Irmãs Jamais:


Fonte: [+] [-]
Original: Sorelle Mai
País: Itália
Direção: Marco Bellocchio
Elenco: Letizia Bellocchio, Maria Luisa Bellocchio, Elena Bellocchio.
Duração: 110 min.
Estréia: 19/04/2013
Ano: 2010


Família


Autor: Cid Nader

Marco Belocchio é indiscutivelmente um dos maiores cineastas em atividade. Os anteriores Bom Dia, Noite e Vincere com certeza estarão em várias listas dos melhores filmes dos últimos anos. Irmãs Jamais , seu filme mais recente, foi realizado em condições muito diferentes dos dois citados: é um filme de família, com a família no elenco, feito em regime quase caseiro, usando registros feitos em suportes dos mais baratos produzidos em oficinas que ele dava na sua cidade natal, Bobbio. Mas, ainda assim, não deixa de ter a marca do gênio, daquele que transforma mesmo um registro intimista, familiar, quase documental, que para muito jamais renderia um filme, numa obra marcante, humana e pontuada de questões que ficam na mente e na retina dias e dias após a projeção.

Irmãs Jamais , título que na tradução literal do italiano perde bastante o sentido, registra alguns momentos da vida de Giorgio (filho de Belocchio na vida real); da sua irmã, Sara (interpretada pela atriz Donatella Finocchiaro); da filha dela, ou seja, da sobrinha de Giorgio, chamada Elena (interpretada pela filha mais nova de Bellochio que como os outros não atores têm no filme o nome de batismo); de duas tias (tias do diretor, na vida real) e de Gianni (vivendo ele mesmo), o administrador dos bens da família. O primeiro momento se passa em 1999 e o último em 2008. As sequências vão compondo um mosaico das relações familiares e da trajetória das personagens no período, dando conta na mesma medida das mudanças por que passa a sociedade italiana, a família italiana e o mundo, no choque entre as aspirações dos mais novos e dos mais velhos.

Começa com Giorgio lendo Tchecov, que afirma que a cidade pequena não se modifica nunca, que não trouxe nenhuma ideia nova e ninguém importante ao mundo, e que vai ser a mesma nos próximos 200 anos. O trecho se aplica a Bobbio, cidade da família de Belocchio, e à difícil tarefa de tentar ser alguém longe da terra natal, longe da segurança que a tradição e dinheiro da família conferem, e no anonimato da cidade grande, numa outra lógica de mundo, no caso dele em Roma: no caso da irmã, em Milão.

Além deste, despregar-se das tradições e vínculos familiares e da construção da identidade social, do conceber-se como sujeito, perto e longe da família – no filme, um dos irmãos está sempre chegando ou saindo de Bobbio -, é belíssima a forma como as tias e Gianni amparam a sobrinha neta pequena que se recusa a ter a infância longe dali e dos próprios sobrinhos. Impossível, ainda mais para os que descendem de famílias italianas, não identificar-se com as atitudes, falas e preocupações dos mais velhos ou se emocionar nesse caldo de relações familiares tão próximas e tão bem construídas pelo diretor, à medida que expõe a verdade de cada um dos envolvidos e cada um de seus sentimentos. Tudo de forma fragmentada, com cenas que vão compondo uma peça musical de ritmos variados em quase uma década de transformação, sobretudo, da pequena Elena, que notamos passar da infância à adolescência.

Além dos episódios familiares, um, aparentemente solto, inserido à história, diz muito sobre o filme e a vida ali: nele, uma professora, que é locatária, ao que parece, de um cômodo na casa da família, revê sua forma de ser ao participar de um conselho de classe que julga, com a arrogância que costuma existir nestas reuniões, quais alunos devem prosseguir ou serem retidos. O próprio Belocchio faz o professor que preside a reunião e a reviravolta que a jovem professora promove ao mudar seu voto dá conta de certo modo da visão do diretor em relação a seus personagens e às suas “erranças” pela vida. Lembra a personagem de Bom Dia, Noite, descobrindo o mundo.

Leia também: