O Estranho Caso de Angélica:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Espanha/França/Portugal
Direção: Manoel deOliveira
Elenco: Pilar López de Ayala, Ricardo Trepa, Filipe Vargas.
Duração: 97 min.
Estréia: 30/08/2013
Ano: 2010


O que move Manoel


Autor: Cid Nader

Estranho como Manoel de Oliveira consegue renovar o que quer dizer, a cada filme que passa, adotando as mesmas técnicas de construção, o mesmo jeito de filmar, a mesma grandiosidade, e inclusive alguns defeitos recorrentes: sei que somente o fato de falar na possibilidade de defeitos em sua obra já seria motivo para que amigos me excomungassem – falar de defeitos recorrentes, então... Na realidade, não é de defeitos constituída sua obra, e eles não são razão da marca maior de sua existência, portanto, falemos do filme e das novidades que o velho Manoel consegue empregar como peça de moleque travesso.

Quando se pensa nessa coerência fílmica – que ajuntada entrega autoralismo -, lembra-se da capacidade de filmar e enquadrar, feitos da maneira mais elegante e concisa possível. É evidente a classe de seus filmes, o quanto são produzidos com o adequamento das luzes para fechar quadros que poderiam, se vistos fora do contexto da telona, ser confundidos com retratos ou pinturas penduradas, onde o autor teve tempo e paciência para a elaboração de todos os detalhes, com a certeza de que, paradas, as imagens conseguiriam representar toda a gama pictórica desejada: ele faz isso, sempre, a cada cena, e com a diferença bastante complicadora de que o faz com elementos que se movem durante o processo de captura, e continuarão a se mover durante a fase de reprodução ao público. A primeira cena de O Estranho Caso de Angélica, com uma pequena cidade do D'Ouro filmada do outro lado do espelho de água, à noite, com as luzes artificiais incidindo suavemente sobre os telhados e as ruas, e com leves reflexos destacando-se dentro desse espelho de água – tudo potencializado pela chuva que insiste em molhar mais o ambiente – plasticamente é perfeita, como um belo quadro, com a placidez do instante sendo repassada, com a calma da câmera imóvel deixando que os ambientes e a “potência” dos brilhos representassem por si tudo o que de imagético poderia.

Lembrando ainda que nessa primeira cena é adornada com uma bela peça de piano, de obra de Beethoven – que se estenderá por outros momentos específicos, e que é mais uma das marcas de repetição das boas coisas que o diretor preza nas suas construções -, adentra-se na cidade, filma-se a chuva mais de perto, percebe-se o resultado daquelas leves luzes cumprindo sua missão de iluminar as vias, e percebe-se como é possível a obtenção de mais um grande momento de imagens (como os calçamentos antigos são bem observados, como as fachadas complementam bem o clima de vila antiga – como ele consegue trazer para a tela todas essas sensações com a destreza de seus fotógrafos). Se lê na fachada, na qual bate um estranho vindo de automóvel, “FOTO GENIA”, e, mais do que a busca de um fotógrafo que ele busca para tirar fotos de uma jovem recém-falecida (a Angélica), percebe-se que ali há a homenagem mais direta, por letras, do que ele imagina ser o fator bastante importante na arte em que trabalha: que são as imagens.

Não dá para classificar Manoel como um diretor que privilegie somente as imagens como o algo que deverá preponderar sobre o todo (se necessário), como fazem alguns grandes mestres. Ele é diretor que acredita demais nas atuações, também – ele as imposta bastante em seus filmes, de modo meio teatral, o que resulta um dos tais defeitos recorrentes que me incomodam particularmente, mesmo pensando que tal procedimento seja o de atitude pensada em benefício da força do texto -, ou no humor ferino e sutil ao mesmo tempo. Acredita nos colóquios cultos proferidos em meio aos atos empostados: talvez esse o fato que mais me incomode em sua obra, como se ele aproveitasse o personagem em cena para destilar um tanto de sua conhecida erudição e de seu pendor à ciência, criando para tais situações cenas e sequências que acabam por tomar o jeito de discos voadores inseridos na marra dentro de uma sala de cristais (a cena com a brasileira Ana Maria Magalhães chega a ser constrangedora). Como disse, acredita e utiliza muito bem as músicas clássicas em suas bandas sonoras. Não é um diretor somente de imagens, mas de filmes – com belíssimas imagens.

O personagem principal, aqui, Isaac, um jovem fotógrafo que habita pensão com tipos estranhos em comportamento, chamado à noite para fotografar a morta, acaba sofrendo demais com a imagem, com o fato, embarcando numa viagem interior, de tentativa de reconhecimento, de tentativa de entender o etéreo ou as certezas (o que são fotos, afinal?), de insanidade sobre fatos de origem talvez onírica. Antes, se interessava pela rudeza e honestidade de trabalhadores do campo que observava e desejava fotografar – e aí, o Manoel da obra coerente retorna à sua região, no entorno do Rio D'Ouro, aproveitando para filmar os tipos que devem ter-se feito as figuras marcantes de sua infância, e aproveitando, também, para trocar a música clássica por uma cantiga camponesa, típica, que faz ver nele o autor que era coerente, mas que teima, num mesmo espaço a que dedico uma observação, em se mostrar rebelde e novidadeiro, renovador.

O filme é lindo, como sempre são os filmes dele, acariciante da alma, plácido e plástico. As interações são mescladas por ternura e o humor típico dele. E ele se reafirma quando inventa, quando percebe que já foi reconhecido por um amontoado de signos que se repetem: introduz a música dos camponeses e imagina um truque em 3D, tão surpreendente (para quem não sabe da sua capacidade de surpreender) quanto belo, lúdico, que casa com um dos estranhos diálogos cultos inseridos na trama. Talvez não devesse ter gastado letras com o pouco que me incomoda na obra de um ser humano que não tem a intenção de ser um deus infalível, já que, a cada minuto (e por anos), o filme se ratifica de forma singela na minha memória.

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