A Caverna dos Sonhos Esquecidos:


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Original: Cave of Forgotten Dreams
País: Fr/Can/EUA/RU/Ale.
Direção: Werner Herzog
Elenco: Documentário.
Duração: 90 min.
Estréia: 25/01/2013
Ano: 2010


Um texto feito para o Facebook


Autor: Cid Nader

Reconhecidamente um “retardado”, voltei da “16ª Mostra de Cinema de Tiradentes” com a primeira missão de resgatar a crítica que tinha feito para o A Caverna dos Sonhos Esquecidos, do Herzog, lá na “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo” de 2011, para postá-la nas estreias lá do Cinequanon. Bem: começo a busca pelo texto entre as minhas coisas... nada! Segundo passo (talvez o que mais adote quando quero encontrar algum texto meu de maneira mais rápida e menos traumatizante): vou ao Google, e tenta de lá, tenta de cá... nada. Eu cá com a certeza de que havia escrito sobre o doc (que vi bem no final da Mostra, pois estive fora de São Paulo por boa parte de sua trajetória), de que havia até penado para achar a foto mais bacana para exibir, e a lógica binária da internet me negando. Me conheço: não escrevi – mas não atino a razão.

Hoje (terça-feira, 29/01/2013, sessão das 15h no querido Cinesesc), e lá vou eu rever o filme: há tanto, mas tanto tempo não faço isso de ir a uma sessão que não na cabine. Imagino esse trabalho o maior e mais importante utilizando a tecnologia do 3D (que normalmente acaba por entregar mesmo, desconforto, enrolação visual e ingressos obviamente mais caros). Pela primeira vez vejo o 3D do Cinesesc, e foi muito bacana ver o filme lá: mas confesso que a impressão restada da sessão em 2011 no Frei Caneca era de um pouco mais de qualidade - se bem que os óculos de hoje eram bem melhores (em termos de conforto) do que os que normalmente nos massacram.

Mas, ao que interessa: baita filme lindo, sô! Arriscaria que o maior trabalho do diretor nessa sua fase documentarista. Há talvez um pequeno excesso no texto narrado, que percorre boa parte do tempo: um pouco “filosófico” a mais do que seria o de bom senso - mas é absolutamente compreensível esse superlativo nos ditos, já que a experiência remete fortemente a pensar na beleza e loucura dessa espécie que por vezes parece tão deslocada no planeta, que é o ser humano. O filme se encarrega, pelas imagens sempre impressionantes das pinturas e pela dedicação dos que as desvendam e protegem na atualidade, de elevar o lado belo da humanidade, que pode “inusitar”, fazer do visto arte, se expressar pensando nos próximos... Emociona demais ver o humano, ali, fora da alça da mira ruim, da maldade, da intolerância.

Se falo em maior trabalho do 3D, parece redundância citar o primor técnico do filme: que se dá pelo vasculhamento dos trechos possíveis de serem filmados dentro da caverna na França, mas também é de esmero raro na elucidação de todo o entorno e conformação geográfica. As imagens em 3D nunca são menos do que belas.

E há, evidentemente, aquela velha e bem-vinda curiosidade pelos tipos humanos menos “dentro do padrão”, o que talvez seja a mais reconhecível assinatura de autoralidade de Werner Herzog. Desde os tempos de ficcionista, o humano que extrapola o comum lhe parece o doce mais saboroso a ser alcançado: e tome ele aqui dedicando atenção ao rapaz que trabalha nas “estruturas” mas veio do circo; ou no cientista de cabelos e bigodes brancos que entre outras “anormalidades” resolve demonstrar como deveriam ser as caçadas aos grandes animais; ou na responsável principal preocupada com os caminhos constituídos para evitar danos ao patrimônio; além do perfumista que usa o nariz como usamos o cérebro.

Os cavalos alinhados, os leões em movimento, rinocerontes brigando, a meia mulher sendo abraçada pelo bisão, marcas das unhas dos ursos, assinaturas com as mãos de um dos que pintavam que tinha o dedinho deslocado... Uau!! Feliz... E mais feliz.

P.S.: Ah... E o Herzog domina e desenvolve de maneira tão boa o evento que é aquela "santice" toda que cerca as pinturas rupestres de 35 mil anos na Caverna Chauvet, (no sul da França), em A Caverna dos Sonhos Esquecidos, que, embevecido, sempre esqueço de evocar o final.

Onde somos transferidos dos atos humanos que nos fazem santos para os que nos impõem as marcas clichês de "aviltantes" e "agressores" atípicos ao planeta, para um micro sistema falso tropical nascido e sustentado pelos vapores das águas usadas para resfriar usina de energia atômica ali na esquina. Mesmo sendo o belo Herzog que consegue encontrar filosofia na imagem dos jacarés albinos (prováveis rebentos das coisas que restam da radioatividade e de um sistema biológico anatural) , imaginado-os os que visitarão as cavernas "com um mesmo estupor", num futuro, a cutucada ecologicamente correta resgata um pouco a sensação do humano ruim, que pelo filme todo esteve sepultada.

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