recife. Nunca tinha vindo à cidade e foi uma surpresa quando, ao chegar, não ter sentido o calor inominável que eu esperava. Claro, havia uma brisa (e muito quente), mas nada de desesperador. Será pelo fato de eu estar num hotel de frente à praia da Boa Viagem? Aliás, já me avisaram pra tomar cuidado com os tubarões caso eu deseje dar um mergulho. Como não me sobra muito tempo, e eu prezo demais cada um dos membros do meu corpo, prefiro nem arriscar. Fico apenas com o chuveiro mesmo.

Outra particularidade, que pode parecer óbvia, porém nada saudável, é que todos os ambientes por onde circulei neste um dia e meio em Recife - TODOS, incluindo aí sala de imprensa, saguão do hotel, quarto do hotel, restaurante do hotel, restaurante no centro, cine-teatro, saguão do cine-teatro, carro, van, ônibus - são equipados com o mais alto nível de ar condicionado. É impressionante a obsessão do recifense por esses aparelhos que tanto destróem as vias nasais - e que gera cenas bizarras, como mulheres se enroscando em blusas de frio dentro de uma van enquanto, do lado de fora, o Sol racha de quente. Enfim...

Vamos aos filmes, afinal, que isso aqui não é diário (mas é quase). A noite de abertura teve de tudo um pouco. Documentário, animação, cinema-ensaio, comédia, drama. Foram quatro filmes no total - um vídeo, um curta e dois longas. No trabalhos de pequena duração, ambos de Pernambuco, nada de muito destaque, ainda que interessantes: "O Jumento Santo e a cidade que se acabou antes mesmo de começar", de William Paiva e Eduardo Domingues, usa uma simples e divertida técnica animada para narrar história sobre a pré-criação do mundo e brincar com algums ícones típicos do estado (bode, maracatu, cangaceiro, sertão); o outro, "Schenberguianas", de Sérgio Oliveira e William Capela, já exibido na Mostra de Tiradentes em janeiro, mescla as teorias do físico Mário Schenberg com utilizações de suas idéias no trato com a imagem e o som do próprio filme.

Em seguida vieram os aguardados longas-metragens. O primeiro já abria a competição ao Troféu Calunga. Produção do Rio de Janeiro, "Atabaques Nzinga", de Octavio Bezerra, é projeto de forte carga de identidade cultural. Tem linguagem híbrida e mistura documentário, ficção, ensaio, metáforas e um tanto de outras coisas para narrar, nos dias de hoje, a saga da rainha africana Nzinga N'Bandi. Não bem a saga dela, e sim de uma espécie de descendente do candomblé que leva o nome da guerreira. Vivida por Taís Araujo, a protagonista sai do norte da Bahia em direção ao Rio de Janeiro na busca pelas próprias origens e encontra pelo caminho as mais variadas manifestações afro-brasileiras - algumas em registros reais, outras orquestradas pelo estouro que é o músico pernambucano Naná Vasconcelos.

As imagens da primeira meia hora até descem muito bem, e Bezerra parece muito decidido a valorizar, acima de tudo, as tais manifestações. Mas quando ele passa a preferir a encenação, tudo despenca. Porque fica clara a precariedade de "Atabaques Nzinga", tanto em termos técnicos (o que não é problema, a priori) quanto em questões e escolhas artísticas. Tudo soa equivocado: do sotaque carioca de Taís Araujo aos lugares onde o diretor coloca a câmera, da ambientação fake de um Rio de Janeiro regado a samba à constrangedora cena de assalto no terço final (com direito a imagem acelerada que nos rememora os bons tempos dos Trapalhões).

Nesse ponto, Bezerra já parece ter esquecido da cultura afro-brasileira e tenta inserir provocações sobre violência e preoconceito, o que não funciona no contexto até ali definido. Coisa demais e orçamento e talento de menos não fazem bons filmes - e são capazes de destroçar um projeto que até possuía algum potencial no seu ponto de partida.

Mas a noite estava garantida com o filme seguinte, fora de competição e em homenagem a Ariano Suassuna. "O Senhor do Castelo", do paraibano Marcus Vilar (conterrâneo de Suassuna) levantou a platéia com sua sinceridade, paixão e boas doses de humor. Vilar, claramente fascinado pela figura que retrata, não se rende à sedução de simplesmente elevá-lo na tela. Faz um filme protagonizado por Suassuna, e não necessariamente sobre ele.

Afinal, apenas Suassuna fala ao interlocutor, e de tudo: a morte do pai, a infância, a descoberta da vocação da escrita, a defesa irrestrita e convicta da cultura brasileira. Vilar consegue extrair depoimentos raras vezes ouvidos, em especial quando o autor de "O Auto da Compadecida" descreve o ainda controverso assassinato do pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba e ex-deputado, morto em 1930.

Suassuna tinha três anos quando o pai se foi. Conta que, desde então, tornou-se uma pessoa amargurada e solitária. Difícil imaginar algo do tipo quando se pensa na verborragia, nas opiniões e no jeito espontâneo como ele se expressa. Boa parte da leveza ora polêmica, ora irônica que marca a personalidade de Ariano deve-se, como mostra o filme, a Zélia, esposa e companheira. "Ela me fez enxergar com mais carinho e humor tudo ao meu redor", comenta o escritor para a câmera.

Diferente de tributos cinematográficos questionáveis, como "Pelé Eterno" e o recente "Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro", o filme de Marcus Vilar está na estirpe, guardadas as proporções, de "Nelson Freire" e do ainda inédito "O Engenho de Zé Lins", sobre José Lins do Rêgo, ambos projetos em que os respectivos diretores (João Moreira Salles e Vladimir Carvalho) se posicionam (seja na montagem ou no encadeamento das entrevistas) sem abrir mão do fascínio. Ficam claras, na projeção de "O Senhor do Castelo", as decisões de Vilar sobre o que colocar ou não em cena, de provocar o espectador com declarações polemistas de Suassuna, de ao mesmo tempo se render e se reerguer frente à vaidade assumida de Ariano.

A fala inicial no longa deixa clara a idéia da auto-ironia, tanto do escritor quanto do diretor: "Eu divido o mundo em duas partes: de um lado, as pessoas que concordam comigo e gostam de mim; do outro, os equivocados", afirma Suassuna. E logo em seguida, solta uma grande gargalhada. Belo filme.

Nesta terça-feira passam mais dois documentários da competitiva de longas: "O Mundo em Duas Voltas", de David Schürman e com produção paulista; e "O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol", realizado em Pernambuco por Mariana Fortes. É esperar e voltar aqui no Cinequanon amanhã.










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I - Programação